Aquecimento global provoca migração e dá início a novo mar

Mapa mundial dos oceanos sofre transformação com mudanças climáticas e áreas geladas, onde havia poucos peixes, já veem crescer número de espécies

Jamil Chade, Enviado especial - O Estado de S. Paulo

30 Maio 2014 | 14h54

REYKJAVIK - Com um Ipad na mão, um binóculo e uma roupa especial para se proteger do frio polar, biólogos de diversos países saem pelos mares da Islândia em busca de informações sobre o percurso que baleias, golfinhos e outros peixes possam estar fazendo. A meta é tentar entender se essas populações estão migrando de outras regiões do mundo para as portas do Polo Norte e até que ponto as mudanças climáticas estão afetando a população marinha.

A reportagem do Estado embarcou em uma dessas missões lideradas pela Universidade da Islândia, ao lado de pesquisadores da Itália, França, Alemanha e Estados Unidos. A primavera não apenas garante a luz do sol até as 23 horas na região, mas temperaturas mais amenas, de cerca de 0°C.

O que ninguém discute é que o aquecimento global ameaça mudar os mapas dos mares. Não apenas por conta da elevação das águas previstas pelos cientistas. Mas principalmente diante da transformação radical na população de peixes de cada região como consequência do aquecimento das águas.

Estudos chegaram nos últimos anos à conclusão de que mais de mil espécies comerciais de peixes poderão sofrer uma mudança dramática e migrar de locais onde estiveram por séculos para novas águas mais frias. Mas cientistas não chegam a um consenso se essa migração significará que a população marinha vai se manter estável.

Um dos estudos usados como referência revela que, até 2050, os mares passarão por uma mudança de sua população, com peixes deixando as áreas tropicais, cada vez mais aquecidas, para buscar refúgio nos polos do mundo.

Segundo a pesquisa, realizada em cooperação entre as universidades de East Anglia, Princeton e a de British Columbia, 60% da população de peixes nos oceanos até 2050 sofrerão um deslocamento em busca de águas menos quentes. "Veremos esse novo mapa mundial dos mares ainda em nossa geração", apontou o autor da pesquisa, William Cheung.

Um dos aspectos mais relevantes da previsão se refere ao futuro do bacalhau. A constatação é que, com a migração, aquecimento das águas e pesca contínua, a população mundial do peixe poderia diminuir pela metade até 2050. O atum também pode ser um dos peixes que promoverá uma forte migração.

O resultado seria, para diversas partes dos trópicos, a extinção da presença de algumas espécies, o que traria consequências devastadoras para pequenos pescadores da costa da África e na Ásia, principalmente nos mares próximos à Malásia.

Na avaliação do projeto Pesca Sustentável da Universidade de Cambridge, a indústria pesqueira mundial poderá perder até US$ 41 bilhões por conta do impacto das mudanças climáticas. Oceanos mais quentes e mais ácidos poderiam afetar a vida de 400 milhões de pessoas pelo mundo que, principalmente nos trópicos, dependem da pesca para viver. Em seu quinto informe, o Painel Internacional de Mudanças Climáticas também alertou para a situação dos oceanos.

Uns perdem, outros ganham. Para alguns cientistas, locais como Rússia, Noruega e Islândia devem ser os principais beneficiados da migração de peixes. Algumas espécies que eram encontradas apenas no Atlântico, por exemplo, já começam a aparecer nas redondezas da Islândia e das Ilhas Faroe. Outras espécies, como o bacalhau do Pacífico, também já foram identificados no Estreito de Bering.

No mesmo estreito, dados sobre outra espécie de bacalhau revelam que a migração já começou. No ano 2000, o peixe era encontrado em toda a região de Bering. Em 2012, a concentração do bacalhau estava na parte norte do estreito. Estoques de outros peixes que estavam na latitude 75°N há quase 15 anos hoje são encontradas em 80°N.

Entidades como a ONG Greenpeace já denunciam o fato de que, no Ártico, barcos cada vez maiores de pescadores estão se aventurando nas águas do Norte, em busca de mais peixe e se beneficiando do fato de que a camada de gelo na região é cada vez menor. Nesse caso, o que contribui é o degelo de certas regiões e verões mais longos, permitindo uma "verdadeira corrida ao ouro".

Entre 2005 e 2010, a Greenpeace alerta que o número de navios pesqueiros canadenses que viajaram até o Ártico foi multiplicado por sete. Na Noruega, os barcos nunca estiveram em latitudes parecidas nas últimas décadas, em parte graças às camadas cada vez mais finas de gelo.

"Um novo oceano está sendo criado e, pela primeira vez na história humana, isso vai resultar em uma transformação monumental", declarou o presidente da Islândia, Ólafur Ragnar Grímsson, há duas semanas em uma conferência promovida pela Google.

Poder dos mares. Ele também confirmou que a migração dos peixes já é uma realidade e vem abrindo tensões diplomáticas entre seu país, a Noruega, a União Europeia e as Ilhas Faroe. Antigos acordos entre governos estipulando fronteiras de pesca podem simplesmente não fazer mais sentido em poucos anos.

Um levantamento da Universidade de Queensland confirma a ameaça de que esses acordos passem a ser ultrapassados. Segundo o informe, "a fronteira das espécies marinhas está se deslocando aos polos em uma taxa média de 72 quilômetros a cada dez anos".

Na Islândia, quem não quer perder essa oportunidade são as grandes empresas de pesca. O Estado visitou a sede da poderosa Associação de Proprietários de Navios da Islândia e constatou o otimismo do setor diante das "novas oportunidades". "Dobramos nossas exportações de peixes em cinco anos", comemorou Sveinn Hjartarson, economista chefe da entidade, que é um dos pilares do país.

Novas rotas. A desvalorização da moeda local depois da crise de 2008 ajudou o setor a ser mais competitivo e, diante da migração de espécies e de novas rotas no Ártico, o segmento apresenta taxas de crescimento sem precedentes.

Com um quinto do volume total de pesca realizada globalmente a cada ano, o Ártico promete se transformar no novo Eldorado para o setor. Empresários que atuam no segmento lembram o dia 16 de setembro de 2012 como um marco. Naquele dia, a cobertura de gelo do Oceano Ártico atingiu seu ponto mais baixo da história. Em comparação ao que era em 1979, a cobertura de gelo é apenas metade.

Mas ecologistas e pesquisadores alertam que não existe nenhuma garantia de que a migração e o degelo signifiquem que haverá uma bonança de peixes no médio prazo. Muito pelo contrário. Se num primeiro momento os mares do Norte poderão dar uma impressão de uma superpopulação de peixes, os estudos alertam que isso não será sustentável e que, em 50 anos, a região será o equivalente a um deserto marinho.

Um dos motivos seria o fato de que o mar na região Norte seria profundo demais (até 4 mil metros) para muitas das espécies que teriam de migrar. Outro obstáculo seria o grau de acidez nos mares, diante da absorção cada vez maior de CO2, segundo estudos feitos pelo United States Geological Survey na região do Alasca.

Ainda de acordo com um estudo da Universidade de Tromso, a produtividade de algas nos mares do Norte promete desabar até 2050, em mais um sinal de que a população de peixes também não durará.

A corrida ao Ártico, portanto, pode não ser tão promissora ao longo prazo como o setor pesqueiro da Islândia aposta. Mas enquanto não existe um novo acordo internacional estabelecendo fronteiras e limites para a gestão dos estoques marinhos, a tensão entre governos só tende a ganhar força.

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Audiência entre Metrô e funcionários termina sem acordo

Metroviários farão assembleia nesta quarta-feira, às 18h30, e devem decidir pela paralisação por tempo indeterminado

Caio do Valle, O Estado de S. Paulo

04 Junho 2014 | 14h10

Atualizado às 17h04.

SÃO PAULO - Terminou sem acordo na tarde desta quarta-feira, 4, a audiência de conciliação entre o Metrô e seus funcionários no Tribunal Regional do Trabalho (TRT). Com isso, os metroviários devem paralisar suas atividades a partir da madrugada desta quinta-feira, 5. A decisão será tomada em uma assembleia na sede do Sindicato dos Metroviários às 18h30. A uma semana do início da Copa do Mundo de futebol, os passageiros das Linhas 1-Azul, 2-Verde, 3-Vermelha e 5-Lilás podem ficar sem transporte por tempo indeterminado. Esses quatro ramais transportam cerca de 4,5 milhões de usuários por dia útil.

O Metrô aumentou sua proposta de reajuste salarial de 7,8% para 8,7%, mas o Sindicato dos Metroviários reforçou que só aceitará propostas na casa dos dois dígitos.

O presidente do Metrô, Luiz Antonio Carvalho Pacheco, descartou a possibilidade de catraca livre, hipótese aventada pelos trabalhadores para evitar transtornos à população. "Não vemos nenhum sentido nisso, porque é um prejuízo para toda a população, até mesmo para os metroviários. O Metrô tem uma única fonte de receita: a venda dos bilhetes. A perda de receita é um contrassenso se estamos negociando melhores condições de salário."

Entretanto, o próprio Pacheco admitiu que para a população a melhor saída seria a adoção da catraca livre. "Provavelmente, do ponto de vista da operação do dia a dia da cidade, a questão de você poder utilizar o metrô sempre é a melhor alternativa. Agora, o custo de se fazer isso é muito alto." De acordo com ele, o Metrô arrecada cerca de R$ 5 milhões por dia com a venda de passagens. Outra fonte de renda do Metrô é a publicidade nas estações e trens, não mencionada pelo presidente na entrevista.

Ainda segundo Pacheco, o Metrô tem feito "um esforço muito grande" nos últimos dois anos para tocar a operação do sistema, com processo de racionalização de custos e economia interna, já que houve congelamento do preço da tarifa em R$ 3. "Eu disse ontem (nesta terça-feira, 3) ao governador que com esse pacote de propostas (aos metroviários), o Metrô consegue cumprir e chegar até o fim do ano com a expectativa de uma questão tarifária para o ano que vem."

Mas o presidente do Sindicato dos Metroviários, Altino de Melo Prazeres Júnior contesta. "O balanço social do Metrô é altamente positivo. O problema é que se for verdade o que o presidente do Metrô está falando, ele está assinando embaixo que o metrô tem que ser superlotado e ficar no sufoco permanente para as próximas décadas (para arrecadar dinheiro). O metrô de Nova York, o de Paris e o de Londres são subsidiados, não ficam só na tarifa. Para haver mais metrô e menos lotação é preciso priorizar o transporte público. O problema é que o governo do Estado não põe a prioridade no transporte público."

Desde a última audiência, ocorrida há dois dias e que terminou sem acordo, os metroviários pedem aumento de 16,5% -- no início da campanha salarial, os trabalhadores solicitavam 35,47%. Esse é o mesmo patamar que o solicitado pelo sindicato dos engenheiros do Metrô, que também ameaçava parar.

Carvalho Pacheco afirmou que a empresa aumentou a proposta para o vale-alimentação e o vale-refeição acima da inflação. No caso do vale-refeição, o Metrô sugeriu a retirada da contribuição dos funcionários. "Só isso representaria, com os 8,7% que estamos dando (de reajuste salarial) mais de 10% de ganho para todos os funcionários."

Copa. O presidente da companhia também disse que vê "com muita preocupação" uma greve da categoria às vésperas da Copa. Ele ainda criticou o fato de alguns operadores de trens terem usado a comunicação sonora das composições para alertar a população sobre o risco de greve. "Não é uma uma atitude correta e, na nossa opinião, fere as condições de paz. Tivemos também que chamar a polícia porque a manifestação dos metroviários na Sé foi tumultuada." O dirigente afirmou que um plano de contingenciamento pode ser adotado em caso de greve, com alguns supervisores tentando operar parte das linhas, medida criticada pelo sindicato, que a acusa de ser arriscada.

Prazeres Júnior tem repetido em entrevistas que os trabalhadores não aceitarão propostas de reajuste de salário menores do que dois dígitos -- os motoristas e cobradores de ônibus da capital paulista, por exemplo, obtiveram aumento de 10% pelo segundo ano consecutivo.

Outro ponto central da reivindicação dos metroviários diz respeito ao plano de carreiras da categoria dentro do Metrô, que é controlado pelo governo do Estado.

O presidente do Metrô participou da mesa de negociações nesta quarta-feira, no TRT da Segunda Região, no centro. Com uma calculadora científica, Carvalho Pacheco fez contas ao lado dos advogados da empresa, diante de Prazeres Júnior e diversos outros membros do sindicato.

A desembargadora Ivani Contini Bramante mediava os esforços de conciliação entre as duas partes. Na última audiência, ela cobrou "empenho especial" ao secretário estadual dos Transportes Metropolitanos, Jurandir Fernandes, para evitar a greve. O dirigente compareceu ao TRT a convite da Justiça, mas pouco se manifestou durante a reunião na mesa de conciliação, diferentemente do comportamento de Carvalho Pacheco no derradeiro encontro entre ambos os lados antes da possível paralisação. O presidente do Metrô foi visto várias vezes ao celular, no tablet e fazendo uso de uma calculadora. Ele saiu algumas vezes da sala de audiência para falar ao telefone.

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