PEDRO IVO PRATES/ESTADAO
PEDRO IVO PRATES/ESTADAO

Brasil chega à COP como pária ambiental, afirma climatologista Carlos Nobre

Pressionado a reduzir emissão de gases do efeito estufa, Brasil vai à Conferência do Clima com imagem internacional negativa. COP é a mais importante desde 2015, afirma cientista

Entrevista com

Carlos Nobre

Luiz Henrique Gomes, especial para o Estadão

29 de outubro de 2021 | 15h00

O climatologista Carlos Nobre, uma das principais vozes da ciência que alertam para os riscos de savanização da Amazônia no futuro, avaliou a 26.ª edição da Conferência do Clima como a mais importante desde a de 2015, quando o Acordo de Paris foi assinado. No centro desta edição, a Amazônia aparece como um dos principais desafios do mundo para enfrentar a questão climática, e o Brasil, avalia o climatologista, chega como um pária ambiental por causa do fracasso no combate ao desmatamento. “O país está sem nenhuma credibilidade internacional com relação aos compromissos climáticos”, disse em entrevista ao Estadão.

Com o crescimento da emissão de gases do efeito estufa em 2020, na contramão do mundo, o País chega pressionado pela comunidade internacional a assumir o compromisso de reduzir o desmatamento na Amazônia, principal fonte de gases no território nacional. O momento é crucial, na avaliação de Carlos Nobre: se este compromisso não for feito agora, dificilmente o mundo vai reduzir a emissão de gases de efeito estufa pela metade até 2030, o que pode elevar a temperatura do planeta acima de 1,5º C.

Nesta entrevista, Nobre avaliou o histórico do Brasil em relação às políticas climáticas e a descredibilidade atual que o país tem perante os outros países. Para o pesquisador, o país chega a Conferência do Clima com uma imagem internacional negativa e precisa assumir compromissos caso queira cobrar dos países desenvolvidos verbas para manter a floresta de pé.

Após apresentar um crescimento na emissão de gases estufas em 2020, com que imagem o Brasil chega na 26ª edição da Conferência do Clima (COP-26)?

O Brasil chega à Conferência do Clima como um pária ambiental. O país está sem nenhuma credibilidade internacional com relação aos compromissos climáticos. A notícia do aumento dos gases de efeito estufa em 2020, na contramão do que aconteceu nos principais países do mundo, piora ainda mais essa situação. O que leva a esse aumento é a continuidade do aumento do desmatamento da Amazônia, o aumento dos incêndios na floresta e no Cerrado, o afrouxamento da fiscalização e da legislação ambiental e nenhuma regulação ou medida para reduzir a emissão de gases estufas por parte da produção agrícola, que no ano passado foi enorme devido à pandemia. Então, o que o país mostrou é que não se compromete com o combate ao desmatamento. No ano passado, 12 mil km² de áreas foram desmatadas, mais do que os 11 mil km² de 2019. Já chegamos a ter 4 mil km² de desmatamento anual em 2012 e nos comprometemos a baixar para além disso, mas retrocedemos e estamos com uma imagem muito ruim.

O quanto o país deve ser pressionado pela comunidade internacional a se comprometer com metas que reduzam o desmatamento e, consequentemente, a emissão de gases do efeito estufa?

Eu diria que a pressão internacional em cima do país é enorme no primeiro momento, por todas as questões que elenquei anteriormente. Se a pressão vai continuar ou não, vai depender de como o país se mostra ao longo da Conferência. Não ir nem o presidente e nem o vice-presidente, que preside a Amazônia Legal, já é um mau sinal para o mundo. Mostra que o país está em cima do muro com relação ao compromisso de assumir políticas que reduzam a emissão de gases estufas. Essa é a COP mais relevante desde 2015 (que originou o Acordo de Paris) e o Brasil chegar dessa forma, sem o presidente e o vice-presidente, deixa o país muito desacreditado.

A atenção que o país recebe nesta COP é maior do que em 2015?

A atenção sobre o Brasil nessa COP é maior do que era em 2015. Naquele ano, o país chegou com metas bem definidas. Algumas poderiam ser ambiciosas, mas eram metas que fizeram do Brasil o país em desenvolvimento que mais se comprometeu com a questão climática. Naquele ano, o Brasil vinha de uma redução de desmatamento na Amazônia de uma área de 27 mil km² por ano em 2004 para uma área de 4 mil km² por ano em 2012. Então, o país vinha bem, mostrava compromisso. Agora, o país chega com esse descrédito na política ambiental e marcado por uma política que contou com declarações terríveis de Ricardo Salles quando ele estava como ministro, declarações que foram para o mundo.

Com o quadro de piora e uma política ambiental que regride já há alguns anos, a atuação de outros países para com o Brasil tem sido de pressão para além da retórica? Ou há uma passividade?

Os países estão pressionando o Brasil com a questão das políticas ambientais. O governo brasileiro age de um modo que exige recursos internacionais para combater o desmatamento, mas não apresenta metas concretas para essa redução. O vice-presidente age como se tivesse sequestrado alguém e que, portanto, precisam pagar por esse resgate de alguém. Não é assim. Então, precisamos ver como vai se portar o país na COP. O novo ministro do Meio Ambiente (Joaquim Leite) não é conhecido pelo mundo e já disse que não vai ser empecilho nos acordos, mas isso é algo que precisamos ver como os outros países vão enxergar.

Caso o país continue sem se comprometer com essa redução, quais podem ser as consequências para o mundo e para a humanidade?

Se o Brasil não colocar metas bem definidas este ano de reduzir o desmatamento na Amazônia - e quando digo desmatamento, falo de qualquer tipo de desmatamento, não só o ‘ilegal’ -, vamos perder de 60% a 70% da floresta nos próximos 50 anos. No sul da Amazônia já há áreas com um processo de savanização muito grande. Isso é extremamente preocupante. O desafio do mundo nos próximos oito anos é reduzir em 50% a emissão de gases estufas para evitar que a temperatura do planeta cresça 1,5º C. É o maior desafio da humanidade, e o Brasil tem um papel crucial nisso que é se comprometer com a Amazônia.

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