REUTERS/Stefan Jeremiah
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Brasil chega a evento climático pré-COP 26 com a pior imagem possível, diz professor

Marcelo Furtado, que participa da Climate Week paralelamente à agenda da Assembleia Geral da ONU, vê o País fora do radar da geopolítica ambiental e reconhecido por 'negar a ciência'

André Borges, O Estado de S.Paulo

20 de setembro de 2021 | 20h11

BRASÍLIA – O Brasil, que sempre ocupou posição de protagonismo nos debates promovidos pela “Climate Week”, evento que acontece nesta semana em Nova York, paralelamente à agenda da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), chega este ano ao encontro como um País negacionista e contrário às medidas para conter os efeitos do aquecimento global. A Climate Week, que começou nesta segunda-feira, 20, tem uma programação de debates, exposição de resultados e anúncios de programas voltados à agenda climática.

Trata-se de um evento independente da assembleia da ONU, mas que funciona como um termômetro do que deverá ser debatido e acordado na COP 26 (Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas), que ocorrerá na Escócia, entre os dias 1º e 12 de novembro.

“Não há dúvidas de que o Brasil chega à Climate Week e também na conferência da ONU com a pior imagem possível. O Brasil sempre teve protagonismo nas questões climáticas e esteve e alinhado com a agenda mundial, mas agora se posiciona como um País que está fora do radar da geopolítica ambiental e que passou a ser reconhecido por negar a ciência e a agenda climática”, diz Marcelo Furtado, professor visitante da Universidade de Columbia e um dos fundadores da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, organização que reúne centenas de empresas.  

Furtado, que está em Nova York e participará de um debate sobre as questões climáticas e a proteção da Amazônia nesta quarta-feira, 22, avalia que, apesar da agenda contrária ao meio ambiente fomentada pelo governo do presidente Jair Bolsonaro, o Brasil tem conseguido manter algumas ações em andamento, por meio de esforços de governos estaduais e também com a participação da sociedade civil e o meio acadêmico.

“Há governos estaduais promovendo iniciativas que envolvem a economia verde. A despeito disso tudo, a academia também continua produzindo dados para formar políticas públicas. Apesar de o Brasil estar em seu pior momento, há essas iniciativas em curso”, afirma Marcelo Furtado. “O que queremos demonstrar é que o Brasil é maior, mais criativo e muito mais indutor de transformação do que aquilo que vemos o governo federal praticar. Temos um governo federal desalinhado com a agenda social, climática e econômica, mas temos uma sociedade no Brasil que segue avançando.”

Para o especialista, um dos assuntos que estarão presentes nos debates da Climate Week é a questão indígena, porque isso envolve direitos humanos e está diretamente relacionado à preservação da Amazônia. Para Furtado, outro tema que deve chamar a atenção são as medidas de incentivo à economia verde, como adoção dos mecanismos do mercado de carbono.

“Neste ano, vimos o setor privado se manifestando contra o desmatamento. Vimos os investidores ainda cobrando das empresas esse mesmo compromisso. Existe um pedaço do agronegócio que está alinhado com Bolsonaro e que prega uma visão retrógrada. Mas temos outro pedaço mostrando que temos de proteger o meio ambiente, apoiar a ciência e financiar avanços”, comenta.

A Climate Week ocorre a seis semanas da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas de 2021. A COP-26 é considerada o mais importante encontro climático multilateral desde a versão de 2015, que aprovou o Acordo de Paris.

A cada cinco anos, pelo acordo, os países devem demonstrar os progressos feitos para alcançar as metas estabelecidas e revisá-las. A proximidade do encontro e o fato de o governo dos Estados Unidos ter feito da agenda ambiental um pilar da política externa – e uma forma de fazer frente à China – fazem com que o assunto entre na ordem do dia das discussões desta semana.

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