Boato sobre ligação assassina gera tensão na Indonésia

Rumores dizem que cristãos morreram ao ouvirem a promoção de uma nova empresa em seus celulares

Efe

30 de maio de 2008 | 16h28

Um boato que alerta para a difusão de uma ligação de celular assassina que mata os cristãos que atendem à chamada instigou na Indonésia as tensões entre a maioria muçulmana e as confissões minoritárias.   Nos últimos dias, o boato se espalhou através de mensagens de telefone celular (SMS) e fóruns de internet: a nova companhia de telecomunicações que acaba de entrar no país está aliada com o demônio.   A prova  da suposta ligação da operadora com a entidade é, segundo a maioria das versões da mensagem, a oferta de lançamento da companhia, que repete três vezes o número "6" (666), dando origem a todo tipo de explicações satânicas.   Além disso, Axis, o nome da empresa, significa "tortura" em indonésio se for lido de trás para frente ("sixa").   "Não é piada, eu recebi o aviso", afirma à Agência Efe um jovem católico de Maumere, a maior cidade de Flores (sul da Indonésia), que prefere não se identificar. Para provar isso, ele mostrou a mensagem enviada a seu aparelho de celular.   O SMS que mostra alerta para a existência da nova companhia telefônica e assegura que sob nenhuma hipótese pode-se atender a uma chamada que começa pelo prefixo "0866" - os números iniciais de todos os telefones da operadora -, pois causaria a morte.   "Em Flores já houve dois casos, duas pessoas jovens e saudáveis que atenderam a ligação e morreram poucos dias depois", acrescenta o jovem, que, em seguida, diz sentir-se oprimido como católico em um país onde cerca de 90% da população são muçulmanos.   Segundo vários observadores, o boato da ligação assassina não tem lógica ou qualquer credibilidade, além de lembrar o roteiro do filme japonês Chakushin ari, que depois foi adaptado pelos americanos e virou o longa Uma Chamada Perdida.   No entanto, acrescentam, o incidente revela as tensões de origem religiosa que existem na Indonésia e que só precisam de fatos como este para se espalhar.   Com mais de 200 milhões de fiéis, a Indonésia é a nação com maior população muçulmana do mundo, mas conta também com grandes comunidades de outras confissões, que aparecem geralmente agrupadas geograficamente.   Segundo o último censo nacional, os protestantes, 6% da população, se concentram em Papua e no norte das Célebes (nordeste); enquanto os católicos, 3%, residem em Flores (sul); e os hinduístas, 2%, em Bali (sul).   A coexistência entre as distintas religiões nem sempre é fácil e com certa freqüência ocorrem incidentes.   Em algumas ocasiões estes problemas originam autênticos conflitos, como o que opôs as comunidades cristã e muçulmana das Ilhas Molucas (noroeste) entre 1999 e 2002 e no qual morreram nove mil pessoas.   Vários especialistas advertiram de que os extremismos religiosos estão ressurgindo na Indonésia desde a queda da ditadura do general Suharto, que governou o país com mão de ferro entre 1966 e 1998.   Eles afirmam que a liberdade política lhes proporcionou maior capacidade de ação e a incerteza econômica lhes está abrindo caminho para descontentamentos.   Os especialistas apontam a radicalização de certos setores, que agora representam cerca de 10% dos muçulmanos, um feito com que, por reação, está instigando o extremismo no seio de algumas minorias religiosas.   A Constituição da Indonésia, no entanto, ampara a liberdade religiosa e o atual Governo reconheceu oficialmente seis cultos: Islã, Protestantismo, Catolicismo, Hinduísmo, Budismo e Confucionismo.

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