Amazônia pode virar savana a partir de 2050, dizem especialistas

O debate ambiental no país ainda está longe da efetividade que poderá salvar a Amazônia

EDUARDO SIMÕES, REUTERS

04 Agosto 2008 | 18h04

O Brasil se vê na responsabilidade decuidar mais do meio ambiente do que os seus vizinhos,principalmente pelo fato de hospedar em seu território a partemais expressiva da maior floresta tropical do mundo. O debate ambiental no país ainda está longe da efetividadeque poderá salvar a Amazônia e, por tabela, ajudar a manter oaquecimento global sob controle. Mesmo assim, o manejo dafloresta não escapa de perspectivas sombrias. "Nós estimamos que, com o andar da carruagem do aquecimentoe do desmatamento, já em 2050 nós teríamos os sinais claros desavanização (da Amazônia)", disse o especialista em mudançasclimáticas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe)Carlos Nobre. "Em 2100, a grande região centro-leste (da Amazônia) jáestaria savanizada", acrescentou. O pesquisador tem como base os dados preliminares de umestudo recém-concluído pelo Inpe, que aponta que, caso o índicetotal de desmatamento da Amazônia supere os 40 por cento, ou astemperaturas da região subam entre 3,5 e 4 graus Celsius, seriadeflagrado um processo de savanização da floresta. Nobre lembra que os incêndios florestais também colaborampara a savanização. Uma transformação da Amazônia em savana traria comoconsequência, além da perda de biodiversidade, a possibilidadede mudanças no clima de outras regiões, especialmente o sul doBrasil e o norte da Argentina, segundo Nobre. "(Com a savanização) você teria uma grande redução nadistribuição de chuvas que a Amazônia faz para várias regiõesda América do Sul", comentou o coordenador do Programa deMudanças Climáticas do Instituto de Pesquisa Ambiental daAmazônia (Ipam), Paulo Moutinho, que vê também consequênciasnegativas para o agronegócio e para o potencial hidrelétrico daregião. DESMATE ZERO O desmatamento é o carro-chefe das emissões brasileiras dosgases do efeito estufa. De acordo com alguns especialistas, oBrasil cairia da 4a para a 18a posição entre os maioresemissores caso a destruição da floresta fosse tirada da conta. A Amazônia, apontada por especialistas como importantearmazém de carbono, teve desmatados 7.823 quilômetros quadradosde sua área entre agosto de 2007 e junho deste ano, um salto secomparado aos 3.949 quilômetros quadrados perdidos no mesmoperíodo do ano anterior, segundo dados do Inpe. Os estudiososconsideram os 12 meses entre agosto e julho como o calendárioanual para a medição do desmatamento. "Efetivamente, a coisa mais rápida (a se fazer para evitaresse cenário) é parar o desmatamento", defendeu Moutinho. O Brasil criou, na semana passada, o Fundo da Amazônia, queprevê investimentos em atividades para preservar e monitorar aregião amazônica brasileira. Está previsto ainda que até 20 porcento dos recursos arrecadados para o fundo sejam destinados aoutros países com floresta tropical. A meta de desmatamento zero, no entanto, é vista comoirrealizável por especialistas como o professor JoséGoldemberg, da Universidade de São Paulo (USP). "Seria preciso um conjunto de políticas públicas queclaramente o governo, não só esse governo, o governo anterior,seria incapaz de tomar", disse. Ele aponta, no entanto, algumas medidas como aregularização da situação fundiária na região e um melhorcontrole das unidades de conservação, que contam com númeroinsuficiente de fiscais. "Para isso você precisa aumentar o orçamento do Ministériodo Meio Ambiente, do Ibama e do Instituto Chico Mendes",explicou Rachel Biderman, pesquisadora do Centro de Estudos emSustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas, que elogia medidascomo o fim de concessão de crédito a atividades que provocam odesmatamento. "Não havendo financiamento de ilegalidades na Amazônia,você já segura boa parte do problema", explicou. Outra medida defendida por muitos especialistas, e queatualmente é alvo de negociações em fóruns internacionais, é acriação de um mecanismo global de mercado que transforme odesmatamento evitado em créditos de carbono. Esses créditos podem ser vendidos pelos países que evitamao desmate a outras nações que não conseguirem cumprir suasmetas de redução de emissões. "Sem esse mecanismo, vai ser muito difícil a genteconseguir evitar processos de mudanças drásticas na vegetaçãoamazônica", disse Moutinho, do Ipam.

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