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Bolsonaro e a devastação

Mídias sociais têm ajudado a humanidade a desprezar a ciência e a cultura

Fernando Reinach*, O Estado de S.Paulo

24 de agosto de 2019 | 03h00

Ao observar Bolsonaro avançando sobre a Floresta Amazônica com sua política de desmonte e desmate (desmonte das iniciativas de combate ao desmatamento e desmate liberado pela interrupção da fiscalização), uma imagem da infância apareceu num sonho recente.

Era pequeno e me levaram para conhecer um matadouro em Mato Grosso. Não foram as vacas enfileiradas para morrer ou seus cadáveres esquartejados que me impressionaram. Foi o funcionário encarregado da execução. Um gordo musculoso, branquelo, vestindo camiseta suja, pele coberta de suor, pelos de vaca e pó grosso. Estava em pé sobre duas cercas de madeira paralelas, à ponta do funil onde centenas de bois eram forçados a entrar em fila única. Com uma marreta grande, ele acertava o golpe mortal na testa do animal. 

O chão se abria, a vaca caía, e o pescoço era cortado. O processo se repetia a cada 15 segundo por horas seguidas. O que me marcou foram os gritos do executor. Cada animal que passava sob suas pernas era insultado: vem aqui sua f.d.p., quer ver o que é bom? Vagabunda, desgraçada, é agora que te mato. Os xingamentos continuaram pelos 15 ou 20 minutos em que observei o cidadão executar uns 50 animais.

Matar era o trabalho, mas como era possível odiar o animal? Na época pensei que era a encarnação do demônio, mas provavelmente era um doente mental incapaz de simpatia ou um ser humano no seu estado primal. O sonho acabou com a imagem de Bolsonaro naquela cerca na saída do Alvorada espalhando ódio toda manhã.

Com tanto ódio, mentira, e ignorância, o que vai sobrar da Amazônia? Segunda feira anoiteceu em pleno dia e os paulistanos sentiram os resultados de algumas centenas de hectares queimados na distante região amazônica. Descobriram, na prática, que a humanidade compartilha a mesma atmosfera e que os ventos não respeitam fronteiras. O interessante é que paulistanos não precisam ir à Amazônia para descobrir o resultado do desmate e de queimadas descontroladas. 

Basta pegar um carro e conhecer o Vale do Paraíba. O Paraíba é a Amazônia amanhã. O vale liga São Paulo ao Rio. Por lá passa a Via Dutra, ladeada À esquerda pela Serra da Mantiqueira e, do lado direito, pela Serra do Mar. São 16 mil km². A Amazônia tem 5 milhões.

Até o século 19, o vale era coberto por Mata Atlântica, tão ou mais densa que a Amazônia. A Mata Atlântica é uma floresta tropical úmida, mais rica em biodiversidade que a Amazônia, onde macacos, onças e pássaros estavam por todo lado. Fotos da época mostram charretes estacionadas no pé de árvores com mais de 10 metros de diâmetro e pessoas minúsculas vagando dentro da vegetação densa. Um paraíso tropical. 

Hoje não há nada, você pode viajar por centenas de quilômetros na Dutra sem encontrar sequer um hectare da mata original. São planícies cobertas por capim ralo, que mal cobre a terra exposta ao sol. Nos morros, não sobrou nada, só trilhas percorridas por vacas magras na busca dos raros tufos de capim e enormes erosões. 

Se tiver dificuldade de imaginar como era o vale no início do século 19, vire à direita e desça a Serra do Mar. Aquela vegetação luxuriante é Mata Atlântica. O vale era assim. Hoje é a região mais pobre do Estado de São Paulo. No início do século 19, quando o café começou a tomar força no Brasil, foi no Vale do Paraíba que se concentraram as primeiras plantações. Escravos entravam na floresta abrindo picadas e derrubavam as grandes árvores cujos troncos eram cortados e retirados. A galhada e a vegetação rasteira eram queimadas, abrindo grandes áreas para o plantio do café. Mas a terra não suportava o café por muitos anos e o desmate foi progredindo à medida que as áreas já cultivadas eram abandonadas. 

Até que o vale se esgotou. O café abandonou a região e migrou para o interior do Estado. São dessa época as grandes sedes de fazendas que hoje servem de casas de veraneio ou foram abandonadas aos cupins. A enorme riqueza acumulada por esses plantadores desapareceu, dissipada junto com a floresta. Depois veio o leite. Como o capim ainda crescia nas áreas de café abandonadas o vale virou uma região leiteira.

O capim tampouco durou e só poucas vacas magras andam por ali, ao redor de pessoas que vivem de plantar o que comem ou se mudaram para favelas da região. Apesar da motivação econômica ser diferente, o processo é idêntico ao de hoje na Amazônia. No fim do século 19, não faltaram fazendeiros e cientistas alertando para a desertificação da área, mas de nada adiantou.

É no Paraíba que fica a Academia Militar das Agulhas Negras, onde Bolsonaro estudou. Tudo indica que por lá estudos do meio não faziam parte do currículo. Talvez ensinar a arte da guerra implica aprender a desprezar a vida. O humano é predador brutal. Por onde passou não sobraram muitos mamíferos ou grandes matas. Nos últimos séculos, uma fina camada de ciência, cultura e educação tem recoberto nosso lado bestial, mas parece que em uma leva recente de políticos essa camada nunca foi assentada ou a fera interna se liberou. E pior: mídias sociais têm ajudado a humanidade a desprezar a ciência e a cultura, dando vazão aos piores instintos ao seguirem seus líderes bestiais. Pobres de nós. Em biologia, é bem conhecido que espécies de predadores desaparecem assim que acabam de exterminar suas presas.

*É BIÓLOGO

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