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'Arca de Noé' de sementes do Brasil está desfalcada

País é signatário da meta que prevê armazenar 75% das espécies de plantas ameaçadas de extinção, mas coleções reúnem só cerca de 1%

Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

16 Abril 2017 | 05h00

SÃO PAULO - Construir uma espécie de Arca de Noé, mas de sementes. Para o caso de um cataclismo destruir todas as plantas do País. Ou de a própria humanidade dar conta disso, com suas expansões urbanas e do agronegócio ou com as mudanças climáticas e a superexploração para consumo. Ter a salvaguarda para esses cenários é um dos objetivos da Estratégia Global para a Conservação de Plantas, estabelecida pela Convenção da Diversidade Biológica da Organização das Nações Unidas (ONU), da qual o Brasil é signatário. 

Pela meta, cada país participante deve preservar até 2020, de modo ex-situ (ou seja, em bancos de sementes e coleções vivas, como jardins botânicos), 75% das espécies de plantas ameaçadas de extinção em seu território. Mas por aqui, apesar de sermos o país com a maior diversidade de espécies de flora do mundo, apenas 1,3% das espécies ameaçadas conta com essa proteção nos bancos de semente.

O número foi revelado em um levantamento feito por pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais e do Jardim Botânico Real do Reino Unido em todas as instituições do País que têm esse tipo de acervo. Os dados, referentes a 2015, davam conta de apenas 26 espécies armazenadas, contra as 2.113 classificadas no Livro Vermelho da Flora como em algum grau de ameaça no País. O trabalho foi publicado em fevereiro na revista Biodiversity and Conservation.

De lá para cá, o cenário deve ter melhorado um pouco. Só o Jardim Botânico do Rio, que tem a maior coleção, passou de 17 espécies em 2015 para 35. Mas mesmo se mesmo se o número total para o Brasil tiver também dobrado, ainda assim estaríamos preservando só cerca de 3%.

O trabalho, liderado por Alberto Teixido, sob orientação de Fernando Silveira, constatou que espécies simbólicas do País e que foram superexploradas, como pau-brasil, castanha-do-Pará, mogno e palmeira juçara, ganharam seu lugar nos acervos, assim como bromélias e orquídeas, mas muitas outras que são raras e endêmicas estão de fora. 

“Mesmo sem um evento dramático, ter esses bancos é importante porque, se essas espécies vão perdendo indivíduos, é possível fazer a reposição, restaurar áreas degradadas”, explica Silveira. “A ideia é poder responder prontamente em caso de emergência”, diz.

A crítica deles é que falta uma política nacional coordenada que oriente como deve ser o esforço para alcançar a meta. Antonio Carlos de Andrade, curador do maior acervo do tipo, o do Jardim Botânico do Rio, também destaca que faltam pesquisas para saber quais espécies podem ser conservadas em bancos de sementes sem prejuízo. O armazenamento, após a desidratação da semente, se dá em freezer a -20°C. “Algumas não aguentam isso, mas não temos pesquisa suficiente para saber quais podem ser armazenadas dessa maneira”, afirma o pesquisador.

Segundo ele, hoje deve haver conhecimento para no máximo 2% das cerca de 2 mil ameaçadas. "Sem essa informação, corremos o risco de perder o material. Fora todo o esforço de viajar até os locais onde estão as plantas para coletá-las, que nem sempre é perto dos centros de pesquisa ou de jardins botânicos", diz.

Ugo Vercillo, diretor do Departamento de Conservação e Manejo de Espécies do Ministério do Meio Ambiente, afirmou que a prioridade do governo é fazer a conservação in situ (em vez de ex-situ), protegendo as florestas que existem como forma de evitar a extinção de espécies. Ele defende que em bancos de semente fiquem apenas espécies criticamente ameaçadas de extinção, que equivalem a cerca de 22% do total de espécies ameaçadas.

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