Análise: Desistência de sediar a COP é sinal muito negativo e indica retrocessos no Brasil

Secretário do Observatório do Clima acredita que decisão de Bolsonaro de retirar candidatura para sediar a conferência representa riscos à política ambiental brasileira

Carlos Rittl*, O Estado de S.Paulo

29 Novembro 2018 | 03h00

A COP é a mais importante conferência de clima do mundo. Essas conferências tratam da convenção de clima das Nações Unidas, que nasceu no Brasil em 1992, na Rio 92. Lá, os países decidiram que iriam trabalhar para evitar que as ações humanas interferissem no clima de uma maneira que as consequências se tornassem perigosas para a economia, para o meio ambiente e para as pessoas. Essa conferência do próximo ano tem a responsabilidade de dar continuidade ao processo de implementação do Acordo de Paris, acordo global sobre mudanças climáticas fechado em 2015 na França.

É uma conferência em que diplomatas de 196 países se reúnem para discutir o avanço da implementação, quais são as medidas necessárias para limitar o aquecimento global bem abaixo dos 2ºC, e se possível a 1,5ºC, aos níveis pré-revolução industrial. Esse é o objetivo geral do Acordo de Paris.

Nas conferências se discute, então, quais são os compromissos dos países na redução das suas emissões, quanto de financiamento climático vai ser disponibilizado para apoiar países em desenvolvimento, especialmente os mais pobres, a se desenvolverem sem depender do aumento das suas emissões, e também apoiar esses países a lidar com os efeitos das mudanças climáticas que já estão presentes no nosso cotidiano.

O país que sedia a conferência precisa contribuir para que o diálogo entre todas as nações seja positivo de forma a avançar na implementação das medidas. O país tem que demonstrar que está fazendo a sua parte, direcionando suas políticas públicas para a redução das emissões, que no caso do Brasil seria combater o desmatamento, investir na agricultura e pecuária sustentáveis e nas energias renováveis, seja etanol, energia solar ou eólica. É uma conferência que traz muita visibilidade para o país e permite demonstrar que seus setores econômicos estão se ajustando, produzindo de forma cada vez mais limpa e com menos emissões.

No caso do Brasil, essa é talvez a única agenda, de clima e ambiental, onde ele é protagonista no cenário mundial. O Brasil não tem uma parcela muito grande do comércio internacional, não é um país que tenha muito peso nas discussões sobre segurança internacional. Na agenda de clima e meio ambiente, o Brasil é protagonista e é líder.

Ao abrir mão de realizar conferência como essa, dá um sinal muito negativo para a comunidade internacional. Diz, por um lado, que não faz questão desse protagonismo, e por outro, que pode vir a tomar uma série de medidas domésticas no sentido de estabelecer retrocessos, permitindo aumento no desmatamento, permitir que a expansão agropecuária aconteça de qualquer forma, sem critérios de sustentabilidade, e priorizando combustíveis fosséis, como petróleo, carvão e gás natural.

*É secretário executivo do Observatório do Clima

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