Biocombustíveis ameaçam plantas e animais nativos, diz grupo

Estudo eleva preocupação internacional a respeito dos efeitos secundários dos desse tipo de combustíveis

ALISTER DOYLE, Reuters

20 de maio de 2008 | 13h54

Plantas exóticas e de crescimento rápido usadas na fabricação de biocombustíveis podem prejudicar novos hábitats ao expulsar as plantas e animais nativos dali, afirmou nesta terça-feira, 20, o relatório de um grupo ambientalista. O estudo, realizado pelo Programa Global de Espécies Invasivas (Gisp, na sigla em inglês), conclama os governos do mundo todo a empenharem-se mais para avaliar 32 espécies de plantas consideradas agressivas, entre as quais a cana-da-Índia, vinda do oeste da Ásia, e árvores de álamo da Europa, que podem escapar para além das áreas de cultivo ou de produção. "Desejamos garantir que os riscos sejam compreendidos de forma adequada", disse à Reuters Stanislaw Burgiel, diretor de política do Gisp. O relatório veio a público na mesma época da conferência da Organização das Nações Unidas (ONU) que ocorre entre os dias 19 e 30 de maio, em Bonn, e que discute formas de proteger a biodivesidade. Espécies invasivas podem apoderar-se de novos hábitats, provocando bilhões de dólares em prejuízos, caso não tenham competidores ou pestes que as mantenham sob controle. O estudo do Gisp, entidade que reúne vários grupos de cientistas do mundo todo, adiciona questões à preocupação da comunidade internacional a respeito dos efeitos secundários dos biocombustíveis, entre os quais elevar o preço dos alimentos e incentivar agricultores a desmatar áreas ainda maiores com vistas a aumentar sua produção. Muitos países defendem os biocombustíveis, vendo neles uma boa alternativa ao petróleo, cujo valor do barril já ultrapassou os 125 dólares, e vendo neles uma forma de combater o aquecimento global, provocado pelos gases do efeito estufa liberados durante a queima de combustíveis fósseis. Segundo o relatório, os países do mundo todo deveriam ter cuidado com a cana-da-Índia (Arundo donax), por exemplo, que vem sendo usada nos EUA para produzir biocombustíveis. "Naturalmente inflamável, essa planta cria ambientes favoráveis a incêndios -- uma ameaça tanto para os seres humanos quanto para espécies nativas em locais como a Califórnia", afirmou o documento. A alfarroba norte-americana, que pode vir a ser usada na fabricação de biocombustíveis, é conhecida como "Árvore do Diabo" na Etiópia porque tomou conta de áreas muito maiores do que o esperado desde que chegou àquele país, na década de 1970, por ser uma planta resistente à seca. Seus espinhos de 10 centímetros de comprimento ferem tanto as pessoas quanto os animais de criação. E o dendezeiro, recomendado para a produção de biocombustíveis, "já se tornou invasivo em algumas regiões do Brasil, transformando áreas com florestas ameaçadas, antes compostas por uma rica mistura de árvores e outras plantas, em uma vastidão homogênea de palmeiras", afirmou o relatório. O documento listou nove plantas como de baixo risco para serem usadas na qualidade de fonte de biocombustíveis porque não são seriam invasoras agressivas - entre essas estão o girassol, a soja, a cana-de-açúcar, o algodão e o trigo. "Não é comum ver o trigo crescendo fora de uma área de cultivo de trigo. Essa planta tornou-se tão domesticada que precisa ser semeada", afirmou Jeffrey Howard, da União Internacional para a Conservação da Natureza, que dá apoio ao Gisp. "Mas a cana-da-Índia será um problema em quase todos os lugares para os quais for levada", afirmou à Reuters. As plantas usadas com fonte de biocombustíveis somam-se ao problema das espécies invasivas, que tratam de vários tipos de seres vivos, entre os quais ratos e águas-vivas. Em seu comunicado, o Gisp afirmou que, segundo estimativas de especialistas, os prejuízos provocados por espécies invasoras representam até 5% da economia global. "Só os EUA gastam anualmente 120 bilhões de dólares para controlar o impacto de mais de 800 espécies invasivas responsáveis por provocar infestações", afirmou. O relatório recomendou que os governos avaliem os riscos antes de introduzir novas espécies. A Austrália e a Nova Zelândia, por exemplo, adotam leis rígidas de biossegurança e vetam a introdução de novos tipos de safra.

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