Balanço de carbono do Brasil está desfavorável
Conteúdo Patrocinado

Balanço de carbono do Brasil está desfavorável

Com organização, setor privado visa fortalecer a sustentabilidade

Estadão Blue Studio, O Estado de S.Paulo
Conteúdo de responsabilidade do anunciante

30 de abril de 2021 | 07h00

Enquanto o governo federal tenta dar sinais de que aceita a necessidade de alinhamento à visão global de sustentabilidade, o setor privado do País há tempos já se organizou a favor de um balanço de carbono menos desfavorável. As grandes empresas do Brasil estão focadas no fato de que as práticas de baixo carbono serão, cada vez mais, uma exigência do mercado – e, em geral, estão mobilizadas nessa direção, ainda que com diferentes níveis de agilidade.

É o que o professor Eduardo Viola, do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), especialista em política ambiental, chama de “internacionalização do risco climático” pelas corporações – um processo acelerado pela crise da covid-19. “As empresas se deram conta mais claramente da importância de lidar com os riscos intangíveis, aqueles riscos que parecem longínquos, mas podem ocorrer a qualquer momento, como uma pandemia.”

Para o professor, a maior conscientização das empresas sobre as questões ambientais ajuda a amenizar a visão ideológica e polarizada que tradicionalmente envolveu os temas ambientais no Brasil, como se essa preocupação fosse algo exclusivo da esquerda. “Agora há também um ativismo empresarial, com típicos representantes do capital aderindo à causa”, ele observa.

O mercado de carbono mundial não é necessariamente uma novidade. Existem mecanismos para precificar as emissões desde o Protocolo de Kyoto, que é de 1997, mas o Brasil ainda não conseguiu estruturar de forma robusta essa área, principalmente por falta de políticas governamentais mais modernas.

Por essa razão, instituições como o Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) vêm tendo uma posição histórica de defesa dos protocolos climáticos internacionais, como é o caso do Acordo de Paris.

Quando o presidente norte-americano Donald Trump anunciou a saída dos Estados Unidos do acordo, em novembro de 2019, o CEBDS classificou a notícia como sendo péssima para o mundo. “A redução das emissões de gases do efeito estufa é um bom negócio. A implementação do Acordo de Paris pode desbloquear ao menos US$ 13,5 trilhões em investimentos nos próximos 15 anos. Apenas as soluções do projeto Low Carbon Technologies Partnership Initiative (LCTPi) podem gerar de 25 milhões a 45 milhões de empregos por ano, respondendo por 65% das reduções de emissões necessárias em todo o mundo”, dizia a carta emitida pelo órgão empresarial, assinada por Marina Grossi, presidente do CEBDS.

Em algumas áreas, a realidade internacional de comercializar o carbono já sem impõe. A Votorantim Energia, por exemplo, a terceira maior comercializadora de energia do País, vem buscando soluções que antecedam essa nova realidade. O grupo já vende 95% dos créditos de carbono gerados nos parques eólicos do Nordeste no mercado europeu.

Números do CEBDS indicam que, atualmente, existem 61 iniciativas de governos locais, nacionais e regionais relacionadas ao comércio de emissões. A precificação de carbono foi responsável por US$ 45 bilhões gerados em 2019. Metade desse valor se destinou a projetos relacionados ao meio ambiente ou ao desenvolvimento das nações. Países da União Europeia, África, América Latina e Oceania têm aumentado sua ambição na redução de emissões de gases do efeito estufa (GEE) nos últimos anos, resta saber qual será o papel do Brasil nesse contexto.

Atualmente há mais de 1.600 empresas no mundo que já utilizam ou planejam utilizar precificação até 2021. No total, as duas formas de precificação, os sistemas de comércio de emissões e a taxação, cobrem 22% das emissões globais e, em 2018, essas iniciativas foram estimadas em US$ 82 bilhões.

Aumento de emissões

No caso do papel do Brasil em relação ao mundo, os números mostram que os últimos dois anos foram negativos para as metas de redução de carbono. Houve um aumento de 9,6% nas emissões brutas de gases do efeito estufa, segundo relatório do Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (Seeg), iniciativa do Observatório do Clima.

Em 2019, o Brasil lançou na atmosfera 2,17 bilhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente, ante 1,98 bilhão no ano anterior. Os números de 2020 ainda estão sendo compilados, mas os indicativos são de agravamento ainda maior do quadro, mesmo com a redução da atividade econômica decorrente da pandemia.

Isso se explica pelo fato de que o grande vilão da emissão brasileira de gases do efeito estufa é o desmatamento, enquanto nos outros países costuma ser a queima de combustíveis fósseis. Em 2020, a quantidade de alertas de desmatamento no Brasil subiu 34% em relação ao ano anterior, o que deve levar o País a destoar da tendência global de queda entre 4% e 7% nas emissões de carbono por conta da pandemia.

Década perdida

Embora agravada nos dois últimos anos, a tendência de aumento das emissões brasileiras, por causa principalmente do desmatamento, começou em 2010, depois de um período de seis anos de queda gradual dos índices de emissão. Entre 2010 e 2019, o País elevou em 28,2% o volume de gases do efeito estufa que despeja na atmosfera a cada ano.

De acordo com o Seeg, as principais causas para o aumento expressivo das emissões brasileiras estão ligadas às decisões do governo federal – classificadas, em conjunto, como “desmonte da governança de clima”. Algumas dessas ações foram a extinção da Secretaria de Mudança do Clima e Florestas do Ministério do Meio Ambiente e o engavetamento dos planos de prevenção e controle do desmatamento (PPCDAm e PPCerrado).

Um possível argumento que cai por terra diante da análise dos números é o de que as emissões decorrem do crescimento econômico – afinal, enquanto as emissões do Brasil cresceram 9,6% em um ano, o Produto Interno Bruto (PIB) nacional subiu apenas 1,1%. “Isso sugere que as emissões no Brasil, diferentemente das da maioria das outras grandes economias, estão descoladas da geração de riqueza”, destacou o relatório do Seeg, assinado por 14 especialistas, de diferentes instituições. Entre 2018 e 2019, o País gerou 3% menos riqueza para cada tonelada de carbono emitida.

Os dois primeiros anos do mandato de Jair Bolsonaro deixaram o Brasil ainda mais distante do cumprimento de metas ambientais que têm força de lei. Para chegar aos parâmetros estabelecidos pelas NDCs (sigla em inglês para Contribuições Determinadas Nacionalmente), as emissões do País em 2025 teriam de se limitar a 1,6 bilhão de toneladas de dióxido de carbono equivalente – algo que, hoje, parece impossível de alcançar, considerando-se a tendência de crescimento das emissões.

Na semana passada, na Cúpula de Líderes sobre Meio Ambiente organizada pela Casa Branca, o presidente Bolsonaro afirmou que o Brasil vai continuar como protagonista no enfrentamento da crise climática e que deve antecipar a meta de neutralidade de carbono em dez anos, de 2060 para 2050. “Historicamente, o Brasil é voz ativa na construção da agenda ambiental global. Como detentor da maior biodiversidade do planeta e potência agroambiental, o Brasil está na vanguarda do enfrentamento ao aquecimento global”, afirmou o presidente da República em seu discurso. “À luz de nossas responsabilidades comuns, porém diferenciadas, continuamos a colaborar com os esforços mundiais contra a mudança do clima”, garantiu.

Agropecuária tem papel-chave

Especialistas são unânimes em apontar o papel crucial que a agropecuária terá de exercer no Brasil para a redução do carbono. A participação direta do setor no total de emissões brasileiras em 2019 foi de 27,5%, mas o Seeg estima que, considerando as parcelas das emissões dos demais setores relacionados – especialmente “mudança de uso da terra e florestas” –, as atividades rurais estejam na origem de 72% das emissões brasileiras.  

Levando em conta a evolução do setor agropecuário ao longo dos anos, é possível encontrar vários indicadores positivos, como o aumento da produtividade em ritmo superior ao das emissões. O crescimento do rebanho bovino na década de 2010 foi de 2,6%, enquanto a produção de carne cresceu 18% no período, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Já a agricultura aumentou em 117% a produção de grãos no período entre 2005 e 2019, ante 52% a mais de emissões. A emergência climática exige, contudo, números bem mais ambiciosos.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.