Bioma em pé rende US$ 20 bi

Cálculo considera o mínimo que se pode obter de crédito de carbono com desmate evitado e reflorestamento

Giovana Girardi,

02 Julho 2008 | 23h59

Manter o cerrado remanescente em pé e reflorestar as áreas degradadas do bioma podem render no mínimo US$ 20 bilhões (ou algo em torno de R$ 34 bilhões) em crédito de carbono. Esta é a estimativa de um estudo obtido com exclusividade pelo Estado e conduzido pelas ONGs Conservação Internacional (CI) e The Nature Conservancy, além da Universidade Federal de Goiás, que contabilizaram as vantagens de não desmatar.    Biomanta ajuda a resgatar áreas degradadas  Matas podem arder em fornos de siderúrgicas  Projetos evitam o desperdício de água  59% da vegetação sofreu transformação  Referência mundial  Semi-árido tem saída até contra a fome  Unir sustentabilidade e preservação é desafio  Área protegida beneficia a pesca  Criação de reserva privada colabora com biodiversidade  Incentivo para conservar  Florestas de eucalipto substituem campos  Muito além da Amazônia   Galeria de fotos   Os biomas brasileiros  "Cumprimento das legislação pelos proprietáros rurais não é o suficiente para preservação"  "É mais fácil lutar por um ecossistema com a ajuda da sociedade"   Os pesquisadores chegaram a esse número após mapearem as regiões com cobertura vegetal abaixo da prevista pelo Código Florestal para o bioma (35% para as áreas de cerrado localizadas na Amazônia Legal, 30% no Piauí e 20% nas demais) e aquelas que mantêm a vegetação original acima desse limite.   A idéia era checar quanto é possível gerar de créditos de carbono em duas frentes: com o reflorestamento das áreas degradadas e com o desmate evitado das que se mantêm conservadas. E medir também quão eficiente o bioma é em seqüestrar carbono. "Sabemos que um cerrado maduro, em seu estado natural, é um verdadeiro dreno de carbono. Cada hectare é capaz de retirar até 2 toneladas de CO2 da atmosfera por ano. É mais do que o estimado para a Amazônia, de 1 t/ha, apesar de lá a biomassa ser maior", comenta o diretor do Programa Cerrado-Pantanal da CI, Ricardo Machado.   Para o estudo, porém, foram considerados apenas o que pode ser seqüestrado pela floresta replantada em crescimento e o quanto existe de carbono estocado no excedente de vegetação nativa. Os pesquisadores partiram do princípio de que cada hectare do cerrado possui cerca de 10 t de matéria seca e que, para produzir 1 t de biomassa seca, são necessárias 3,67 t de dióxido de carbono. Dessa forma, em média, cada hectare do cerrado seqüestra 36,7 ha de CO2. Eles consideraram ainda que o seqüestro de carbono por novas mudas em crescimento pode render US$ 15 por tonelada de CO2, enquanto, para o desmatamento evitado, o mercado voluntário poderia remunerar cerca de US$ 7 por tonelada.   Segundo o mapa de remanescentes do bioma, feito pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA), o cerrado havia perdido 40% de sua vegetação original até 2002. No novo trabalho, a área que deveria ser reflorestada foi medida pela diferença entre o que o levantamento considerava como remanescente e o quanto o local deveria de fato ter de mata para respeitar o Código Florestal.   Pela conta, um amplo programa de recuperação ambiental criaria créditos na ordem de US$ 1,88 bilhão. Já as áreas que possuem mais vegetação do que a lei exige poderiam render um total de US$ 18,2 bilhões por desmatamento evitado.   Para Machado, este número é até conservador, visto que os dados do MMA, além de estarem desatualizados, aceitam como vegetação nativa algumas áreas que já foram alteradas pelo homem. Para a CI, que fez um levantamento paralelo, em 2002 a alteração da mata nativa já havia chegado a 55%. Como o crédito de carbono do reflorestamento é mais valorizado, o valor final pode ser mais alto. Em setembro, a organização deve lançar uma atualização da taxa de desmatamento do bioma.   O lucro com a obtenção de créditos de carbono, no entanto, não pode ser visto como uma solução para o cerrado, pondera Machado. Os US$ 20 bilhões são pensados para um projeto de 30 anos, o que dá somente R$ 13,7 por ano por hectare. "Esse valor é suficiente apenas para custear a manutenção das áreas. Sabemos que um fazendeiro ganha muito mais dinheiro derrubando a vegetação. Só que há um custo evitado se o cerrado for mantido, pois a recuperação de uma área degradada requer investimentos que variam entre R$ 1 mil e R$ 5 mil por hectare, sem contar os serviços ambientais do seqüestro de carbono", diz.   Estratégia   Segundo Machado, a ocupação do cerrado a partir da década de 1960, com a instalação de Brasília e o posterior avanço do setor agropecuário, levou embora boa parte do bioma sem que se conhecesse direito sua biodiversidade. "Sem saber o que existe fica difícil até fazer uma estratégia clara de proteção, que vise, por exemplo, as regiões com alta concentração de espécies e aponte onde é possível consolidar o desenvolvimento", observa.   "Toda vez que fazemos um levantamento descobrimos novidades. No fim do ano passado, em uma expedição de 29 dias pelo Jalapão, encontramos 14 prováveis novas espécies (oito de peixes, três de répteis, uma de anfíbio, uma de mamífero e uma de ave)", conta o pesquisador.   Por sua riqueza, o cerrado é considerado um dos hotspots de biodiversidade do mundo, ou seja, uma região gravemente ameaçada e que abriga uma enorme variedade de espécies. Só de plantas, são pelo menos 6,6 mil, mas algumas estimativas apontam mais de 10 mil.   Considerada por muitos anos como uma região de solo pobre, ruim para a agricultura, tornou-se o "celeiro do mundo" com a criação de variedades mais resistentes de grãos e de novas técnicas de cultivo. Mas o que, por um lado, trouxe riqueza para o País, por outro afetou uma vegetação antiga, resistente, que se moldou durante séculos aos constantes incêndios, mas não teve como resistir à serra elétrica. Antes da chegada da agricultura, boa parte das árvores do cerrado já tinha sucumbido aos fornos da indústria siderúrgica de Minas.   Quando divulgou os dados de desmatamento, a CI previu que, se o ritmo de destruição se mantivesse, o bioma corria o risco de desaparecer até 2030. Além de levar consigo uma biodiversidade riquíssima, isso pode afetar o suprimento de água de boa parte do País. Nas suas chapadas estão as nascentes dos principais rios das bacias Amazônica, do Prata e do São Francisco.

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