RICARDO MORAES / REUTERS
RICARDO MORAES / REUTERS

Baía de Guanabara acumula toneladas de lixo mesmo após programas de despoluição

São ao menos 18 mil litros de esgoto doméstico por segundo, de sete municípios do Estado do Rio de Janeiro

Fábio Grellet, O Estado de S.Paulo

17 de março de 2022 | 20h24

RIO - Vista de longe, um dos mais belos e famosos cartões postais do Brasil; de perto, uma área em que, em alguns trechos como as margens da ilha do Fundão (zona norte do Rio), nem é possível ver a água, encoberta pelo lixo: assim é a baía de Guanabara, que banha o Estado do Rio de Janeiro. Alvo de diversos programas de despoluição nas últimas décadas, a baía recebe diariamente cerca de 90 toneladas de detritos produzidos por sete municípios (Rio de Janeiro, Niterói, São Gonçalo, Duque de Caxias, Magé, Guapimirim e Itaboraí), além de 18 mil litros de esgoto doméstico por segundo, de acordo com estimativa divulgada em 2016 pela Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais.

“Por conta do crescimento urbano desordenado, os rios foram transformados em valões de esgoto e lixo. Milhares de toneladas de lixo descem dos rios em direção à baía de Guanabara, principalmente em períodos de chuva”, conta o biólogo Mário Moscatelli, que acompanha a poluição na baía desde 1997. “Antes de ser ecólogo, sou lixeiro”, brinca. “Gasto 95% do meu tempo protegendo e tirando lixo das áreas de mangue que estou recuperando do que plantando. Já retirei 15 toneladas de resíduos de uma área de manguezal de 100 metros quadrados”.

“O lixo ataca o principal ativo econômico e ambiental da cidade do Rio, que são suas praias”, alerta o biólogo. Ele avalia que o problema não é técnico nem decorre de falta de verba. “Dinheiro (para despoluir) já teve, mas a falta de controle e responsabilização pelos resultados pífios resultaram nesse quadro”, avalia. “ O problema é político e cultural. Político porque depende de que o eleitor escolha quem de fato está ligado aos novos tempos ambientais e suas responsabilidades. A maioria dos dos prefeitos não toma conhecimento da situação e não são cobrados nas ruas nem pelo sistema de fiscalização”, considera. “Cultural por três fatores: uma parcela significativa da população não dá importância para o próprio voto nem cobra nada dos eleitos; a sociedade fica resignada diante da falta de política pública ambiental; e o cidadão não faz nem o mínimo que é cobrado de cada um, que é não jogar lixo nos rios. Vivemos uma tempestade ambiental perfeita”, conclui.

O Instituto Estadual do Ambiente (Inea), subordinado à secretaria estadual de Ambiente e Sustentabilidade, instalou 17 ecobarreiras na foz dos principais rios que deságuam na baía de Guanabara com o objetivo de reter os resíduos sólidos flutuantes, mas a operação desse sistema foi interrompida e o órgão aguarda uma decisão judicial para contratar uma empresa para retomar o serviço.

Na capital, a Companhia Municipal de Limpeza Urbana (Comlurb) não limpa a baía em si, mas recolhe o lixo abandonado em encostas e em rios e lagos, que podem acabar na rede de esgoto e poluindo as praias. Em toda a cidade, são coletados diariamente cerca de 9 mil toneladas de resíduos (lixo domiciliar e urbano, grandes geradores e resíduos da construção civil). A Companhia afirma atuar “constantemente para acabar com os pontos de descartes irregulares na cidade”.

Embora os detritos, como garrafas pet, pneus e até sofás, sejam a poluição mais visível da baía de Guanabara, o elemento poluidor que mais preocupa é o esgoto. A empresa Águas do Rio, que assumiu recentemente a administração dos serviços de água e esgoto em 27 municípios do Estado, atendendo 10 milhões de moradores, prevê no prazo de cinco anos conseguir coletar e tratar 80% do esgoto produzido na área atendida. Para isso, anuncia investimentos de R$ 2,7 bilhões e a formação de um cinturão sanitário. Na baía de Guanabara, só não cabe à empresa o serviço de coleta e tratamento em Niterói e em uma parte de Guapimirim.

A expectativa do biólogo Moscatelli é de que a despoluição evolua, com a nova gestão do serviço de coleta e tratamento do esgoto. “Só poderia piorar se a empresa privada continuasse com a mesma prática da estatal, isto é, péssima qualidade de gestão do saneamento, e aumentasse o valor do serviço, o que eu considero impossível”, afirma.

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