Brasil está à beira da maior extinção de espécies da história

Mais de mil animais podem desaparecer nos próximos anos

ESPECIAL PARA O ESTADO

29 Agosto 2014 | 19h06

SÃO PAULO - País com maior diversidade biológica, abrigando entre 15% e 20% do número total de espécies do planeta, o Brasil está à beira da maior extinção animal da história. Atualmente, mais de mil espécies estão em vias de desaparecer. E esse número pode aumentar.

O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) em parceria com especialistas, está preparando a Lista Vermelha: levantamento inédito sobre a conservação de todos os vertebrados e de alguns invertebrados – só os de maior relevância social ou econômica, como abelhas, esponjas e o bicho-da-seda. Ao todo, são mais de 10 mil espécies – faltam 2,4 mil para serem analisadas.

O documento avalia o grau de ameaça para cada animal. De acordo com Ugo Vercillo, coordenador geral de manejo para conservação do ICMBio , o Brasil não evoluiu na proteção das espécies, quando comparamos com os resultados do levantamento de 2003.

“O grau de ocupação do solo aumentou nesse período, reduzindo hábitats. Em contrapartida, a conservação melhorou nas áreas de proteção ambiental”, afirma Vercillo.

Desde o início do século 16, o homem erradicou 322 espécies de vertebrados no mundo. Até então, apenas uma em cada 10 milhões de espécies desaparecia no período de um ano. O número aumentou mil vezes. Atualmente 100 em cada milhão são eliminadas anualmente, de acordo com um estudo da Universidade de Stanford, na Califórnia.

“Mesmo as espécies não ameaçadas diminuíram bastante”, afirma o biólogo e colaborador da pesquisa Mauro Galetti, da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Antes, a extinção estava ligada aos desastres naturais, como erupções vulcânicas ou quedas de asteroides. Hoje, o homem é apontado como principal vetor da extinção. Nos últimos cinco séculos, 80 das 5, 57 mil espécies de mamíferos desapareceram. Desde a década de 70, as populações dos vertebrados não domésticos sofreram uma queda de 30%.

Habitat reduzido. “O problema no Brasil é o meio ambiente”, afirma Galetti. O habitat natural dos animais diminuiu. “A Mata Atlântica é um dos sistemas mais devastados do mundo. A taxa de desmatamento no cerrado é pior que a da Amazônia”, diz.

A extinção gera também prejuízos econômicos. Nos EUA, a redução em 40% do número de abelhas levou a um prejuízo da ordem de U$ 2 bilhões nos últimos seis anos. O colapso das colônias afeta pelo menos 35 estados americanos. O Brasil possui 1.828 unidades de conservação, como refúgios de vida silvestre e florestas. São 1.494.989 km2, ou 17% da extensão do território nacional, de acordo com o cadastro nacional do ministério do Meio Ambiente. Em biomas como o pampa, no Rio Grande do Sul, o número a porcentagem é bem menor: só chega a 2,7% do território nacional.

“Desses animais em risco, 73% tem registros confirmados de populações em áreas de conservação, ou seja tem hábitat protegido”, diz Vercillo. O problema é que mesmo estando em área protegida, não há garantia de conservação da espécie. “Alguns animais são muito suscetíveis e qualquer tipo de intervenção humana”, diz Vercillo. Além disso, o governo não investe nessas regiões.

“O governo, no máximo, delimita reservas. Mas os recursos são muito restritos. Faltou um elemento chave na conservação que é a proteção efetiva”, diz Galetti. “Uma proteção que não seja só no papel.” 

Restam 250 onças pintadas. Cientistas do Sistema Nacional de Pesquisa em Biodiversidade lançaram um alerta sobre o ritmo de diminuição das onças pintadas no Brasil em carta publicada no início desse ano na revista Science, publicação científica de referência internacional.

A causa é a diminuição do habitat. A Mata Atlântica foi reduzida para 10% da cobertura original. As áreas restantes estão fragmentadas. Apenas 24% dos trechos são extensos o bastante para hospedar o maior carnívoro do País.

Apenas 50 onças, divididas em oito grupos distintos, estão se reproduzindo. Como não atravessam áreas urbanizadas, cruzam entre parentes, o que contribuiu para o enfraquecimento da espécie. 

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