Gabriela Biló/Estadão - 26/8/2019
Gabriela Biló/Estadão - 26/8/2019

Brasil tenta recompor sua imagem depois de queimadas na Amazônia, diz Financial Times

Reportagem ressalta campanha Brazil by Brazil que, segundo a publicação, 'tem ecos nacionalistas e como alvo o público americano e europeu'

Célia Froufe, O Estado de S.Paulo

22 de setembro de 2019 | 11h07

LONDRES - Após um mês de controvérsia sobre o manejo de incêndios que devastaram a floresta amazônica, o governo de direita do Brasil está tentando dar um novo impulso à sua imagem internacional antes da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) na próxima semana. O texto sobre o País foi publicado neste domingo na versão online do jornal britânico de economia Financial Times.

 

A publicação ressalta que a campanha de marketing "Brazil by Brazil" foi lançada na sexta-feira, quando começou a assembleia em Nova York. "Ela tem ecos nacionalistas e como alvo o público americano e europeu com mensagens na televisão e nos jornais, divulgando as regulamentações ambientais do Brasil e o papel do agronegócio na alimentação de uma grande fatia da população global", avaliou o FT.

O diário lembrou que o Brasil tem algumas das regulamentações ambientais mais rigorosas do mundo há décadas e muitos grandes agricultores estão envolvidos em práticas sustentáveis para reduzir a degradação ambiental. No entanto, grande parte da controvérsia sobre a Amazônia foi desencadeada pelo "estilo pugnaz" do líder de extrema direita Jair Bolsonaro, que desenvolveu um relacionamento amargo com alguns líderes europeus e que foi exacerbada por protestos contra os incêndios na floresta e o crescente desmatamento.

O FT destacou que Bolsonaro, que abrirá a Assembleia Geral da ONU na próxima semana, disse à Record TV do Brasil que seu discurso em Nova York "reafirma a questão de nossa soberania". Otávio Rêgo Barros, seu porta-voz, disse que seu chefe fará um "discurso sincero" no qual rejeitará a noção "de que o Brasil não cuida da Amazônia, não cuida do meio ambiente".

O periódico ressaltou também que o importante setor agrícola do Brasil está ficando cada vez mais temeroso com os boicotes à produção brasileira de produtores ocidentais preocupados com a destruição da maior floresta tropical do mundo. No início deste mês, a H&M, a segunda maior varejista de moda do mundo, parou de comprar couro do país latino-americano, citando preocupações ambientais. A decisão segue movimentos semelhantes das marcas de calçados Vans e Timberland, bem como do grupo de roupas para o ar livre The North Face.

"Estamos perdendo a guerra de informação para movimentos que estão interessados em nos prejudicar", disse Soraya Thronicke, senadora do partido conservador PSL, o mesmo de Bolsonaro. Após inicialmente parecer culpar os incêndios contra grupos sem fins lucrativos, o FT recordou que Bolsonaro acusou as nações europeias de violar a soberania do Brasil questionando sua tutela na Amazônia. "A retórica do presidente não ajuda em nada. De fato, isso atrapalha, mas os líderes europeus estão usando o Brasil para obter seus próprios ganhos políticos em casa”, disse um alto funcionário do governo Bolsonaro ao jornal.

O embate mais destacado do presidente brasileiro sobre o assunto ocorreu com seu colega francês, Emmanuel Macron. Na reunião do grupo dos sete países mais ricos do mundo (G-7) no mês passado, Macron ofereceu um pacote de ajuda de US$ 20 milhões das nações do G-7 para extinguir os incêndios e depois reflorestar e proteger a floresta tropical. Bolsonaro criticou a oferta por tratar o Brasil como uma "colônia". As coisas ficaram pessoais depois que Bolsonaro ecoou insultos direcionados à esposa de Macron no Facebook. "Este não é o comportamento de um presidente", retrucou Mácron.

Macron também ameaçou não ratificar um dos maiores acordos comerciais do mundo recentemente acordados entre países europeus e um bloco de países da América do Sul (Mercosul), cujo membro mais importante é o Brasil. Na quarta-feira, um comitê no parlamento da Áustria rejeitou o acordo devido a preocupações com incêndios na Amazônia, em uma decisão vinculativa para o governo. "A floresta tropical é incendiada na América do Sul para criar pastagens e exportar carne com desconto para a Europa", disse Elisabeth Koestinger, ex-ministra da Agricultura do conservador Partido Popular. "A UE não deve recompensar isso com um acordo comercial."

"O Mercosul definitivamente não era popular e o fato de ser encarnado por Bolsonaro tornou-o ainda mais impopular", explicou François Heisbourg, da Fondation pour la Récherche Stratégique (Fundação pela Pesquisa Estratégica), um "think tank" de Paris.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.