Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Amazônia tem junho com maior nº de focos de incêndio desde 2007

Dados são do monitoramento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), ligado ao Ministério da Ciência; gestão Bolsonaro tem sido alvo de crítica nos últimos anos por alta de desmate e queimadas

Mariana Hallal, O Estado de S.Paulo

01 de julho de 2021 | 11h44
Atualizado 01 de julho de 2021 | 18h45

A Amazônia registrou 2.308 focos de incêndio em junho, maior número para o mês desde 2007. Os dados são do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), órgão ligado ao Ministério da Ciência e Tecnologia. Desde 2019, a gestão Jair Bolsonaro tem sido alvo de críticas no Brasil e no exterior diante da explosão de queimadas e do desmatamento na região. Para combater crimes ambientais, o governo tem apostado em operações militares, mas os registros de perda vegetal continuam altos. 

A maior parte das queimadas (66,5%) foi em Mato Grosso, seguido por Pará (18,4%) e Rondônia (5,7%). As terras indígenas da região, que são áreas protegidas, tiveram 11o ocorrências de incêndio. Um terço desses focos foi registrado no Parque do Xingu (MT). Entre as áreas de conservação federais, houve 30 focos de fogo. A região mais afetada foi a Parna dos Campos Amazônicos (13). Houve 29 registros em unidades de conservação estaduais, principalmente na Área de Preservação Ambiental da Chapada Maranhense (13).

Márcio Astrini, secretário executivo do Observatório do Clima, diz que a alta de incêndios está ligada, principalmente, a três fatores. O primeiro é o tempo seco que começa a predominar na região e dura até setembro. Há também troncos de árvores caídos no chão, como consequência do desmate, que servem de combustível para o fogo. O terceiro elemento é o próprio fogo, que não costuma surgir espontaneamente neste bioma. “Quem risca o fósforo está confortável porque está protegido pelo presidente. O governo Bolsonaro abriu mão de controlar as queimadas na Amazônia."

Astrini critica o enfraquecimento institucional de órgãos ambientais, como Ibama e Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), que ainda sofrem com déficit de servidores e de verba. “Ser fiscal do Ibama é profissão de risco. Corre o risco de ser intimidado no campo pelos criminosos ou de receber processo administrativo. Já o madeireiro ou grileiro ilegal está tranquilo porque não há ninguém fiscalizando”, diz.

Na terça-feira, 29, Bolsonaro editou decreto que proíbe queimadas para práticas agropastoris em todo o País por 120 dias.  No dia anterior, ele havia autorizado nova atuação de militares na Amazônia, com prazo até o fim de agosto. A medida, no modelo de Garantia da Lei e da Ordem (GLO), vale para terras indígenas, unidades federais de conservação ambiental, em áreas de propriedade ou sob posse da União, e, se pedido pelos governadores, em outras áreas dos Estados do Amazonas, Mato Grosso, Pará e Rondônia. Especialistas fazem ressalvas sobre o uso das tropas na região, uma vez que eles não têm a mesma expertise que os agentes ambientais no combate ao desmatamento e às queimadas.

Ainda segundo especialistas, a crise hídrica que o País enfrente - e que ameaça um novo problema de abastecimento de energia - pode ter origem no alto índice de desmate da Amazônia. “Metade da chuva do Centro-Oeste, Sul e Sudeste é gerada pela transpiração da floresta. Quando há desmatamento e queimadas, os mecanismos de controle do clima do País são alterados”, explica Astrini.

Operação das Forças Armadas vai realizar ações preventivas e repressivas, diz ministério

O Ministério da Defesa disse que as Forças Armadas irão realizar ações preventivas e repressivas contra delitos ambientais, "em especial o desmatamento ilegal, em terras indígenas, em unidades federais de conservação ambiental e em áreas sob posse ou propriedade da União nos municípios dos Estados do Amazonas, Mato Grosso, Pará e Rondônia". "Cabe ressaltar que outras áreas desses municípios podem ser abrangidas, mediante aprovação de requerimento do Chefe do Poder Executivo daquele Estado."

A pasta federal informou que teve início na segunda-feira, 28, a Operação Samaúma, com emprego da Marinha, Exército e Aeronáutica. "As Forças Armadas atuarão de modo coordenado com o Conselho Nacional da Amazônia Legal (CNAL), buscando a articulação com os órgãos e entidades de proteção ambiental e os órgãos de segurança pública."

A operação terá apoio do Grupo Integrado para a Proteção da Amazônia (Gipam), que conta com integrantes do Ibama, ICMBio e Inpe, entre outros órgãos federais. "Este Grupo, por meio de metodologia científica própria de sensoriamento remoto de satélites, radares e aerolevantamento, apoiará na seleção de áreas prioritárias para a atuação das Forças Armadas e demais órgãos envolvidos no combate ao desmatamento."

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