Álcool ainda é o menos ruim, dizem debatedores na TV Estadão

Ranking de poluição divulgado pelo governo na terça, a Nota Verde, não levaria em conta dados importantes

Carlos Orsi, do estadao.com.br,

18 Setembro 2009 | 15h18

Absolutamente equivocado. Visão parcial de um problema muito amplo. Problemático. Essas foram as classificações dadas por especialistas que discutiram, em debate promovido pela TV Estadão e mediado pela jornalista Afra Balazina, do Estado, o ranking de poluição de veículos - a chamada Nota Verde - divulgado nesta semana pelo governo e que, surpreendentemente, colocou veículos a gasolina como menos prejudiciais que os movidos a álcool.

 

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O consultor de emissões e tecnologia da União da Indústria de cana-de-açúcar (Unica), Alfred Szwarc, atacou duramente a divulgação do ranking, dizendo que ele compara "bananas com maçãs" ao tratar veículos com diferentes motores da mesma forma e não levar em conta, por exemplo, o ciclo completo do dióxido de carbono na produção e queima do álcool - já que o gás, principal causador do efeito estufa, é emitido pelo veículo mas retirado da atmosfera pelas plantações de cana.

 

A lista divulgada pelo governo não integra as emissões de CO2 à Nota Verde, mas fornece o dado num ranking à parte.

 

O professor-doutor da USP e conselheiro do Instituto da Qualidade Automotiva e da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva, Francisco Nigro, concordou que o ranking mostra apenas "um pedacinho" da questão da poluição ambiental, que é mais ampla.

 

Nigro, Szwarc e Ferreira participam de debate sobre combustível na TV Estadão. Keiny Andrade/AE

 

Entre os problemas do ranking, Nigro destaca o fato de que os dados usados vêm apenas de veículos novos e não levam em conta, por exemplo, o desgaste ao longo do tempo dos catalisadores dos carros movidos a gasolina. "Temos um problema muito complexo e tínhamos apenas uma parte dos dados, que divulgamos", disse ele.

 

Ele advertiu, no entanto, que se na época dos carros movidos exclusivamente a álcool, nos anos 70 e 80, a vantagem ambiental do combustível de origem vegetal era enorme, hoje a margem em relação à gasolina realmente diminuiu, por conta dos avanços tecnológicos. "O álcool ainda é melhor que a gasolina no efeito no meio ambiente e na saúde humana. Mas pode vir a ficar pior se não houver muito trabalho".

 

O professor da USP cobrou do governo e das empresas mais pesquisa básica no aperfeiçoamento do motor a álcool.

 

Página virada

 

O terceiro debatedor, o diretor do  Instituto de Energia e Meio Ambiente (Iema) e professor de pós-graduação da Unicamp André Ferreira, disse que a questão entre álcool e gasolina deveria ser uma "página virada". O Iema fez um ranking de poluição de veículos a pedido do Estado, com dados da Cetesb, no qual os carros flex, abastecidos com gasolina, aparecem como menos poluidores.

 

"Ninguém acha que a humanidade tenha um futuro baseado em combustíveis fósseis", disse ele, que também classificou de" insanos" os padrões atuais de transporte nos grandes centros urbanos. Se esses padrões não mudarem, "o carro pode ser a gasolina, álcool ou hidrogênio, o congestionamento continuará o mesmo", disse.

 

Discordando de Szwarc, que condenou de modo veemente a divulgação do ranking, Ferreira afirmou que a iniciativa foi positiva porque chamou a atenção para o fato de que "não existe combustível limpo". "Com esse empurrão (dado pela polêmica causada pelo ranking), o álcool poderá se tornar ainda mais sustentável", acredita.

 

"A Unica é a favor de um ranking", contrapôs Szwarc. "Mas ele deve ser feito de forma adequada e responsável".

 

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