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Amazônia no G-7

Poderemos ver debates sobre a soberania brasileira em relação ao seu tesouro fabuloso

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

24 de agosto de 2019 | 03h00

Terá início hoje a reunião do G-7 em Biarritz. A bela e elegante cidade balneária do País Basco francês, fundada pela mulher de Napoleão III, já está cercada por 13 mil policiais, alguns aviões, drones e pequenos canhões nas colinas, e as estradas foram fechadas.

Biarritz é uma cidade expulsa de si mesma, prisioneira e refém. Tudo está pronto: os oradores brilhantes e bem educados dos sete países - os mais democráticos do mundo - constituem o primeiro bloco: eles poderão debater e, num piscar de olhos, resolver o tema que Macron delicadamente escolheu para este conclave: as desigualdades. Boa ideia!

Mas um grão de areia se infiltrou nessa máquina bem azeitada. E esse grão de areia na verdade é um céu, o céu de São Paulo, cinzento e sinistro, é o que dizem, além do odor. Os correspondentes internacionais, tão pouco prolixos sobre o que se passa entre Porto Alegre e Manaus, se descontrolam. E extraíram dos seus dicionários todas as palavras que podem nutrir a descrição de um apocalipse. E nos dizem que a própria garoa é negra. Decidir se essa literatura é justificada, eu não conseguiria. Posso só repercutir o que foi falado de Londres a Berlim, de Paris a Marselha.

Por todo lado, as pessoas se agrupam, com cartazes pouco amáveis sobre Bolsonaro, aflitas pelo Brasil, algumas clamando pelo futuro, a sobrevivência da humanidade.

As conversas dos apresentadores com seus ouvintes nas rádios em geral ocorrem pela manhã, às 13 horas e às 20 horas. Naquela manhã não havia outro assunto: apenas o Brasil, os rios arruinados e o ar fétido. Viajantes e cientistas descrevendo uma floresta devastada, solos calcinados, informando o público que a floresta agora é engolida pelos bovinos, que vão invadir a Europa se ela assinar o tratado com o Mercosul, e pela soja, que, como uma planta invasiva transformou as paisagens tão belas, comoventes, da Amazônia, mas também do sertão, numa enorme e desalentadora planície de soja.

Macron não aguardou o início do G-7 para se apoderar do assunto e lhe dar uma conotação política. E falou do seu pavor. A resposta fulgurante de Bolsonaro está em todo o lugar. Tomamos conhecimento, assim, que Macron é um “colonialista” que faz “sensacionalismo”, e também da literatura, com a frase tão bela pronunciada pelo ex-presidente Jacques Chirac há 20 anos e que se tornou cult: “Nossa casa está queimando e nós olhamos longe”.

Fomos informados que os incêndios, voluntários, foram provocados por ONGs cujas finanças estão a zero.

O ataque indignado de Bolsonaro nega igualmente a um estrangeiro o direito de colocar seu nariz nos assuntos internos de um Estado soberano. Quanto a isso, Macron não respondeu.

Ele se inclinou à reprimenda de Bolsonaro? Ou entende que a situação é de uma tal gravidade que os tratados internacionais, até o direito internacional, foram calcinados pelos incêndios e reduzidos a cinzas, como um simples monte de palha?

Ninguém duvida que nos próximos dias, talvez mesmo nas reuniões do G-7, assistiremos a disputas entre juristas brasileiros, juristas da Alemanha e de Mônaco, da China e da África, para determinar se um tesouro tão fabuloso como essa floresta, cujos efeitos se fazem sentir bem além das fronteiras do Brasil, depende apenas da soberania brasileira ou se o resto da humanidade tem o direito de ter a palavra. Terrível interrogação. Sentimos falta às vezes da Idade Média e da Renascença quando o papa decretava soberanamente a partir de que paralelos as terras novas descobertas pertenciam a Portugal ou à Espanha. Mas será que a palavra do papa Francisco poderia “servir como uma solução?”.

No aguardo da solução deste curioso problema, teremos o direito, nos próximos dias, a artigos eruditos assinados pelos maiores pesquisadores, na maioria consternados.

Hoje, entre as dezenas de documentos publicados, lemos o da diretora de pesquisa do Institut de Recherche pour le Développement: “o ponto crítico do desmatamento já foi atingido na Amazônia”. Catherine Aubertin assegura que esses incêndios atuais podem exacerbar permanentemente o aquecimento do clima. Sem dúvida esse é o início de uma enorme literatura “climatológica”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*É CORRESPONDENTE EM PARIS

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