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Aquecimento global está levando os ursos polares à extinção, dizem pesquisadores

Quase todas as 19 subpopulações seriam eliminadas porque a perda de banquisa forçaria os animais a ficar em terra firme e a se afastar de suas fontes de alimentos por períodos mais longos

Henry Fountain, The New York Times

21 de julho de 2020 | 14h00

Os ursos polares podem se tornar quase extintos até o fim do século, como resultado do encolhimento da banquisa (água do mar congelada) no Ártico, caso o aquecimento global continue sem diminuir, disseram cientistas na segunda-feira, 20.

Quase todas as 19 subpopulações de ursos polares, desde o mar de Beaufort, no Alasca, até o Ártico da Sibéria, seriam eliminadas porque a perda de banquisa forçaria os animais a ficar em terra firme e a se afastar de suas fontes de alimentos por períodos mais longos, disseram os pesquisadores. O jejum prolongado e a amamentação reduzida dos filhotes pelas mães levariam a um rápido declínio na reprodução e sobrevivência.

"Há pouquíssima chance de os ursos polares persistirem em qualquer lugar do mundo, exceto, talvez, nas regiões mais altas do Ártico em uma pequena subpopulação" se as emissões de gases do efeito estufa continuarem nos chamados níveis padrão para os modelos de negócios [atuais], disse Peter K. Molnar , pesquisador da Universidade de Toronto Scarborough e principal autor do estudo, publicado segunda-feira na revista Nature Climate Change.

Mesmo que as emissões fossem reduzidas para níveis mais moderados, "infelizmente ainda perderemos alguns, especialmente algumas das populações mais ao sul, devido à perda de banquisa", disse Molnar.

O destino dos ursos polares tem sido um ponto de conflito no debate a respeito da mudança climática causada pelo homem, usado por cientistas e ambientalistas, assim como por pessoas que negam [a existência do efeito estufa] em seus argumentos.

Segundo estimativas aproximadas, existem cerca de 25 mil ursos polares no Ártico. Seu habitat principal é a banquisa, onde caçam focas, esperando que venham à superfície em buracos no gelo. Em algumas áreas, os ursos permanecem no gelo durante todo o ano, mas em outras o derretimento na primavera e no verão os obriga a ir para terra firme.

"Eles precisam da banquisa para capturar sua comida", disse Molnar. "Não há comida suficiente em terra para alimentar uma população de ursos polares". Mas os ursos podem jejuar por meses, sobrevivendo da energia da gordura que acumularam graças à dieta à base de focas.

A banquisa ártica desenvolve-se no inverno e derrete e retrai-se na primavera e no verão. Como a região aqueceu rapidamente nas últimas décadas, a extensão do gelo no verão diminuiu cerca de 13% por década, em comparação com a média de 1981-2010.

Algumas partes do Ártico que anteriormente tinham gelo o ano todo, agora têm períodos sem gelo no verão. Outras regiões estão agora sem gelo por um período mais longo do ano do que no passado.

Molnar e seus colegas analisaram 13 das subpopulações que representam cerca de 80% da população total de ursos. Eles calcularam a necessidade energética dos ursos para determinar quanto tempo eles poderiam sobreviver - ou, no caso das fêmeas, sobreviver e cuidar de seus filhotes - enquanto jejuavam.

Combinando isso com as projeções do modelo climático de dias sem gelo até 2100, se as atuais taxas de aquecimento [global] continuarem, eles determinaram que, para quase todos os subgrupos, o tempo que os animais seriam forçados a jejuar acabaria por exceder o tempo que são capazes de fazê-lo. Em resumo, os animais passariam fome. "Haverá um momento em que ficarão sem energia", disse Molnar.

Para agravar o problema, um tempo de jejum mais longo também significa um período de alimentação mais curto. "Não apenas os ursos precisam jejuar por mais tempo e de mais energia para passar por isso, como também têm mais dificuldade em acumular essa energia", disse ele.

Enquanto jejuam, os ursos se mexem o mínimo possível para economizar energia. Mas a perda de banquisa e a redução da população criam novos problemas - ter que gastar mais energia procurando um parceiro, por exemplo - que poderiam afetar ainda mais a sobrevivência.

Mesmo sob projeções de aquecimento [global] mais modestas, nas quais as emissões de gases de efeito estufa atingem o pico até 2040 e depois começam a diminuir, muitos dos subgrupos ainda seriam eliminados, mostrou a pesquisa.

Ao longo dos anos, os ursos polares se tornaram um símbolo tanto para aqueles que argumentam que é necessária uma ação urgente em relação ao aquecimento global, quanto para aqueles que afirmam que a mudança climática não está acontecendo ou, na melhor das hipóteses, que estão exagerando quanto à questão.

Grupos como o Instituto Cato, uma organização de pesquisa libertária que desafia aspectos da mudança climática, chamou as preocupações sobre os ursos de descabidas, argumentando que algumas pesquisas mostram que os animais sobreviveram a períodos quentes repetidos.

Mas os cientistas dizem que durante os períodos mais quentes os ursos provavelmente tinham fontes alternativas de alimentos, principalmente baleias, que não possuem atualmente.

Imagens pungentes de ursos em blocos de gelo isolados ou andando aleatoriamente em busca de alimentos têm sido usadas por grupos de conservação e outros para mostrar a necessidade de ações para reduzir o aquecimento [global]. Ocasionalmente, porém, essas imagens demonstraram não ser o que parecem.

Depois que um vídeo de um urso extremamente magro procurando alimento em latas de lixo no Ártico canadense foi publicado online pela National Geographic em 2017, a revista reconheceu que a condição do urso poderia não estar relacionada à mudança climática. Os cientistas disseram que não era possível saber o que havia de errado com o urso, poderia estar doente ou muito velho.

A nova pesquisa não inclui projeções nas quais as emissões [de gás] foram reduzidas drasticamente, disse Cecilia M. Blitz, cientista atmosférica da Universidade de Washington e um dos autores do estudo.

Os pesquisadores precisavam ser capazes de determinar, com a maior precisão possível, os períodos em que as banquisas desapareceriam de uma região específica. “Se quiséssemos analisar muitos modelos, não seríamos capazes de fazer isso”, Cecilia disse.

Andrew Derocher, pesquisador de ursos polares da Universidade de Alberta, que não participou do estudo, disse que as descobertas "são muito consistentes com o que estamos vendo", por exemplo, no monitoramento de animais em estado selvagem.

"O estudo mostra claramente que os ursos polares vão se sair melhor com menor aquecimento [global]", acrescentou. "Mas não importa para qual cenário você olhe, há sérias preocupações com a conservação das espécies."

Das 19 subpopulações, pouco se sabe sobre algumas delas, particularmente as do Ártico russo. Das subpopulações estudadas, algumas - geralmente aquelas em áreas com menos perda de gelo - mostraram pouco declínio populacional até o momento.

Mas outras, notadamente ao sul do mar de Beaufort, a nordeste do Alasca, e na baía de Hudson, no oeste do Canadá, foram severamente afetadas pela perda de banquisa. Uma análise constatou que a subpopulação ao sul do mar de Beaufort diminuiu 40%, para cerca de 900 ursos, na primeira década deste século.

Derocher disse que uma desvantagem de estudos como esses é que, embora eles possam mostrar as tendências de longo prazo, "fica muito difícil modelar o que está acontecendo a cada ano".

As populações de ursos polares podem ser muito suscetíveis a mudanças drásticas de um ano para outro, disse ele. "Um dos grandes desafios para a conservação é que um ou dois anos ruins podem afetar uma população que está saudável e levá-la a níveis realmente baixos." / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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