Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Ativista volta ao Brasil no 'voo da liberdade' e diz que luta continua

Bióloga retorna para casa após ficar retida na Rússia durante cem dias por participar de protesto do Greenpeace contra a exploração de petróleo no Ártico

Bárbara Ferreira Santos, O Estado de S. Paulo

28 Dezembro 2013 | 09h27

Ana Paula Maciel, a bióloga do Greenpeace que ficou dois meses presa e depois mais 40 dias sob custódia do governo russo, voltou enfim neste sábado, 28, ao Brasil. Ela desembarcou no Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo, às 7h05, vinda de Frankfurt, em São Paulo.

Ainda atordoada da viagem, que levou 12 horas, Ana Paula posou para os fotógrafos com um urso polar de pelúcia e uma bandeira com a frase "salve o Ártico" estampada. Ela falou com a imprensa, que a aguardava no aeroporto de Guarulhos, e disse que o voo foram as "12 horas para sua liberdade".

"Foram 12 horas de viagem no avião da minha liberdade. Eu passei tantas vezes 12 horas na solitária que 12 horas no avião foi barbada dessa vez", afirmou a bióloga ao desembarcar. Ela deixou a Rússia cem dias após a realização de um protesto contra a exploração de petróleo no Ártico que levou à prisão de 28 ativistas e dois jornalistas, em 19 de setembro.

A bordo do navio Artic Sunrise, eles haviam se aproximado de uma plataforma de petróleo empresa Gazprom e tentado colocar uma faixa no local. Na época, o Greenpeace alegou que o protesto foi pacífico e que o navio estava em águas internacionais. Ana Paula garantiu que, apesar do desgaste da prisão, o protesto valeu a pena. "Muitas mais pessoas sabem os problemas que estão acontecendo no Ártico e a gente (do Greenpeace) vai continuar denunciando. Continuar mostrando", afirmou.

Acusações. A promotoria russa acusou os ativistas de pirataria, o que podia gerar até 15 anos de prisão. Depois a acusação foi aliviada para vandalismo, que poderia levar a 7 anos de prisão. Por causa da reação internacional, os "30 do Ártico", como ficaram conhecidos os 28 ativistas e dois jornalistas detidos, começaram a ser libertados em 20 de novembro.

Ana Paula foi a primeira a sair da prisão e obteve o visto para regressar ao Brasil na sexta-feira, 27. "A minha vida mudou, foi uma tremenda injustiça o que aconteceu, uma tentativa frustrada de calar os protestos pacíficos e a liberdade de expressão", declarou no desembarque em São Paulo nesta sexta. "Recebi a anistia por um crime que eu não cometi e espero que o mundo tenha aprendido com isso. A gente não vai parar até eles nos devolverem o nosso navio."

Todos os 26 ativistas não russos estão autorizados a deixar o país, garantiu o Greenpeace. Pelo menos 25 deles, contando com Ana Paula, já foram embora. Após desembarcar em São Paulo, a ativista brasileira segue para Porto Alegre, onde passará o Réveillon com a família.

Confira o relato de Ana Paula na íntegra:

"Foram 12 horas de viagem no avião da minha liberdade. Eu passei tantas vezes 12 horas na solitária que 12 horas no avião foi barbada dessa vez. A minha vida mudou, foi uma tremenda injustiça o que aconteceu, uma tentativa frustrada de calar os protestos pacíficos e a liberdade de expressão. Eu espero que o mundo tenha aprendido com isso, porque nem os russos esperavam a reação do mundo para nos libertar, para nos proteger. Foi uma bola fora. Eles pensavam que poderiam fazer com a gente o que fizeram com todos os que fazem protesto pacífico. Que eles calam, espezinham, mantêm na cadeia por anos. Mas o mundo estava junto com a gente e eu não tenho palavras para agradecer isso. Se não fossem vocês, toda a cobertura, toda a ajuda, é provável que nós ainda estivéssemos lá. Foi uma vergonha o que aconteceu, e é provável que a Gazprom (a companhia de petróleo da qual eles tentaram invadir a plataforma) agora esteja roendo os cotovelos porque muitas mais pessoas agora sabem o que está acontecendo. Se eles pressionaram... a Rússia é um país complicado, percebemos que o sistema judiciário não é independente. É Justiça de telefonema, a gente não sabe quem faz os telefonemas, mas os juízes não decidem nada. E infelizmente eu recebi uma anistia por um crime que eu não cometi e, enfim, espero que o mundo tenha aprendido com isso e a gente não vai parar até que devolvam o nosso navio e a gente tenha um santuário no Ártico. Valeu a pena. E nunca foi contra a Rússia. Eles entenderam mal, o Greenpeace tende a atrapalhar e a incomodar todas as companhias de petróleo no mundo e, enfim, nunca foi contra eles. A Rússia é um país lindo, com pessoas maravilhosas, bom, tem seus problemas, como todos os outros países, mas, enfim, valeu a pena porque agora muitas mais pessoas sabem os problemas que estão acontecendo no Ártico e a gente vai continuar denunciando. Continuar mostrando. A gente faz há 40 anos e não vai parar por causa de uma intimidação falida."

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