REUTERS/Ricardo Moraes
REUTERS/Ricardo Moraes

Amazônia fica menos resiliente e mais perto de ponto de não retorno, diz estudo

Bioma está perdendo a capacidade de retornar a um estado saudável após choques, como secas e incêndios; pesquisadores analisaram dados de satélite de 20 anos

Redação, O Estado de S.Paulo

07 de março de 2022 | 23h51

A Floresta Amazônica tem apresentado uma recuperação mais lenta de longos períodos de estiagem nas últimas duas décadas, danificando seu ecossistema e chegando mais perto de um possível “ponto de inflexão”, disseram pesquisadores nesta segunda-feira, 7. Um estudo publicado na revista Nature Climate Change mostrou que mais de 75% da floresta vem perdendo a capacidade de retornar a um estado saudável após choques, como secas e incêndios.

“Áreas (florestais) mais próximas do uso humano da terra, como as urbanas e as terras agrícolas, tendem a perder resiliência mais rapidamente”, disse Chris Boulton, um dos autores do relatório, do Instituto de Sistemas Globais da Universidade de Exeter, no Reino Unido. Áreas mais secas que recebem menos chuvas também foram particularmente atingidas, disse, durante um evento online.

Conter o crescente desmatamento na Amazônia é vital para evitar impactos descontrolados das mudanças climáticas. Isso por causa da grande quantidade de dióxido de carbono que as árvores da floresta podem absorver.

Os pesquisadores analisaram dados de satélite que estimam a quantidade total de biomassa (árvores e outras plantas) em uma determinada área, bem como o teor de água das árvores e a “aparência verde” da vegetação. Esses são indicadores da saúde e resiliência de uma floresta.

Eles também examinaram as alterações mensais à medida que a floresta respondia ao flutuamento das condições climáticas durante 20 anos. Período de tempo longo o suficiente para observar mudanças na resiliência, afirmou Boulton.

A resiliência do ecossistema amazônico caiu, particularmente, durante as grandes secas de 2005 e de 2010. No entanto, o declínio foi contínuo e se estendeu do início dos anos 2000 até 2016 - quando os dados mais recentes foram coletados.

Cientistas dizem que as estações secas na bacia amazônica se tornaram mais longas e as estiagens se tornaram mais comuns e severas à medida que as mudanças climáticas se intensificaram. "Como resultado, esperamos que a floresta se recupere mais lentamente de uma seca agora, do que há 20 anos", disse Boulton.

‘Ponto de inflexão’ está mais próximo?

Quanto mais da floresta é derrubado ou queimado, a Amazônia se torna menos resiliente e pode chegar a um ponto de inflexão no qual partes significativas da cobertura florestal serão perdidas, tornando-se savanas abertas ou florestas mais curtas e secas, alertam os cientistas. Isso desencadearia a “morte” da Amazônia como floresta tropical, reforçaram, com consequências devastadoras para a biodiversidade e as mudanças climáticas.

Não está claro quando esse ponto de inflexão vai ser alcançado ou quanto tempo levará para a floresta mudar para savana quando ele for ultrapassado, disseram os autores do relatório. Porém, declararam que as áreas mais secas da floresta, onde a maior parte da resiliência foi perdida, vão experienciá-lo mais cedo.

Os dados de satélite coletados “significam que provavelmente nos aproximamos desse ponto de inflexão, (mas) também sugerem que ainda não cruzamos esse ponto, então há esperança”, disse outro autor do relatório, Niklas Boars.

Ecologista tropical, Daniel Nepstad, que não esteve envolvido no estudo, disse que algumas partes da floresta tropical já se transformaram em matagal, mostrando "vislumbres de como são os pontos de inflexão regionais, especialmente no sudeste da Amazônia". "Não vejo que a floresta vá (de repente) virar uma savana", disse Nepstad, que dirige o Earth Innovation Institute, com sede nos EUA. "Será um longo processo", explicou./Com informações de Reuters eThe New York Times

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