David Ljunggren / Reuters
David Ljunggren / Reuters

Aquecimento ameaça estradas de gelo

Mais de 5,3 mil quilômetros de rotas canadenses estão congelando mais tarde e derretendo mais cedo; economia local já está ameaçada

Dan Levin / THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

06 Maio 2017 | 21h38

Nas latitudes mais ao norte do Canadá, inverno significa liberdade. No frio, lagos e rios congelam e se transformam em estradas de gelo azul. Durante alguns meses, caminhões podem levar combustível, madeira, diamantes ou carcaças de alce para as minas e comunidades remotas da região, desligadas do resto do mundo pela água e as florestas, e alcançáveis durante a maior parte do ano apenas pelo ar. Porém, as estradas de gelo do Canadá – mais de 5,3 mil quilômetros no total – estão congelando mais tarde e derretendo mais cedo.

Mesmo durante o inverno, tempestades cada vez mais fortes e frequentes tornaram as estradas mais perigosas e, às vezes, fracas demais para que sejam utilizadas, levando as autoridades a interditá-las durante vários dias. “Está demorando mais tempo para tudo congelar e o gelo não está mais tão grosso. As estradas de gelo são fundamentais para nossas comunidades e agora estão em risco”, afirmou Wally Schumann, ministro de Infraestrutura dos Territórios do Noroeste.

As autoridades canadenses afirmam que o aquecimento global está causando uma série de problemas, do derretimento do gelo nos oceanos à diminuição do “permafrost” nos Territórios do Noroeste, e está aquecendo de quatro a cinco vezes mais rápido do que a média global. Schumann afirmou que o aquecimento global também é culpado pelos problemas nas estradas de gelo, que são reconstruídas todos os anos por equipes que utilizam escavadeiras pesadas, radares e jatos de água para acrescentar camadas de gelo liso capazes de suportar o peso de caminhões cheios de equipamentos de mineração.

As estradas deveriam durar de janeiro a abril, mas grande parte da rede deste ano já está inutilizável. A Estrada de Gelo de Dettah que cruza a Baía de Yellowknife, foi fechada no dia 7 de abril, cerca de duas semanas antes da média. À medida que essas estradas se tornaram menos confiáveis, a pressão cresce para que o Canadá se prepare para o futuro sem elas, construindo estradas que aguentem o ano todo – um trabalho caro e demorado, estimado em 370 mil dólares canadenses, ou cerca de US$ 280 mil por quilômetro, sem falar na manutenção. “Muitas pessoas dizem que nosso tempo acabou, que precisamos fazer isso agora”, afirmou Schumann.

Luzes. Para as pessoas no extremo norte que esperam ansiosamente pelo inverno para que as estradas de gelo deem acesso às comunidades isoladas, a crise está se tornando uma questão de vida ou morte. “Essas estradas são a única garantia de sobrevivência das pessoas”, afirmou Alvin Fiddler, grão-chefe da Nação Nishnawbe Aski, que representa 49 comunidades indígenas no norte de Ontário, incluindo 32 que ficam isoladas da rede elétrica e de rodovias do Canadá e dependem do sistema de estradas de inverno para estocar combustível, comida e materiais de construção.

Algumas dessas comunidades quase ficaram sem óleo diesel porque as estradas de gelo foram abertas semanas mais tarde, afirmou Fiddler. Cada comunidade precisa de 999 mil litros para manter as luzes acesas o ano todo – o suficiente para encher 40 caminhões-tanque. Levar esse combustível de avião custaria US$520 mil a mais, um valor proibitivo para um pequeno vilarejo.

Nas vastas florestas boreais e tundras dos Territórios do Noroeste, os governos federal e territoriais estão gastando cerca de US$225 milhões para construir uma estrada de 150 quilômetros que ficará aberta o ano todo, levando a um pequeno vilarejo inuit às margens do Oceano Ártico, substituindo uma estrada de gelo. Ela será inaugurada em novembro, e vários projetos similares estão em estágio de planejamento.

Contudo, dez comunidades remotas do território ainda dependem das estradas de inverno e das pontes de gelo para atravessar lagos, rios e o “permafrost”, um solo delicado que está congelado há milhares de anos. Para que essas vias permaneçam sólidas, é necessário realizar uma manutenção constante com a ajuda de equipes capazes de suportar horas de trabalho e encarar o clima ártico.

A rotina de quem trabalha abaixo de 0°C há 30 anos

Clint Westergard, de 59 anos, era um sortudo. Estava confortavelmente instalado na cabine de uma escavadora de neve equipada para ser usada em temperaturas abaixo de zero. Ele constrói estradas de neve há 30 anos, em um trabalho que leva ele e seus colegas para longe de casa, deixando-os por semanas em meio à natureza gelada. “Algumas pessoas não aguentam”, afirmou ao som das máquinas.

Em breve, eles não terão mais que fazer a estrada até Whati. As aberturas tardias e fechamentos antes da hora (a estrada foi interditada no dia 8 de abril) levaram o território a planejar uma estrada de cascalho duplicada com 93 quilômetros de extensão. “Mas agora quem sofre mesmo são as comunidades. Sem as estradas de gelo, como vão reformar casas e construir escolas?”, indaga.

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