Água do Amazonas se mistura com o mar e chega ao sul da Flórida

Caminho até farol da última ilha banhada pelo rio é infestado de aranhas e lagartos

Leonencio Nossa, O Estado de S. Paulo

21 de março de 2011 | 23h59

Depois de uma breve parada no povoado de Macedônia, o Seculus segue para a ilha do Parazinho, que tem um farol. Lá, segundo moradores, o Amazonas termina. Falam em 15 minutos até o local exato do farol. Mas só depois de duas horas de navegação, enfrentando marolas, é possível avistar a ilha. A ideia do piloto era desembarcar em frente da casa do faroleiro, mas a maré está baixa. Ele segue, então, até uma ponta da ilha. O trecho até o farol terá de ser percorrido a pé.

 

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É preciso tirar os calçados e caminhar com água nos joelhos até uma praia. A areia está tomada de mururés, planta que flutua no rio, com flores roxas. Distante da margem, um petroleiro solta uma fumaça negra, que contrasta com a brancura do cenário. Lá, a água ainda é apenas salobra. Numa ilhota próxima, os arbustos parecem estar mais escuros. Bate um vento, e tudo se move. São gaivotas, milhares delas.

 

Para chegar até o farol é preciso percorrer um riacho estreito e raso, de 4 metros de largura. Cardumes de um peixe fino e transparente com olhos para fora da água nadam rente à superfície. São tralhotos, espécie com a retina bipartida, que, segundo alguns, enxerga debaixo e por cima da água ao mesmo tempo, sempre atenta a predadores. “O tralhoto gosta desse tipo de água, quentinha e um pouco salobra”, diz o barqueiro Jeová.

 

O barulho que vem das margens, semelhante a de uma pessoa correndo atabalhoada pela vegetação rasteira, é de lagartos. A lama cobre as canelas. Temos de andar agachados, quase rastejando, por entre cipós e aturiás com espinhos. Aranhas e caranguejos estão por toda a parte.

 

A 50 metros, está o farol da ilha, infestado de cabas, abelha ferroenta que causa intensas dores no corpo e gosta de picar olhos. Do alto se avista o rio se aproximando do mar. O rio descendo, o mar esperando. O mar subindo, o rio aceitando.

 

Em imagens de satélite é possível ver o ponto exato em que as águas barrentas do rio perdem espaço definitivamente para o mar. Calcula-se que 3 milhões de toneladas de sedimentos são lançadas no mar pelo Amazonas todo dia; num mês é como jogar um Pão de Açúcar nas águas salgadas. Elas servem de adubo para plantios de arroz nas Guianas, a quase 2 mil quilômetros dali. As águas do rio passam pelo Caribe, chegam ao sul da Flórida. O Amazonas lança 214 milhões de litros no mar por segundo. Duas horas desse fluxo seriam suficientes para abastecer São Paulo ou Nova York por um ano.

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