Brasil busca apoio com mudança de política em Bali

Pela primeira vez, país aceita mudar proposta para desmatamento.

Eric Brücher Camara, BBC

10 de dezembro de 2007 | 15h30

Como parte de uma iniciativa para angariar apoio entre os países em desenvolvimento, o Brasil lançou nesta segunda-feira uma ofensiva diplomática na reunião da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre mudança climática, em Bali, na Indonésia.O primeiro passo foi um almoço com diversos representantes dos países em desenvolvimento que têm interesses mais ou menos comuns aos brasileiros. De acordo com o embaixador extraordinário para Mudança Climática, Sergio Serra, o encontro foi "positivo".O mais importante, no entanto, foi a mudança de uma postura, que segundo críticos, estava isolando o país no encontro de Bali. O Brasil fez concessões importantes em um dos temas que provocam mais polêmica nas atuais discussões: o desmatamento.Até a semana passada, a posição do Brasil sobre os chamados REDD - mecanismos de redução de emissões de desmatamento e degradação em países em desenvolvimento, na sigla em inglês - era totalmente contrária ao "segundo D", o de degradação. A proposta, no entanto, é defendida por dezenas de países, embora ainda não exista consenso científico sobre como o cálculo das emissões de carbono devido ao desmatamento poderia ser feito."Podemos ver diferença entre floresta e não-floresta, mas ver a diferença entre muito desmatado e moderadamente desmatado é um desafio", disse à BBC Brasil a cientista americana Holly Gibbs, autora de um estudo que propõe uma nova metodologia que estima o estoque de carbono de florestas."Também é difícil estimar o impacto de madeira para lenha ou de incêndios abaixo da copa das árvores", acrescentou Gibbs. "Todos os tipos de degradação reduzem os estoques de carbono."Apesar disso, de acordo com o embaixador Serra, "no espírito de flexibilidade", o Brasil cedeu neste quesito."Com todas as dificuldades que isso implica, já que ainda é preciso definir o que é degradação", disse o diplomata. "É um complicador."Também entrou na pauta de negociações nesta segunda-feira outro tema ao que o Brasil se opunha: o de vincular a redução do desmatamento aos chamados mecanismos de mercado, como a concessão de créditos de carbono, títulos que podem ser comprados pelos países ricos."Poderíamos até pensar em alguma coisa neste sentido, mas seria referente a uma pequena porcentagem da redução", afirmou.Serra deixou claro que o Brasil continua a defender principalmente a criação de um fundo de combate ao problema financiado pelos países ricos, mas gerenciado por cada país.O argumento oficial do governo brasileiro é que o lançamento no mercado de muitos créditos de carbono, por causa de uma possível redução no desmatamento em países em desenvolvimento, poderia esvaziar o objetivo de reduzir as emissões globais de carbono, já que os países ricos não precisariam investir em cortes de emissões.Como a reunião em Bali visa apenas criar o roteiro para as negociações nos próximos dois anos, na prática, a discussão sobre o possível funcionamento desses mecanismos só deve acontecer a partir do próximo encontro, no ano que vem.A mudança de tática brasileira, entretanto, não inclui uma reformulação sobre o desmatamento evitado - ou seja, o pagamento de crédito pelo carbono não liberado na atmosfera.Neste caso, o temor é que países produtores de petróleo pudessem se valer do precedente para exigir compensações para não extrair petróleo, que levará a emissões de carbono, do solo.Na terça-feira, acontecem as últimas rodadas de discussão antes da fase ministerial da reunião, com a participação da ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, e do chanceler Celso Amorim.Portanto, até quarta-feira, a expectativa é de que os temas mais polêmicos sejam resolvidos e que a nova estratégia do Brasil - caso venha a dar resultado - já tenha funcionado.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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