Braveza para proteger

Coimbra já lutava para salvar espécies quando não havia preocupação com o ambiente

Giovana Girardi, de O Estado de S. Paulo,

01 Outubro 2008 | 20h43

Quem vê Adelmar Coimbra-Filho, de 84 anos, ao lado de sua cadela Nana, uma bichon frisé branca como os cabelos de seu dono, pode até visualizá-lo como um avô de bochechas rosadas que não se mete em encrencas. Bastou Coimbra começar a falar sobre a destruição da mata atlântica ou da Amazônia, no entanto, para mostrar que a aposentadoria não lhe trouxe papas na língua. Entre uma bronca nos "imbecis" que plantam árvores exóticas, em vez de nativas, nas praças do Rio, e uma esbravejada contra os "cretinos" que queimam a floresta amazônica antes que se conheça aquela biodiversidade, Coimbra vai mostrando a ousadia que o tornou um dos principais defensores do ambiente no Brasil, mas que também lhe rendeu bons bate-bocas.   Botânico por formação, o pesquisador acabou se dedicando ao estudo de animais, quando virou chefe-científico do Jardim Zoológico do Rio de Janeiro. Foi parar ali meio por castigo: havia impedido duas "madames" de levarem embora um vaso do patrimônio do Parque da Cidade, na Gávea, onde iniciou a carreira. Mas no novo cargo pegou gosto pelos bichos e acabou repovoando com espécies típicas várias matas do Rio, em especial o Parque Nacional da Tijuca. Reintroduziu por sua própria conta, por exemplo, tucanos, periquitos, jacus e outros bichos que hoje existem na zona sul da cidade. Nunca deixou de olhar, porém, para a mata. Na Tijuca, ele se preocupou em fazer reflorestamento com o palmito juçara - espécie que alimenta dezenas de aves e pequenos roedores - e conta que em todo o Rio é possível encontrar árvores plantadas por ele.   "Uma vez me perguntaram se sou zoólogo ou botânico. Respondi que sou um zoólogo sério - se trabalho com macaco, tenho de conhecer a área onde ele vive, então preciso entender a floresta", afirma com seu tom meio bravo e indignado com a pergunta. Mas foi com o estudo de primatas que atingiu seus principais resultados, sendo considerado pai da primatologia no Brasil. Ajudou a salvar sagüis e o mico-leão da cara dourada e fez pesquisas pioneiras sobre vários macacos brasileiros. Em 1970, realizou provavelmente o seu maior feito: redescobriu o mico-leão-preto na reserva do Morro do Diabo, no Pontal do Paranapanema (região oeste do Estado de São Paulo), fazendo os primeiros estudos sobre o comportamento desses animais. A espécie não era vista na natureza havia várias décadas e já era considerada extinta. "De repente, estava andando na mata quando olhei para cima e vi três, pretinhos. Não tinha erro, só podia ser ele. Foi uma emoção que nem sei descrever direito", conta. O achado lhe permitiu levar alguns exemplares para testar a então inédita reprodução em cativeiro da espécie.   Anos depois, quando já havia inaugurado o Centro de Primatologia do Rio, local onde formaria vários primatólogos do País, como Claudio Padua (mais informações sobre o pesquisador na página 4), Coimbra foi informado que os poucos micos existentes no Pontal estavam ameaçados pelo crescente desmatamento e pela inundação provocada pela construção de uma nova usina. Correu para lá com o jovem Claudio a tiracolo, dando início ao trabalho de salvamento da espécie.   MÁGOA GUARDADA Ao mesmo tempo em que comenta com orgulho esse trabalho, Coimbra revela mágoa com o que considera falta de reconhecimento. "O paulista é muito ingrato comigo. O Instituto Florestal fez um livro sobre o Morro do Diabo, em 2006, e nem citou meu trabalho, mas foi a redescoberta do mico-leão-preto que forçou a transformação da então reserva em parque. Foi isso que salvou aquela região."   Coimbra guarda a impressão que, em geral, foi mal-aproveitado pelo País. Se dependesse da sua vontade, estaria até hoje agindo em defesa do ambiente. "Acho que ninguém me entendia", lamenta, antes de arrematar. "Restaurar a bacia do Rio São Francisco era o meu xodó, mas não me chamam para nenhuma reunião."   O reconhecimento, no entanto, está espalhado pelas estantes do apartamento de Coimbra na Gávea, no Rio. Em livros de diversos outros primatólogos de renome mundial, o brasileiro é citado como referência, e com reverência. Para "provar", mostra orgulhoso dedicatória escrita por Russell Mittermeyer, presidente da ONG Conservação Internacional, em uma série de luxo sobre biodiversidade. Na obra, o americano chama Coimbra de "eco-herói" e agradece: "Obrigado por conduzir-me sob suas asas e servir de inspiração."   No livro Lion Tamarins Biology and Conservation, de Devra Kleiman e Anthony Rylands, que abordam várias espécies de mico-leão, Coimbra conta 36 referências aos seus estudos e relê a dedicatória feita pelos autores ao "verdadeiramente extraordinário homem que sempre nos desafiou a fazer o nosso melhor e manter questionando, que nunca oscilou de suas crenças e sempre inspirou tantos a buscar uma carreira em primatologia e conservação".

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