Eraldo Peres/AP
Eraldo Peres/AP

Bolsonaro vetou reunião da ONU sobre clima no Brasil porque pode romper com o acordo

Presidente eleito também afirmou ter considerado o valor da realização do evento 'exagerado'

Lu Aiko Otta, O Estado de S. Paulo

28 Novembro 2018 | 19h48

BRASÍLIA - A retirada da candidatura do Brasil como sede da COP-25, Conferência das Nações Unidas para Mudanças Climáticas a ser realizada em 2019, foi decidida pelo presidente eleito, Jair Bolsonaro. “Houve participação minha nessa decisão”, disse. Ele explicou que existe a possibilidade de o País sair do acordo do clima e não quer “anunciar uma possível ruptura dentro do Brasil”. Outro fator mencionado foi o custo de realização do evento, que considerou “exagerado”, diante da situação das contas públicas. Segundo fontes, a estimativa é de R$ 400 milhões.

“Peço a ajuda de vocês”, disse o presidente eleito a jornalistas. Ele explicou que, aparentemente, o acordo coloca em risco a soberania do Brasil por causa da criação de uma grande área de preservação ambiental chamada “Triplo A”. Trata-se de uma faixa de 136 milhões de hectares que se estende desde os Andes, passa pela Amazônia e chega ao Atlântico. Trata-se de uma proposta de uma fundação chamada Gaia Amazonas, com sede na Colômbia.

“Eu quero deixar bem claro, como futuro presidente, que se isso for um contrapeso nós com toda certeza teremos uma posição que pode contrariar muita gente, mas vai estar de acordo com o pensamento nacional”, afirmou o presidente eleito. Durante a campanha eleitoral, ele falou em sair do acordo do clima e da própria Organização das Nações Unidas (ONU).

Segundo Bolsonaro, o Brasil é o país que mais preserva o meio ambiente. “Mas não pode uma política ambiental atrapalhar o desenvolvimento do Brasil”, ressalvou. “Hoje a economia quase está dando certo apenas - quase - na questão do agronegócio. E eles estão sufocados por questões ambientais que não colaboram em nada para o desenvolvimento e a preservação do meio ambiente.”

O presidente eleito assumiu a responsabilidade pela desistência da candidatura do Brasil apesar de o futuro ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, que estava ao lado, haver soprado, enquanto a pergunta era feita: “não temos nada com isso; isso é decisão do Itamaraty.”

O atual governo consultou a equipe sobre a realização da COP-25 porque, embora seja amplamente conhecida, a candidatura do Brasil para sediar o evento seria formalizada na COP-24, que começa no próximo dia 2, em Katowice, na Polônia. Os países da América Latina e Caribe ofereceriam o Brasil como sede, depois de meses de articulação para superar as resistências da Venezuela. O futuro chanceler, Ernesto Araújo, foi questionado sobre o interesse em manter a candidatura.

A equipe de transição foi também avisada que há questão financeira ainda pendente. A proposta do Orçamento de 2019, que está em análise no Congresso Nacional, prevê recursos para a realização do evento, mas apenas uma pequena parte: perto de R$ 15 milhões. Os técnicos avaliavam tirar recursos do Fundo Clima, gerido pelo Ministério do Meio Ambiente. Ainda assim, seria necessário buscar outras fontes de recursos para bancar todo o evento.

No telegrama enviado na última segunda-feira em que comunicou a desistência da candidatura, o governo brasileiro apresentou como justificativas a difícil situação das contas públicas, que deverá prosseguir no ano que vem, e o processo de transição no Brasil. Mas o quadro fiscal não havia sido um peso quando o País se candidatou, no início de outubro.

Na época, avaliou-se que o gasto de R$ 400 milhões seria elevado, porém a realização do evento seria importante para o posicionamento do Brasil como uma liderança no debate internacional da questão climática. 

O futuro governo, porém, advoga uma posição oposta. “O alarmismo climático (sobre o qual falarei em outra oportunidade), o terceiro-mundismo automático e outros arranjos falsamente anti-hegemônicos, a adesão às pautas abortistas e anticristãs nos foros multilaterais, a destruição da identidade dos povos por meio da imigração ilimitada, a transferência brutal de poder econômico em favor de países não democráticos e marxistas, a suavização no tratamento dado à ditadura venezuelana, tudo isso são elementos da “ideologia do PT”, ou seja, do marxismo, que ainda estão muito presentes no Itamaraty”, escreveu o futuro chanceler, Ernesto Araújo, num artigo publicado na segunda-feira no jornal Correio do Povo. / COLABOROU LUISA MARINI, ESPECIAL PARA O ESTADO.

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