Amanda Rippen White/The News Journal via AP
Amanda Rippen White/The News Journal via AP

Aquecimento global tira estabilidade de correntes do Oceano Atlântico, diz estudo

Interrupção desse mecanismo pode causar frio extremo na Europa e em partes da América do Norte, elevar o nível do mar e perturbar monções sazonais que fornecem água doce para grande parte do planeta

Sarah Kaplan, Washington Post

06 de agosto de 2021 | 10h00

O aquecimento causado pela humanidade no mundo ocasionou uma "perda quase completa de estabilidade" no sistema que rege as correntes do Oceano Atlântico, constatou um novo estudo — o que levanta o preocupante prospecto de que essa importante "esteira transportadora" aquática poderia estar próxima de seu fim.

Nos anos recentes, cientistas fizeram alertas a respeito do enfraquecimento da Circulação Meridional de Capotamento do Atlântico (AMOC), que transporta águas quentes e salgadas dos trópicos para o norte da Europa e envia águas mais frias de volta para o sul ao longo do leito marinho. Pesquisadores que estudam mudanças climáticas ancestrais também descobriram evidências de que a AMOC pode se interromper bruscamente, causando alterações brutais de temperatura e outras mudanças dramáticas nos sistemas climáticos globais.

Os cientistas não observaram diretamente o enfraquecimento da AMOC. Mas a nova análise, publicada nesta quinta-feira pela revista científica Nature Climate Change, se baseia em mais de um século de registros de temperatura e salinidade do oceano para mostrar alterações significativas em oito métricas indiretas da força de circulação.

Esses indicadores sugerem que o combustível da AMOC está acabando, o que a torna mais suscetível a perturbações que podem acabar com seu equilíbrio, afirma o autor do estudo, Niklas Boers, pesquisador do Instituto Potsdam para Ciência de Impacto Climático, na Alemanha.

Se a circulação parar, isso poderia causar frio extremo na Europa e em partes da América do Norte, elevar o nível do mar na costa leste dos Estados Unidos e perturbar monções sazonais que fornecem água doce para grande parte do planeta. "Isso aumentou o entendimento… de quão próxima a um ponto crítico a AMOC já pode estar", afirmou Levke Caesar, climatologista física da Universidade Maynooth (Irlanda), que não se envolveu no estudo.

A análise de Boers não sugere exatamente quando a alteração pode ocorrer. Mas "a mera possibilidade de que o ponto crítico da AMOC está próximo deveria ser motivo suficiente para adotarmos medidas de contenção", afirmou Caesar. "As consequências de um colapso poderiam ser provavelmente muito abrangentes."

A AMOC é resultado de um ato gigantesco de equilíbrio oceânico. Começa nos trópicos, onde as altas temperaturas aumentam não apenas a temperatura da água do mar, mas também sua taxa de salinidade, por favorecer a evaporação. Essa água quente e salgada flui para o noroeste, da costa dos EUA na direção da Europa — criando o fluxo que conhecemos como Corrente do Golfo.

À medida que vai chegando ao norte, porém, a corrente esfria, adicionando densidade às águas já carregadas de sal. Quando chega à Groenlândia, a corrente já é densa o suficiente para fluir em grandes profundidades. O fluxo empurra outras águas profundas para o sul, até a Antártida, onde a corrente se mistura com outras correntes oceânicas, compondo um sistema global conhecido como "circulação termoalina".

Essa circulação é a fundação do sistema climático da Terra, cumpre um papel crítico na redistribuição do calor e na regulação de padrões climáticos em todo o mundo.

Contanto que os gradientes de temperatura e salinidade necessários estejam presentes, a AMOC é autossustentável, explicou Boers. O princípio da física segundo o qual água mais densa afunda e a água menos densa "boia" mantém a circulação movimentando-se em um ciclo infinito.

Mas a mudança climática alterou esse equilíbrio. Temperaturas mais altas tornam as águas do oceano mais quentes e menos densas, pois o fluxo de água doce ocasionado pelo derretimento de mantos de gelo e glaciares dilui a salinidade do Atlântico Norte e reduz sua densidade. Se essas águas não forem densas o suficiente para afundar, todo o sistema da AMOC para.

Isso já aconteceu antes. Estudos sugerem que no fim da última era do gelo, um imenso lago glacial inundou um manto de gelo na América do Norte. A água doce escorreu para o Atlântico, fazendo parar a AMOC — e congelando grande parte do Hemisfério Norte, especialmente a Europa. Bolhas de ar capturadas pelo gelo polar indicam que o frio gelado durou mil anos. Análises de fósseis de plantas e artefatos ancestrais sugerem que a mudança climática transformou ecossistemas e causou transtornos para as sociedades humanas.

"Esse fenômeno é intrinsicamente biestável", afirmou a respeito da AMOC Peter de Menocal, presidente da Woods Hole Oceanographic Institution. "Fica ligado ou desligado."

Mas a AMOC estará agora prestes a desligar?

"Essa é a questão central com a qual todos nos preocupamos", afirmou De Menocal, que não se envolveu na pesquisa de Boers.

No Relatório Especial sobre o Oceano e a Criosfera em um Clima sob Mudança, de 2019, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas das Nações Unidas projetou que a AMOC enfraqueceria durante este século, mas uma interrupção total nos próximos 300 anos seria provável somente em cenários extremos de aquecimento global.

A nova análise sugere que "o limite crítico está muito provavelmente mais próximo do que esperávamos", afirmou Boers.

As "forças restauradoras", ou ciclos de retroalimentação, que mantêm a AMOC em movimento estão em declínio, afirmou ele. Todos os indicadores analisados em seu estudo — incluindo temperatura da superfície marítima e concentrações de sal — então variando de maneira crescente.

É como se a AMOC fosse um paciente recém-chegado a um pronto-socorro e Boers tivesse informado aos médicos seus sinais vitais, afirmou De Menocal. "Todos os sinais indicam que o paciente sofre de um problema realmente mortífero."

Oceanógrafos físicos, como ele, também tentam confirmar o enfraquecimento da AMOC por meio de observações empíricas. Mas a AMOC é tão imensa e complexa que provavelmente levará anos de cuidadoso monitoramento e coleta de dados antes que uma medição definitiva seja possível.

"E todo mundo também se dá conta do perigo de esperar por essas provas", afirmou De Menocal.

Afinal, há muitas outras indicações de que o clima da Terra nunca se comportou como agora. Neste verão no hemisfério norte, o Noroeste Pacífico da América do Norte foi castigado com uma onda de calor que segundo cientistas seria "praticamente impossível" não fosse o aquecimento causado pela humanidade. China, Europa Central, Uganda e Índia sofreram inundações gigantescas e mortíferas. Incêndios florestais ocorrem da Califórnia à Turquia e atingem também as florestas congeladas da Sibéria.

O mundo está mais de 1º Celsius mais quente do que era antes de os humanos começarem a queimar combustíveis fósseis e esquenta cada vez mais.

E as consequências do enfraquecimento do fluxo da AMOC já são sentidas. Uma persistente "bolha gelada" no oceano ao sul da Groenlândia é considerada resultado de menos água quente chegando à região. O atraso na Corrente do Golfo elevou excepcionalmente o nível do mar ao longo da costa leste dos EUA. Importantes regiões pesqueiras tiveram as atividades interrompidas em razão das oscilações de temperatura, e espécies apreciadas lutam para sobreviver às alterações.

Se a AMOC parar mesmo completamente, a mudança seria irreversível por várias gerações, afirmou Boers. A natureza "biestável" do fenômeno significa que ele encontrará um novo equilíbrio quando estiver "desligado". Ligá-lo novamente exigiria uma alteração climática muito maior do que as mudanças que ocasionaram o desligamento.

"Isso é uma daquelas coisas que não deveriam acontecer nunca, e deveríamos tentar com todas as forças reduzir as emissões de gases de efeito estufa o mais rapidamente possível", afirmou Boers. "Esse é um sistema com o qual não queremos mexer." / Tradução de Augusto Calil

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