Magali Antunes/ Elat/Inpe Divulgação
Magali Antunes/ Elat/Inpe Divulgação

Brasil registra alta de 29% de raios neste ano; veja regiões com mais casos

La Niña favorece fenômeno, mas especialistas dizem que mudanças climáticas vão tornar esses casos cada vez mais comuns; descargas elétricas aumentam riscos de queda no serviço de energia

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

08 de março de 2022 | 15h07

SOROCABA - O Brasil registrou 29% mais raios nos dois primeiros meses de 2022 em comparação com o mesmo período do ano passado, segundo levantamento de um grupo do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Entre janeiro e fevereiro, foram 17 milhões de descargas elétricas, ante 13,2 milhões no 1º bimestre do ano anterior. Segundo especialistas, as mudanças climáticas favorecem eventos extremos - como as chuvas que arrasaram áreas da Bahia, Minas e a Região Serrana do Rio - e também a ocorrência de raios. 

O Brasil é líder mundial de registros de raios. Além dos riscos de acidentes e mortes, a maior quantidade de descargas pode aumentar problemas de interrupção de fornecimento de energia elétrica e de incêndios. Na comparação, o número de mortes por raios no País diminuiu de 26 no primeiro bimestre de 2021 para 18 nos meses de janeiro e fevereiro deste ano.

Os cinco Estados com mais raios foram Amazonas (2.608.255), Mato Grosso (2.030.670), Pará (1.823.955), Minas (1.539.276) e Tocantins (1.004.022). Em 14 Estados, entre eles São Paulo e Minas, houve ocorrência de raios em todos os dias de janeiro e fevereiro. 

Segundo Osmar Pinto Junior, especialista em raios e coordenador do Grupo de Eletricidade Atmosférica (Elat) do Inpe, o fenômeno La Niña influencia a frequência das tempestades no Brasil, mas não pode ser apontado como causa da alta este ano, pois esteve presente também em 2021. “Quando a gente olha a estatística de forma isolada, fica difícil estabelecer a causa. No entanto, quando analisamos o contexto dos eventos relacionados ao clima, fica mais evidente que tem relação com as mudanças climáticas”, avalia. 

“As enchentes no sul da Bahia, por exemplo, foram as maiores dos últimos 40 ou 50 anos e totalmente atípicas, pois não costumam acontecer naquela região. Também tivemos períodos de ventos intensos na região Centro-Oeste, nos Estados de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás, igualmente atípicos. Foram de tal força que causaram a queda de 30 torres de retransmissão de energia”, afirmou.

Já sobre a quantidade de raios por estado, ele disse que a incidência segue a extensão territorial – os maiores Estados são os que registram mais raios. A exceção é o Rio Grande do Sul, que sofre a influência das tempestades que se formam no norte da Argentina e registra uma proporção maior de raios. Conforme o pesquisador, a temporada de raios deve seguir até o final deste mês, começando a reduzir a partir de abril, principalmente no Sudeste. “Aqui, os raios estão mais concentrados no verão, portanto eles voltam a acontecer com mais frequência a partir de outubro”, explicou.

Fenômeno ameaça rede elétrica e áreas verdes

Os raios podem contribuir com interrupções no fornecimento de energia, como aquelas decorrentes do temporal que atingiu a capital paulista no último sábado, 5 e deixou consumidores sem luz por mais de 48 horas. Segundo Pinto Junior, nos grandes centros urbanos, como São Paulo, Rio de Janeiro e outras grandes cidades, há aumento na incidência de tempestades e raios, que se deve a um fenômeno chamado ilha de calor. “O asfalto, os prédios e a poluição dos carros fazem com que haja aumento local de temperatura, que favorece a formação de mais tempestades e intensifica essas tempestades”, explicou.

As descargas atmosféricas tanto podem atingir diretamente a fiação de ruas e postes, como podem causar a queda de uma árvore que, por sua vez, atinge a fiação. Segundo ele, as árvores são atingidas constantemente por serem as referências mais altas em determinado lugar. A seiva presente no tronco é melhor condutor de energia do que o ar. Se a casca está molhada, a descarga pode ficar restrita à parte externa e fluir para o solo, sem grandes danos. Se a descarga penetra, ela quebra a árvore e os galhos podem atingir a fiação elétrica.

Segundo ele, os raios matam milhares de árvores por ano em áreas verdes e nas florestas. No caso de florestas úmidas, como a Amazônia, por causa da alta umidade do solo, geralmente o fogo não se propaga e não causa incêndios de grandes proporções. Em ambientes mais secos, como o Pantanal, os raios são causa importante de incêndios. O fogo que durante 20 dias queimou o Parque Estadual Encontro das Águas, em Porto Jofre, no Pantanal de Mato Grosso, em 2021, foi causado pela descarga elétrica que atingiu uma árvore durante uma tempestade.

A conclusão é de uma perícia realizada pelo Corpo de Bombeiros na árvore destruída pelo raio. Os peritos em incêndio florestal identificaram o ponto em que o tronco foi partido pela descarga, coincidindo com o primeiro foco de fogo. Porto Jofre é o hábitat da onça-pintada Ousado, que se recuperou após sofrer graves queimaduras nas patas, durante um incêndio no Pantanal, em 2020. Pesquisa recente divulgada pelo Observatório do Pantanal aponta que 5% dos incêndios no bioma têm causas naturais, sendo a principal o raio.

Além da morte de animais, há perdas de lavouras devido aos incêndios causados pelas descargas originadas nas nuvens. Em agosto de 2021, um raio causou um incêndio em um canavial, no município de Cravinhos, região de Ribeirão Preto. As chamas envolveram um caminhão agrícola e causaram a morte do seu condutor.

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