Marcelo Naufal/ Divulgação
Marcelo Naufal/ Divulgação

Após ser dado como limpo, Rio Tietê volta a ter lama negra em Salto

Fenômeno aconteceu menos de duas semanas após ter sido anunciada uma redução de 8 quilômetros na mancha de poluição do rio

José Maria Tomazela , O Estado de S.Paulo

03 Outubro 2018 | 13h36
Atualizado 03 Outubro 2018 | 19h55

SOROCABA - Uma lama escura cobriu o leito do Rio Tietê, entre a tarde de terça, 2, e a manhã desta quarta-feira, 3, na região de Salto, interior de São Paulo. No início da tarde, a cor da água continuava acinzentada em Salto, mas a mancha atingia Barra Bonita, a 230 quilômetros. O fenômeno aconteceu menos de duas semanas após ter sido anunciada uma redução de 8 quilômetros na mancha de poluição do rio, justamente no trecho de Salto. "A gente celebrou esse recuo, mas agora estamos vendo um lamentável avanço na poluição", disse a ambientalista Malu Ribeiro, do projeto Observando os Rios, da Fundação SOS Mata Atlântica

Depois de ir à margem do Tietê, em Salto, e constatar o que chamou de "tragédia", ela acionou a Agência Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb). Conforme Malu, a provável causa da poluição foi a abertura das comportas de barragens na Região Metropolitana de São Paulo. "Com as chuvas de domingo na capital, as comportas foram abertas e toneladas de lixo e sedimentos que estavam acumulados junto às barragens foram mandadas para baixo. Essa descarga criou uma nata no rio que vai matando tudo."

Em 2014, uma operação semelhante nas barragens resultou na morte de 40 toneladas de peixe em Salto. Segundo Malu, isso só não aconteceu agora porque os afluentes do Tietê estão com o nível alto e os peixes se refugiaram neles. Ela disse que SOS cobra há anos que haja a retirada dessa sujeira dos reservatórios no período de seca, quando o nível está baixo. "Já são 25 anos de luta para despoluir o rio e, numa operação errada desta, todos os avanços se perdem. Vamos ter de fazer uma nova medição da mancha. Nesse momento, o rio aqui está morto", disse.

Em Barra Bonita, na manhã desta quarta, o ambientalista Hélio Palmezan, da ONG Mãe Natureza, registrou a chegada da mancha à orla turística da cidade, de onde saem os barcos para passeios no Rio Tietê. Ele percorreu de barco um trecho do rio, próximo à barragem, e encontrou peixes mortos. "A lama preta está fazendo o maior estrago. Só não é um desastre ambiental maior porque o rio está com nível alto."

A Cetesb informou ter enviado equipes para vistoriar trechos do rio próximo à região de Salto. Foram feitas coletas para análises e o resultado servirá para a adoção de medidas, segundo o órgão. 

A Empresa Metropolitana de Água e Energia (Emae), que opera três barragens de hidrelétricas entre a capital e Salto, informou em nota que mantém a operação das barragens de acordo com as regras operativas vigentes para o controle das vazões que afluem a essas estruturas. Informa também que, como concessionária de geração de energia elétrica, não é responsável pela qualidade e contaminantes das águas que chegam às instalações que opera, tendo os seus equipamentos e sistemas submetidos a essas águas e detritos, que causam severos problemas operacionais e elevação dos custos de manutenção e operação dos equipamentos.

"Somente para se ter uma ideia, apenas no período de janeiro a setembro de 2018, foram retirados pela empresa 1.164 toneladas (4.160 m3) de lixo e detritos das instalações (Rasgão, Porto Góes e Pirapora). A Emae reitera que sua atividade principal, a geração de energia por meio de fonte hidráulica, não é uma atividade poluidora”, diz a nota.

Em nota, o Departamento de Água e Energia Elétrica (DAEE) informou que, entre 2015 e 2018, removeu 3,8 milhões de m3 de sedimentos em um trecho de 110,2 km do Rio Tietê, por meio de desassoreamento, entre o córrego Ipiranga (Mogi das Cruzes) e o lago da barragem Edgard de Souza, em Carapicuíba. Esse trabalho evitou que um volume maior de material chegasse até Salto. Considerando-se apenas 2018, o volume retirado foi de 540 mil m3. 

“Com relação ao desassoreamento da barragem de Pirapora, o DAEE está desenvolvendo o levantamento topo-batimétrico do lago e a estimativa do volume e caracterização dos sedimentos depositados no fundo do reservatório. O estudo está em fase final e vai definir a viabilidade ambiental, técnica e econômica para possíveis ações futuras”, informou.

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