Yohana Porto/Imagem cedida por Yohana Porto
Yohana Porto/Imagem cedida por Yohana Porto

Banho de parque, um refúgio terapêutico na metrópole

Evento realizado neste sábado na programação da Virada Sustentável promoveu caminhada e contemplação à natureza baseada em uma técnica japonesa

Leonardo Pinto, Especial para o Estado

26 Agosto 2017 | 19h00

Celulares dão lugar a lupas, o barulho da cidade é substituído por um silêncio contemplativo à natureza, com sons de pássaros e folhas de árvores caindo, e o caminhar é tão lento que o corpo - acostumado à cansativa rotina da metrópole - se entrega à calma. Um tipo diferente de banho, que não envolve água, mas imersão ao espírito e à conexão com a natureza.

É esse o chamado Banho de Parque, projeto de educação ambiental da Universidade Aberta do Meio Ambiente e da Cultura de Paz (UMAPAZ), da Prefeitura de São Paulo. A ideia é simples: caminhar por áreas verdes em total silêncio, prestar atenção na respiração e observar a paisagem ao redor, aflorando os sentidos. 

A iniciativa foi idealizada pela bióloga Érica Sena e pela gerontóloga Maria Elizabeth Bueno, que se basearam na Ecologia Profunda e adaptaram a técnica japonesa Banho de Floresta à realidade de São Paulo, em meio às plantas, flores e árvores do Viveiro Manequinho Lopes, no Parque do Ibirapuera.

Segundo a pesquisa realizada por elas para  implementar o projeto, cientistas japoneses da Universidade de Chiba, cidade próxima à capital Tóquio, certificaram com experimentos e estudos que usar o tempo livre para estar em silêncio e contemplar áreas verdes, mesmo que urbanas, é uma forma de medicina preventiva. De acordo com pesquisa comandada pelo professor japonês Yoshifumi Miyazaki, há no Banho de Floresta uma espécie de aura terapêutica que ajuda a desacelerar a mente e o corpo, reativar a memória, reduzir o estresse e até a curar doenças como Alzheimer e depressão. 

A atividade fez parte do terceiro dia de programação da Virada Sustentável no Parque do Ibirapuera.  Mesmo sem inscrição prévia, um grupo de pessoas apareceu para se “banhar”, na manhã deste sábado, curiosas com o que estava por vir. Érica e Elizabeth, além de fundadoras do projeto, são responsáveis por guiar os visitantes.

Tudo começa com uma apresentação de cada um e uma sessão de relaxamento com alongamento e outros exercícios. Antes da saída definitiva, o aviso é claro. “Guardem os celulares, as fotos ficam por nossa conta, e a partir de agora ninguém fala”, diz Elizabeth com um sinal de silêncio, levando o dedo indicador rente à boca. “Respirem fundo, sintam a natureza e caminhem devagar. O silêncio absoluto entre os visitantes é importante para aguçar os outros sentidos e permanecer focado para contemplar o entorno”, explica. 

As lupas são distribuídas e usadas o tempo todo para enxergar de perto detalhes de flores e plantas, cuidadas no viveiro do parque. Como falar é praticamente uma afronta à atividade, as gesticulações são usadas para se comunicar. Érica e Elizabeth vão à frente e apontam os caminhos para os visitantes, que acabam ficando para trás de tão pensativos e contemplativos.

O assistente admnistrativo Daniel Kuster entrou de fato na proposta. O jovem de 26 anos abraçou alguns troncos de árvores e chegava perto de quase todas as flores para cheirá-las. “Me senti bem conectado. Estava precisando de algo assim, muitos problemas na cabeça. Senti que foi um dia diferente. Se fizéssemos isso com mais frequência os dias seriam melhores”, afirma.

No trajeto pelo viveiro, há um roteiro para aguçar sentidos. Primeiro, o caminho leva onde as flores são cuidadas, ativando instantaneamente o olfato. Depois, os participantes passam por uma fonte onde plantas aquáticas flutuam e o barulho da água toma conta do ambiente. Atrás da fonte há uma passagem repleta de folhas secas no chão e não há uma pessoa que passe e não queira pisá-las para ouvir o som relaxante quando elas quebram.

O ápice do Banho de Parque ocorre quando um campo verde aparece na paisagem. As guias Érica e Elizabeth deitam na grama baixa, como se estivessem implorando o resto do grupo a fazer o mesmo. Os visitantes, então, são encorajados a tirar o par de tênis e se refrescar na grama, sob o sol. “O contato com a natureza traz o divino, sem ter uma seita religiosa, é como ir a um templo natural”, diz a psicóloga Regina Bianco, de 56 anos, ao término da atividade.

A ideia de fazer um grupo de caminhada em silêncio e contato com a natureza faz até os mais céticos com a prática adotarem-na como uma cura. Érica Sena diz que já teve participantes do Banho de Parque com quadros depressivos e que, por meio dos depoimentos, se verificou realmente que a iniciativa é uma forma terapêutica natural e gratuita de promoção do bem-estar.

Além disso, ela diz que o contato direto e aproximação com a natureza é também uma forma de educação ambiental. “Se a pessoa começa a se sentir bem, ela percebe com mais atenção o entorno e passa a cuidar do meio ambiente. O desequilíbrio do meio ambiente reflete diretamente no desequilíbrio pessoal”, afirma Érica.

Agora o intuito é expandir o projeto, que começou efetivamente em abril. Érica, diretora da Divisão de Difusão e Projetos de Educação Ambiental da UMAPAZ, pensa em trazer empresas para participarem do Banho de Parque como uma atividade extra de recursos humanos para aumentar a produtividade dos funcionários.

Qualquer grupo de pelo menos cinco pessoas pode fazer o contato com os organizadores do projeto para participar. Neste domingo, os visitantes poderão participar da atividade no último dia da Virada Sustentável, às 11h e às 14h. Cada mês, há sempre duas caminhadas pelo viveiro do Parque do Ibirapuera. Em setembro, o Banho de Parque será nos dias 14 (das14h às 15h30) e 19 (das 10h às 11h30). 

Local: Parque Ibirapuera

Ponto de Encontro: Sede da UMAPAZ - Pq. do Ibirapuera - Av. Quarto Centenário, 1268

Pedestres: Portão 7A

Estacionamento: Portão 7 da Av. Republica do Líbano (Zona Azul)

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.