Arte e proteção no fundo do mar

Escultor britânico cria museu subaquático no litoral de Cancún para atrair mergulhadores e mantê-los longe da segunda maior barreira de coral do mundo

Randal C. Archibold ,

29 Agosto 2012 | 07h00

THE NEW YORK TIMES

CANCÚN, MÉXICO

A maioria das pessoas visita uma exposição de arte com sapatos confortáveis e uma profunda admiração pela criatividade. Para apreciar a obra do britânico Jason de Caires Taylor, porém, é preciso pé-de-pato e submergir a uma profundidade de, no mínimo, 4 metros nas águas transparentes do litoral de Cancún.

Taylor constrói esculturas de concreto de 5 toneladas representando homens, mulheres e crianças, a maioria inspirada em pessoas do povoado mexicano de pescadores perto de onde vive e trabalha. Entre os moradores retratados estão o garoto Carlito sentado numa pedra, o orgulhoso Joaquín fitando o céu e o velho que todos conhecem como Charlie Brown segurando o queixo em contemplação.

Num barracão apertado repleto de corpos – réplicas em cerâmica e falsos começos –, ele retoca lábios e narizes. Arruma seus cabelos. Ajusta suas roupas. Depois, ele as submerge no mar.

Ali elas descansam num repouso fantasmagórico no Museu Subaquático de Arte, uma área de 430 m2 misto de atração turística e esforço de conservação para desviar mergulhadores e usuários de snorkel para longe do Recife Mesoamericano, a segunda maior barreira de coral do mundo.

Com as 60 peças acrescentadas desde o início do ano, já são quase 500 estátuas colocadas lá desde 2009. As obras se revestiram naturalmente de uma quantidade suficiente de corais e algas para lhes dar a aparência de zumbis, com uma condição de pele particularmente horrorosa. Em seis anos, aproximadamente, os corais terão coberto as peças por completo, deixando apenas formas sugestivas.

“Sobretudo, é uma oportunidade para ver esse outro mundo”, explica Taylor. “Estamos rodeados por água, mas as pessoas não compreendem como é o seu planeta. Isso ajuda a nos vermos como parte do mundo.”

Ele ancora as obras com parafusos especiais para areia em águas suficientemente rasas para os mergulhadores com snorkel poderem visitar. A luz do sol filtrada pela água azul lança sombras estranhas, extraindo inesperados tons rosas e alaranjados do coral. Quem mergulha mais fundo tem visão privilegiada e pode admirar de perto um torvelinho multicor de corais e algas. Peixes disparam de um lado para outro e, numa virada ecológica, alimentam-se das “pessoas”. À noite, diz Taylor, já foi flagrada uma família de tartarugas-marinhas que veio dar uma espiada.

Os puristas podem se arrepiar com a ideia de alterar o mar dessa forma. Mas Taylor, que usa um concreto especialmente preparado para atrair coral e tem pH quase neutro, observa que a exposição ocupa uma fração ínfima do oceano. “É como erguer uma escultura no Saara”, disse ele, argumentando que as obras contribuem para o bem maior de preservar o recife natural ao afastar mergulhadores dele.

“Vi as fotos, e parece intrigante”, disse Richard Dodge, diretor executivo do National Coral Reef Institute na Flórida, sobre o museu. “Sem ser extenso demais para interferir no recife natural, ele ajuda ao prover um local de mergulho alternativo.”

Outros são mais céticos, dizendo que o museu serve mais como atração turística e que o recife natural é mais danificado pela poluição dos resorts e as mudanças climáticas do que pelos que o visitam. “Ele não faz bem nem mal ao recife, mas não o vejo como um projeto de preservação”, disse Roberto Iglesias Prieto, um cientista de Cancún que estuda o recife.

Aposta. Taylor, um britânico de 32 anos, foi atraído ao México depois que um projeto inicial de 65 obras ao largo da ilha caribenha de Grenada atraiu muita curiosidade. Ele cresceu na Inglaterra, Espanha e Malásia, onde desenvolveu uma paixão por mergulho e recifes de coral. É formado pelo Camberwell College of Arts em Londres.

Desde que era um jovem grafiteiro em Londres com o apelido de Intro, sabia que queria fazer arte de cunho ambientalista. Imaginou, porém, que este seria um hobby de aposentadoria.

O britânico levava uma vida de vagabundo – em certo ponto, passou a desenhar cenários de teatro em Londres. Em meados dos anos 2000, isso o levou a Grenada, onde planejava inicialmente abrir uma empresa de mergulho, mas reconsiderou a ideia. “Não sabia lidar com o público”, confessa.

Lamentando os danos aos recifes da região, ele optou por uma estratégia ainda mais arriscada e enterrou suas poupanças, que chegavam a US$ 50 mil, na ideia de obras submersas, que representariam a “séria bomba-relógio” das consequências humanas sobre a natureza e a esperança de recuperação.

A ideia se desenvolveu num parque subaquático com 65 obras, uma coleção que inclui o prestigiado Correspondente Perdido, um homem solitário datilografando em sua escrivaninha na vastidão azul do mar, além de Vicissitudes, um círculo de 28 meninos e meninas com traços africanos de mãos dadas no fundo do mar.

Alguns admiradores interpretam o círculo de figuras submersas como uma declaração sobre a escravidão. Mas Taylor diz que se inspirou em crianças locais e procura transmitir a mensagem de “mudança e crianças tomando as características de seu meio ambiente”. A obra foi danificada por tempestades, e parte dela desmoronou. Recentemente, Taylor vem dando retoques finais em uma peça substituta, mais resistente, que será levada de navio até Grenada.

 

Popularidade. As obras de Grenada despertaram a atenção de autoridades mexicanas do Parque Nacional Marinho, área preservada ao largo de Cancún visitada anualmente por cerca de 750 mil pessoas. O governo local havia começado a construir pequenos recifes artificiais em forma de bola para afastar pessoas do recife natural danificado. Com financiamento federal, contratou Taylor para projetar as esculturas – até agora, só houve verba para cerca de 500.

Pareceu natural usar moradores locais como modelos, disse Taylor. Após selecioná-los pelo que chamou de “traços fortes e boa estrutura óssea”, ele submeteu os voluntários a um processo de moldagem de duas horas, que incluía um envoltório de pasta da cabeça aos pés, com os olhos fechados.

“Fiquei com medo quando eles começaram a me cobrir”, relata Joaquín Adame Sutter, um pescador de 53 anos que foi o modelo de Homem em Fogo, uma estátua com coral de fogo se projetando da pele.

O sucesso do museu trouxe alguns trabalhos comerciais para Taylor, incluindo o projeto de uma escultura metálica submarina de um piano para a ilha particular nas Bahamas de David Copperfield. O piano toca música gravada. E as fotos e esculturas de Taylor foram exibidas no mês passado pela Jonathan LeVine Gallery em Manhattan.

Um novo projeto que ele está desenvolvendo, no entanto, será bem menos acessível e deve se tornar um antídoto à exposição ampla de sua arte. Seria uma obra política provocativa (que ele prefere manter em segredo) que ficaria submersa no mar profundo em um oceano não especificado, para ser vista, talvez, por meio de fotos. “Tanta vida é construída em torno do mito”, disse ele, dando uma pista. “Eu a posicionaria de tal forma que cem navios não conseguiriam encontrá-la.” / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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