Rodrigo Paiva/Greenpeace/Efe
Rodrigo Paiva/Greenpeace/Efe

Brasil foi 'desesperado', diz Greenpeace

'Fracasso' não se deve exclusivamente à posição do País ou da ONU, segundo ONG

Herton Escobar, enviado especial

22 Junho 2012 | 22h55

RIO - O "fracasso" da Rio+20 não pode ser atribuído exclusivamente ao Brasil nem à ONU. Mas a posição "desesperada" do Brasil de "fechar um documento a qualquer custo" colocou a conferência no rumo do "menor denominador comum", na opinião do sul-africano Kumi Naidoo, diretor executivo do Greenpeace Internacional.

 

Ele foi um dos 36 representantes da Cúpula dos Povos – evento paralelo à Rio+20 que ocorreu no Aterro do Flamengo – que se encontrou com o secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, nesta sexta-feira, 22.

 

A ONU vetou a entrada de jornalistas no encontro e fez um cordão de isolamento na frente da sala, para evitar que Ban fosse abordado na saída. O sul-coreano saiu do local sem falar com a imprensa.

 

Segundo relatos de Naidoo e outras pessoas que estiveram na reunião com o secretário-geral da ONU, Ban ouviu as preocupações com o "fracasso" da conferência, mas manteve o discurso de que os resultados da Rio+20 são significativos e ambiciosos.

 

Na quarta-feira, o sul-coreano havia afirmado em uma entrevista coletiva que concordava com a percepção geral de que o documento final da conferência poderia ser mais "ambicioso". Na quinta, porém, voltou atrás e mudou o discurso, após ser pressionado pelo Brasil.

 

Sharan Burrow, secretária-geral da International Trade Union Confederation, se mostrou indignada com a "falta de coragem" dos chefes de Estado de negociar um documento mais ambicioso, aceitando o texto "sem conteúdo" produzido pelos "burocratas". "Sinto-me profundamente irritada e frustrada", disse.

 

Desde a quarta-feira, chefes de Estado ou representantes de alto nível dos 193 países-membros da ONU se revezaram num pódio do Riocentro, um após o outro, para discursar sobre o que o seu país pensa do desenvolvimento sustentável.

 

Na maioria dos casos, eles falaram para uma plateia quase que vazia, discursando apenas para a televisão e para os registros dos arquivos da ONU. Como o documento final da Rio+20 já está fechado desde a terça-feira, a conferência ficou quase que sem nada para resolver nos últimos três dias.

 

"Os líderes chegam aqui para uma cúpula de três dias, com um texto sobre a mesa que não tem ambição nenhuma, e não passam nem uma hora que seja discutindo o documento", criticou Naidoo, lembrando que as viagens das comitivas são pagas com dinheiro público.

 

A conferência terminou com uma sessão plenária na qual foram aprovados os documentos negociados nos últimos dias. O principal deles, chamado O Futuro que Queremos, criticado pelas ONGs, foi costurado pela diplomacia brasileira.

 

Naidoo qualificou a Rio+20 como uma "oportunidade história perdida" e criticou especificamente os Estados Unidos, o Canadá, a Rússia e a Venezuela por terem impedido avanços nas negociações sobre a proteção aos oceanos. "Quando há interesses petrolíferos, os países acabam acertando suas diferenças", disse o ativista sul-africano.

 

Naidoo voltou a lamentar a falta de ambição e os compromissos vagos do documento final. "Nossos líderes abdicaram de suas responsabilidades. Vieram para cá às custas de impostos e deveriam fazer um trabalho sério", declarou, acusando governos de serem reféns de grandes corporações poluidoras. "Não temos ações implementadas para reduzir as emissões até 2015."

 

O ativista sul-africano também citou a retirada do termo "direitos reprodutivos" do texto final. "É uma realidade escandalosa quando um grupo preponderantemente masculino se reúne para tomar decisões sobre direitos das mulheres."

 

COLABOROU FELIPE WERNECK 

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