ANTONIO CRUZ/AGÊNCIA BRASIL - 28/11/2013
ANTONIO CRUZ/AGÊNCIA BRASIL - 28/11/2013

Bolsonaro levanta suspeita sobre ONGs por queimadas na Amazônia 

Presidente também acusou alguns governadores da região de serem 'coniventes' com os incêndios criminosos; número de queimadas em todo o Brasil já é o mais alto dos últimos sete anos – metade disso é na Amazônia

Julia Lindner e Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

21 de agosto de 2019 | 09h56
Atualizado 22 de agosto de 2019 | 17h33

BRASÍLIA - O presidente Jair Bolsonaro considera que Organizações Não Governamentais (ONGs) que recebiam recursos do exterior podem estar por trás do aumento nas queimadas que ocorrem na floresta amazônica. Segundo ele, a intenção seria fazer uma "campanha" contra o governo federal. Bolsonaro também acusou alguns governadores da região de serem "coniventes" com os incêndios criminosos.

Em nota, a coordenação do Observatório do Clima, coalizão de cerca de 50 organizações não governamentais do País em prol de ações contra as mudanças climáticas, reagiu às insinuações do presidente e disse que o ‘recorde de queimadas reflete irresponsabilidade de Bolsonaro'. Em outra carta, um grupo de 81 ONGs afirmou que “Bolsonaro não precisa de ONGs para queimar a imagem do Brasil no mundo inteiro”.

"O crime existe, e isso aí nós temos que fazer o possível para que esse crime não aumente, mas nós tiramos dinheiro de ONGs. Dos repasses de fora, 40% ia para ONGs. Não tem mais. Acabamos também com o repasse de dinheiro público. De forma que esse pessoal está sentindo a falta do dinheiro", disse Bolsonaro, referindo-se à suspensão de repasses, por parte do governo, de recursos do Fundo Amazônia para projetos de combate ao desmatamento.

"Pode estar havendo, não estou afirmando, ação criminosa desses 'ongueiros' para exatamente chamar a atenção contra a minha pessoa, contra o governo do Brasil. Essa é a guerra que nós enfrentamos", afirmou o presidente a jornalistas na saída do Palácio da Alvorada.

O presidente fez os ataques depois de vir à tona que número de focos de queimadas em todo o Brasil neste ano já é o mais alto dos últimos sete anos, conforme mostrou o Estado na segunda-feira. Desde 1º de janeiro até esta terça-feira, 20, foram contabilizados 74.155 focos, alta de 84% em relação ao mesmo período do ano passado, de acordo com o Programa Queimadas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que contabiliza esses dados desde 2013.

Um pouco mais da metade (52,6%) desses focos vem ocorrendo na Amazônia, com o Mato Grosso na liderança. As queimadas já superam em 8% o recorde de 2016, um ano de extrema seca, que tinha registrado 68.484 focos no mesmo intervalo de tempo. 

Apesar de este ano também estar com uma estiagem mais prolongada – o que chegou a ser sugerido como uma possível causa para o aumento das queimadas –, a seca é menos intensa que a de 2016. Estudo divulgado nesta terça-feira, 20, pelo Instituto de Pesquisas Ambiental da Amazônia (Ipam) apontou uma forte correlação entre o aumento das queimadas com a alta no desmatamento da Amazônia

O total de focos neste ano já é é 60% superior à média dos últimos três anos e está sendo impulsionando pelo corte da floresta, disseram os pesquisadores da ONG em nota técnica. Alertas de desmatamento feitos pelo Inpe indicam uma alta de 49,45% no desmatamento entre agosto do ano passado e julho deste ano, na comparação com os 12 meses anteriores.

“Os dez municípios amazônicos que mais registraram focos de incêndios foram também os que tiveram maiores taxas de desmatamento”, comparam os autores. Segundo eles, esses municípios são os responsáveis por 37% dos focos de calor em 2019 e por 43% do desmatamento registrado até o mês de julho na região. 

“Esta concentração de incêndios florestais em áreas recém-desmatadas e com estiagem branda representa um forte indicativo do caráter intencional do incêndios: limpeza de áreas recém-desmatadas”, apontam.

Governadores

Para Bolsonaro, entidades de apoio ao meio ambiente "perderam a boquinha" e ele levantou a hipótese de que as mesmas pessoas que têm registrado imagens das queimadas na Amazônia para divulgação estariam por trás do incêndio, alegando que "o fogo foi tocado em lugares estratégicos na Amazônia toda". "Pelo o que tudo indica, o pessoal foi para lá filmar e tacaram fogo. Esse é o meu sentimento", disse sem apresentar nenhuma prova disso.

Questionado se o bloqueio de recursos do Fundo Amazônia pode prejudicar ações de combate ao fogo, Bolsonaro afirmou que 40% dos recursos serviam para "bancar ONGs". "Me aponte uma árvore plantada com esse recurso que veio de fora", desafiou. O presidente também disse que é "ingenuidade" pensar que países como Noruega e Alemanha enviariam recursos do exterior sem querer algo em troca. "Não existe amizade entre países, existe interesse", disse.

A suspensão de repasses do Fundo Amazônia por parte do governo, porém, só se refere a projetos que eram financiados com esses recursos. ONGs não contam com verba federal para suas operações regulares, e aquelas que eventualmente recebem recursos estrangeiros continuam tendo acesso a isso. As principais organizações do País preparam uma resposta aos comentários do presidente.

Bolsonaro afirmou que é contra os incêndios criminosos e que fará "o possível" para combater as queimadas, mas que quer "mostrar a verdadeira face" do que supostamente estaria acontecendo através de ONGs. "Temos que combater o crime, depois vamos ver quem é o possível responsável pelo crime. Mas, no meu entender, há interesse dessas ONGs, que representam interesses de fora do Brasil."

Bolsonaro também afirmou que governadores são "coniventes" com os incêndios na Amazônia. "Não quero citar nome, que está conivente com o que está acontecendo e bota a culpa no governo federal. Tem estados aí, que não quero citar, na região Norte, que o governador não está movendo uma palha para ajudar a combater incêndio. Está gostando disso daí", declarou o presidente.Ele sugeriu que os jornalistas buscassem as assessorias de imprensa dos governadores da região para perguntar o que está acontecendo e o que os governos estaduais já fizeram. "Tem governo estadual que não fez nada, e pode fazer", disse.

O governador do Amapá, Waldez Góes (PDT), que preside o consórcio de governadores da Amazônia Legal, afirmou ao Estado que o momento não é para "valorizar as polêmicas, mas as atitudes". "O Brasil, seja pelo governo federal, os estaduais, as empresas, têm de tomar atitude quanto ao desmatamento e as queimadas", declarou.

"Enquanto ficar na polêmica, transferindo culpa para quem não tem culpa, vamos ficar assistindo as florestas sendo diminuídas, pegando fogo, e todo o Brasil sendo prejudicado. Essas imagens (de fogo) estão sendo transmitidas para o mundo agora. Todos irão perder. Para o Brasil ganhar, temos de ter união para combater as práticas ilegais", complementou. 

Já o Pará disse que governador do Estado, Helder Barbalho (MDB), "participou nesta quarta-feira, 21, da Semana do Clima da América Latina e Caribe, da Organização das Nações Unidas (ONU), em Salvador, apresentando oportunidades de investimento a empresas e organizações internacionais que apostam no desenvolvimento com proteção". Segundo a nota, esse "é o caminho para a preservação da floresta e desenvolvimento econômico, humano e social no Pará".

O presidente informou que o governo está discutindo desde terça-feira, 20, de que forma pode ajudar a combater os incêndios, citando os ministérios da Defesa, Meio Ambiente e Justiça. "A Justiça pode mandar, acredite, 40 homens da Força Nacional para lá. É uma gota d'água no meio do oceano. As Forças Armadas, devemos usar, talvez a partir de amanhã, unidades ali da região, porque não tem como deslocar daqui para lá. Vai faltar comida para o Exército a partir de setembro. É a situação em que nós nos encontramos."  

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