Isac Nóbre/PR - 21/7/2019
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Bolsonaro quer acesso prévio a dados sobre desmatamento para 'não ser pego de calças curtas'

Presidente contesta pela terceira vez dados de desmatamento do instituto e cobra 'mais responsabilidade' na divulgação dos números

Giovana Girardi, O Estado de S. Paulo

22 de julho de 2019 | 16h55
Atualizado 23 de julho de 2019 | 09h21

O presidente Jair Bolsonaro afirmou nesta segunda-feira, 22, que quer acesso aos dados de desmatamento da Amazônia antes de eles serem divulgados para não ser “pego de calças curtas”. Ele criticou o que considera uma quebra de “hierarquia e disciplina” e voltou a dizer que a divulgação das informações pode causar um “enorme estrago para o Brasil”. Os dados, porém, já são divulgados pelo órgão de monitoramento, o Inpe, em tempo real para o governo, para orientar as ações de fiscalização, e ficam disponíveis na internet.

A declaração foi dada em meio a uma série de críticas que o presidente tem feito desde sexta-feira ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), órgão ligado ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações e responsável, entre outras coisas, por monitorar o desmatamento na Amazônia e oferecer a taxa oficial de perda anual da floresta. 

Na sexta, Bolsonaro disse à imprensa estrangeira que os dados que vêm mostrando alta no desmatamento são mentirosos e que o diretor do Inpe, Ricardo Galvão, estaria "a serviço de alguma ONG". A manifestação ocorreu em razão de reportagens que, citando dados do instituto, apontaram para alta de 88% no desmate em junho, ante o mesmo mês do ano anterior. 

No sábado, foi confrontado por Galvão, que disse ao Estado considerar a atitude do presidente “pusilânime e covarde”. O pesquisador afirmou que Bolsonaro fez comentários “sem nenhum embasamento” e “ataques inaceitáveis” e o desafiou a repetir os comentários olhando nos olhos dele. O imbróglio continuou no domingo, quando Bolsonaro afirmou que divulgar dados “alarmantes” de desmatamento “prejudica” o País.

A comunidade científica saiu em defesa tanto do Inpe e dos dados produzidos pela instituição quanto de Ricardo Galvão. A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) encaminhou uma carta a Bolsonaro apontando que houve "críticas sem fundamento a uma instituição científica, que atua há cerca de 60 anos e com amplo reconhecimento no País e no exterior" e disse que são "ofensivas, inaceitáveis e lesivas ao conhecimento científico".

Nesta segunda, Bolsonaro retomou as críticas e cobrou acesso prévio às estatísticas de desmatamento. “Pode divulgar os dados, mas tem de passar para as autoridades. Não posso ser surpreendido por uma informação tão importante como essa daí. Não posso ser pego de calças curtas. As informações têm de chegar ao nosso conhecimento de modo que a gente possa tomar decisões precisas em cima dessas informações e não ser surpreendido”, afirmou, ao ser questionado sobre se tinha intenção de reter os dados.

Segundo ele, é necessário que os dados passem primeiro pelo ministro da Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes. “Quando o Inpe detecta um número qualquer, tem de subir esses dados para o ministro Marcos Pontes, da Ciência e Tecnologia, antes passando pelo Ibama, antes de divulgar. Não pode ir na ponta da linha alguém simplesmente divulgar esses dados. Porque pode haver um equívoco. E nesse caso, como divulgou, há enorme estrago para o Brasil. A questão ambiental, o mundo todo leva em conta”, disse em relação ao acordo Mercosul-União Europeia e a acordos bilaterais. A agenda ambiental do presidente tem sido alvo de atenção internacional. Em junho, a chanceler alemã, Angela Merkel, disse que gostaria de ter uma “conversa clara” com Bolsonaro sobre perdas na Amazônia. 

“O chefe do Inpe será ouvido pelos ministros, para conversar com ele, para que isso não continue acontecendo”, disse. “É o mesmo que um cabo passar uma notícia sem passar pelo capitão, coronel ou brigadeiro. Não está certo isso aí.”

Mais cedo, Pontes já havia endossado o chefe. Em nota, disse que compartilha a “estranheza” de Bolsonaro quanto à variação dos dados e pediu um “relatório técnico completo” sobre os últimos dois anos de análises. Também afirmou que convidou Galvão para “esclarecimentos e orientações”.

"Com relação aos dados de desmatamento produzidos pelo Inpe, organização pelo qual tenho grande apreço, entendo e compartilho a estranheza expressa pelo nosso presidente Bolsonaro quanto à variação porcentual dos últimos resultados na série histórica”, escreveu o ministro.

O Estado apurou que uma das possibilidade avaliadas pelo ministério é uma demissão por justa causa, caso se considere que Galvão agiu para prejudicar a imagem do Brasil. O pesquisador tomou posse no Inpe em setembro de 2016 para um mandato de quatro anos.

Dados públicos

Procurado pelo Estado nesta segunda, o diretor do Inpe voltou a dizer que “não existe isso de divulgarmos os dados”. Eles são apresentados de modo transparente no site Terrabrasilis, do Inpe, depois que são encaminhados para o Ibama. “Mandamos os dados do Deter (sistema de detecção em tempo real) para o Ibama. Os dados do Prodes (sistema que aponta a taxa anual, e oficial, de desmatamento) são sempre mandadas com antecedência ao ministério antes de divulgação. Os dados de junho mesmo foram mandados uma semana antes. Estranho dizerem que não avisamos”, afirmou Galvão. “Além disso, temos de cumprir a Lei de Acesso à Informação”, disse. “E é ingenuidade supor que se pode esconder esses dados. Os satélites estão todos em cima. Não tem como embargar”, afirmou Galvão.

Cientista chefia Inpe desde 2016

Ricardo Galvão foi nomeado diretor do Inpe em setembro de 2016, na gestão Michel Temer. Ele iniciou a carreira no órgão federal na década de 1970. Galvão é formado em Engenharia de Telecomunicações pela Universidade Federal Fluminense (UFF), doutor em Física de Plamas Aplicada pelo Instituto de Tecnologia de Massachussets (MIT). Foi escolhido dentro de uma lista tríplice elaborada por um comitê de busca formado por especialistas, a pedido do Ministério da Ciência e Tecnologia, responsável pelo Inpe. Seu mandato é de quatro anos. / COLABORARAM BRUNO MOURA e REBECA RAMOS

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