ANÁLISE-China fica satisfeita com acordo sobre o clima

A China demonstrou sua crescente influência política ao firmar um acordo sobre o clima que protege sua soberania nacional, mas pouco contribui para a questão do aquecimento global ou para a imagem internacional do país.

EMMA GRAHAM-HARRISON, REUTERS

19 Dezembro 2009 | 10h52

A cúpula sobre o clima em Copenhague, aguardada ansiosamente, quase fracassou na sexta-feira, num momento em que a maioria das grandes nações desenvolvidas acusavam a China por sua intransigência na questão de como seriam monitorados seus compromissos de redução de emissões.

A recusa do governo chinês de atender às exigências das nações ricas por maior transparência e checagens--em um país conhecido por não possuir estatísticas confiáveis--foi citada por um após outro negociador como um fator-chave que bloqueava o entendimento para um acordo.

As nações ricas dizem que esforços como a melhoria dos padrões dos carros, construção de turbinas eólicas e fechamento de indústrias energéticas poluidoras deveriam ser submetidas à verificação internacional para garantir que a China, maior emissor mundial de gases do efeito estufa, esteja de fato cortando o total que produz.

A China diz que isso viola sua soberania e contraria normas da ONU que tratam países pobres e ricos de modo diferente.

SALVAR DO NAUFRÁGIO

No final, o primeiro-ministro Wen Jiabao foi decisivo na cúpula para salvar alguma coisa do naufrágio, ao promover um encontro que rompeu o impasse, do qual tomaram parte o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, e líderes da Índia, Brasil e África do Sul, importantes economias emergentes.

Ainda assim, ao fazer isso, a China irritou aliados, abandonou princípios que fez questão de manter em duas semanas de conversações e pôs em risco o país, que pode ser a terceira maior economia do mundo, mas tem bolsões de grave pobreza e é muito vulnerável ao clima em fase de mudanças.

A China partiu "feliz", disse aos jornalistas o negociador-chefe Xie Zhenhua perto da meia-noite de sexta-feira, antes de deixar o edifício cercado por muitos de sua equipe, visivelmente contentes.

"Depois das negociações os dois lados conseguiram preservar seus pontos-limite; para os chineses, esses pontos eram a soberania e nosso interesse nacional", disse ele.

Nem todos concordaram com essa visão. O Acordo de Copenhague deixa de fora muitas das metas da China prévias à conferência, adia duras decisões para 2010 e coloca o planeta no caminho de não acertar o alvo na limitação do aquecimento.

Os países africanos e as pequenas ilhas-Estado, deixados de lado depois do encontro noturno que resultou numa saída, se sentiram abandonados por seu aliado para enfrentar as devastadoras consequências das mudanças climáticas.

"Isto representa o pior desdobramento da história em negociações sobre a mudança do clima", disse Lumumba Stanislaus Di-aping, porta-voz do 'Grupo dos 77 e China'.

EUROPEUS DE FORA

Os europeus também foram deixados de fora do encontro crucial, depois de anos de liderança nos esforços na questão climática.

Politicamente, o acerto foi um lembrete sobre a força chinesa e a crescente importância do relacionamento não oficial do "G2, entre Estados Unidos e China, mas é provável que alimente o sentimento anti-China em nações ocidentais.

Oficialmente, o governo chinês teve o apoio de aliados como Índia e Brasil, mas eles admitiram, em particular, que isso foi principalmente uma batalha para a China, o maior emissor mundial.

Mesmo o Brasil, que reinvindicou um papel no entendimento para o acordo final, descreveu o resultado como "desapontador."

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