Mike Segar/Reuters
Mike Segar/Reuters

Sem provas, Bolsonaro acusa Leonardo DiCaprio de pagar para 'tacar fogo' na Amazônia

Presidente diz que ator doa US$ 500 mil a ONGs que tiram fotos de incêndios florestais e ironiza imprensa. Brigadistas de Alter do Chão chegaram a ser presos em operação policial, mas foram libertados nesta quinta

Mateus Vargas, O Estado de S.Paulo

29 de novembro de 2019 | 11h54
Atualizado 29 de novembro de 2019 | 22h10

BRASÍLIA - O presidente Jair Bolsonaro disse nesta sexta-feira, 29, que o ator Leonardo DiCaprio está pagando para promover queimadas na Amazônia. "Agora, Leonardo DiCaprio é um cara legal, né? Dando dinheiro para tacar fogo na Amazônia", declarou o presidente a apoiadores em frente ao Palácio da Alvorada, em Brasília. Bolsonaro também ironizou suspeitas sobre envolvimento de organizações não governamentais (ONGs) em incêndios na região.

"Quando eu falei que há suspeita de ONGs, o que a imprensa fez comigo?", afirmou o presidente, dirigindo-se aos jornalistas presentes. As declarações de Bolsonaro foram feitas após uma apoiadora afirmar: "Os índios em Altamira (no Pará) falam francês. Lá o fogo foi criminoso". 

Sem apresentar provas, Bolsonaro já havia ligado o ator às queimadas na floresta durante transmissão nas redes sociais, na quinta-feira, 28.  "Tira foto, manda para ONG, a ONG divulga, entra em contato com o Leonardo DiCaprio e ele doa US$ 500 mil (cerca de R$ 2,1 milhões) para essa ONG. Leonardo DiCaprio, você está colaborando com as queimadas na Amazônia", afirmou. O Estado não conseguiu contato com a assessoria do ator. 

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Leonardo DiCaprio, você está colaborando com as queimadas na Amazônia
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Jair Bolsonaro, presidente da República

 

A acusação de Bolsonaro ao astro de Hollywood repercutiu na imprensa internacional. O jornal britânico The Guardian descreveu a acusação como "espúria" e "falsa". O jornal argentino Clarín e a agência de notícias Associated Press também destacaram o fato de Bolsonaro ter feito a acusação sem apresentar provas.   

Brigadistas foram presos em operação, mas foram soltos dois dias depois

As falas de Bolsonaro fazem referência à operação da Polícia Civil que prendeu na terça-feira, 26, quatro pessoas ligadas a ONGs que desenvolvem atividades em Alter do Chão, em Santarém, no Pará. Eles foram soltos nesta quinta-feira, 28.

Uma conversa que envolve um diretor de uma ONG é considerada pela polícia como principal elemento que liga ambientalistas e brigadistas a incêndios. Nenhum elemento ligado a perícia, testemunhas ou imagens conclusivas é apresentado no documento que embasa o pedido deferido pela Justiça, ao qual o Estado teve acesso. 

Para a Polícia Civil, parte dos recursos doado pelo WWF a ONGs teria sido desviado. O WWF negou a compra de fotos com recursos de doações de DiCaprio de organizações dos brigadistas investigados.

Queimadas geraram comoção internacional; desmatamento teve alta

As queimadas na Amazônia levaram a uma comoção internacional em agosto deste ano. Governos europeus e a comunidade científica demonstraram preocupação com a situação e ofereceram ajuda para Bolsonaro. O governo federal enviou as Forças Armadas para a região com objetivo de apoiar as ações de combate às chamas. 

Em novembro, o Inpe informou que o desmatamento na Amazônia subiu 29,5% entre 1º de agosto do ano passado e 31 de julho deste ano, na comparação com os 12 meses anteriores, atingindo a marca de 9.762 km². Foi a mais alta taxa desde 2008. Porcentualmente, foi também o maior salto de um ano para o outro dos últimos 22 anos. Entre agosto de 2017 e julho de 2018 o corte raso da floresta tinha atingido 7.536 km².

'É para continuar doando, sim', defendem ONGs

Em nota divulgada nesta sexta-feira, treze ONGs e instituições pediram que as doações para as iniciativas continuem ocorrendo. "A doação para as ONGs é uma ação voluntária feita todos os dias e em todo o canto do País. Pode ser com dinheiro, com tempo, com talento, com roupa, com brinquedo, com comida, com órgãos, com o que você quiser. E, para quem desejar e acreditar: hoje no Brasil são cerca de 820 mil organizações, carinhosamente chamadas de ONGs (ou de entidades, OSCs etc.), que fazem trabalhos maravilhosos em prol das mais diversas causas."

O grupo, que inclui o Greenpeace, rebateu a declaração do presidente Bolsonaro, que disse que não era para fazer doações para ONGs. "Estamos aqui, de maneira democrática, representando um grupo unido e bem articulado que recomenda o diferente: é para continuar doando, sim", declararam. "Um Brasil mais cidadão é um país com mais doadores. Um país mais justo é um país com uma sociedade civil forte. É para continuar doando, sim!"

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