Arqueóloga dedica vida para mudar o Piauí

Niède Guidon criou referências mundiais no Estado, mas acha que fracassou

LEONENCIO NOSSA / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

06 Outubro 2013 | 02h06

A arqueóloga Niède Guidon, uma mulher baixinha, de estilo enérgico, venceu o desprezo do meio científico internacional e os enigmas da pré-história americana ao impor uma nova visão da chegada do Homo sapiens ao continente. Ela avalia, porém, que perde a batalha para os homens e a história do presente. O Parque Nacional da Serra da Capivara e o Museu do Homem Americano, referências mundiais que criou no Piauí, não têm verba pública fixa para manutenção.

As obras do aeroporto planejado para garantir turistas estrangeiros sofrem com sucessivos desvios de recursos. Ela ainda viu cinco escolas que construiu no entorno das escavações serem fechadas por prefeituras.

"Eu fracassei", diz Niéde, com olhar de revolta, após uma entrevista animada de mais de duas horas para o Estado sobre seus estudos pioneiros, sua reinvenção da arqueologia nacional e a estrutura de um centro com laboratórios que faz inveja às melhores instituições da Europa.

A avaliação dura e inesperada sobre a própria trajetória ilustra o cansaço de uma mulher de 80 anos que ainda é obrigada a percorrer gabinetes de Brasília e o mundo para garantir o funcionamento de um parque natural do tamanho do município de São Paulo, que possui 940 sítios catalogados com pinturas e gravuras rupestres, algumas com mais de mil figuras. Desses, 172 estão abertos à visitação.

Ela é a maior empregadora da região de São Raimundo Nonato. Dá serviço para 140 pessoas - eram 270 antes de um corte de verbas do governo federal. É um feito em um lugar de terra que não é propícia para a agricultura e a criação de animais. A aridez do solo, ao menos, evitou que o plantio de soja chegasse aos tesouros arqueológicas.

Niède ainda montou oficinas de cerâmica, salas de treinamento e cursos superiores de arqueologia e ciências naturais.

Outra explicação para a revolta de Niède é que o seu projeto de vida é mais ambicioso que a obra construída até agora. A meta da arqueóloga nascida em Jaú (SP), mas que carrega o sotaque francês do pai e do tempo em que viveu e estudou em Paris, é transformar a realidade do Estado com base na riqueza da pré-história, modificar a vida do brasileiro levantando o passado de um mundo habitado por tatus e preguiças gigantes, macacos, leões e homens de origem africana que deixaram vestígios nas pedras e grutas.

O fechamento das escolas foi apenas uma batalha que Niède perdeu para os coronéis piauienses. Ela venceu outras, como a própria demarcação do parque. Niéde viu as pinturas rupestres no começo dos anos 1970, quando voltava da aldeia dos índios kraôs. Naquela época, acreditava-se que os primeiros americanos haviam chegado ao continente apenas pelo Estreito de Bering, há cerca de 15 mil anos. Niède mostrou que a espécie humana, após atravessar os Oceanos Atlântico e Pacífico, entrou por vários pontos. Entre as descobertas da arqueóloga está um esqueleto de uma criança que teria 23 mil anos.

Na França, viveu em um autoexílio no início de 1970, quando os ventos da ditadura militar não lhes eram favoráveis. Lá se formou e obteve os primeiros recursos para iniciar as pesquisas. Vendeu um apartamento em Paris e outro em São Paulo para escavar. "Troquei Paris por uma casa em São Raimundo Nonato", lembrou Niède, na semana passada, em visita a Brasília para inaugurar uma exposição promovida pela União Europeia.

Ela se dedicou à reconstituição do modo de vida, das danças e festas dos primeiros homens que habitaram a América. Não formou família. Após se aposentar, continuou no Piauí e manteve a língua afiada para falar dos políticos. Recentemente, pesquisadores batizaram com seu nome uma aranha perigosa.

Educação. Niède faz críticas à política assistencialista federal e cobra investimentos no ensino. Avalia que o Bolsa-Família não resolve definitivamente as mazelas. "O Nordeste não mudou. Eu trabalho lá. A situação é muito difícil. As pessoas recebem essas bolsas e auxílios que não são suficientes para uma vida normal", avalia. "O Nordeste precisa de boas escolas."

Ela reclama dos esquemas de corrupção dos governos que prejudicam o avanço de seu trabalho e engessam seu esforço para melhorar a vida no local. Lembra que a obra do aeroporto de São Raimundo Nonato começou em 1998 e não têm previsão para ser concluída. A falta de aeroporto prejudica a chegada do turista interessado em arte rupestre e meio ambiente.

As estradas rumo ao parque são um empecilho até para Niède, que tem diabete e problemas ósseos. São 300 km de vias esburacadas e estreitas do parque ao aeroporto mais próximo, em Petrolina (PE). "O povo de lá (São Raimundo Nonato) diz que faz tanto calor em Teresina que o dinheiro repassado por Brasília derrete", reclama. "Em 1998, o governo federal mandou R$ 15 milhões. Um ex-governador pegou e pagou a sua reeleição. O povo brasileiro vota em cada um..." O caso está no Tribunal de Contas da União.

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