Agronegócio pode crescer (e muito) sem desmatar
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Agronegócio pode crescer (e muito) sem desmatar

A equação se torna possível com o aumento da produtividade por hectare e a recuperação de áreas degradadas

Estadão Blue Studio, O Estado de S.Paulo

15 de junho de 2022 | 06h00

O Brasil é o quarto maior produtor de grãos do planeta e segundo maior exportador. Sua produção total de alimentos supre as necessidades de 800 milhões de pessoas no mundo, quase quatro vezes a população brasileira. Nos últimos dez anos, a participação do País no mercado mundial de alimentos saltou de US$ 20,6 bilhões para US$ 100 bilhões, segundo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). 

A necessidade cada vez maior do aumento da produção do agronegócio brasileiro leva a um aparente conflito. Até que ponto será preciso destruir florestas para plantar grãos ou criar gado? Biomas como a Amazônia e o Cerrado, as pesquisas científicas atestam, valem mais em pé, no âmbito dos conceitos modernos da bioeconomia. 

A mesma ciência também reitera outro fator importante. É perfeitamente possível ampliar a produção nas áreas já abertas para a agricultura e pecuária sem a necessidade de aumentar ainda mais a destruição das matas.

“O Brasil tem todas as condições de continuar sendo uma das locomotivas alimentares do planeta sem desmatar mais um metro quadrado sequer”, diz o mexicano Rafael Zavala, representante no País da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). “Esse é o grande desafio brasileiro, porque, diferentemente de outras locomotivas alimentares, como Estados Unidos, Canadá e Argentina, a locomotiva brasileira fica muito próxima do coração da biodiversidade planetária.”

Há um grande potencial de melhoria da produtividade média por hectare, por meio de novas técnicas de manejo, tecnologias mais eficientes e melhoramentos genéticos, entre outros recursos. Um exemplo está na soja. Enquanto a produtividade média nacional é de 56 sacas por hectare, uma família paranaense de produtores, os Milla, chegou à marca recorde de 129 sacas por hectare, tornando-se vencedora da edição mais recente do Desafio da Máxima Produtividade de Soja, promovido pelo Comitê Estratégico Soja Brasil (Cesb). A receita é a combinação de cinco décadas de manejo sustentável da terra com a adoção das tecnologias mais avançadas disponíveis para essa cultura.

Além do aumento em potencial da produtividade, o Brasil tem 98 milhões de hectares de pastagens degradadas – uma área que, equivalente à soma dos territórios de Portugal, Espanha e Alemanha, pode ser recuperada para aumentar a produtividade da pecuária ou então ser convertida em arranjos de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF). Esse método prevê o uso de diferentes sistemas produtivos dentro de uma mesma área, de maneira consorciada, em sucessão ou rotação, de tal forma que todas as atividades são beneficiadas. 

Os grandes players do agronegócio nacional estão convencidos de que crescer sem desmatar é um caminho obrigatório, considerando-se as crescentes exigências dos mercados internacionais para as garantias de procedência dos produtos. A JBS, uma das maiores produtoras de alimentos do mundo, estabeleceu o compromisso de ser neutra em carbono até 2040 e uma das metas previstas para alcançar esse objetivo é tornar a cadeia de fornecedores de bovinos livre de desmatamento ilegal na Amazônia e nos demais biomas brasileiros até 2025.

A empresa monitora há mais de dez anos quase 80 mil fazendas fornecedoras de gado no Brasil para prevenir não apenas desmatamento ilegal, mas outras práticas, como uso de trabalho escravo, invasão de terras indígenas ou unidades de conservação ambiental. O monitoramento é georreferenciado por imagens via satélite para cobrir uma área de 85 milhões de hectares. Mais de 11 mil fazendas deixaram de ser fornecedoras da empresa por descumprimento das exigências.

Numa cadeia extremamente pulverizada, no entanto, a grande dificuldade está no controle dos fornecedores dos fornecedores, já que os produtores do setor costumam se especializar em um determinado período da vida dos animais – há aqueles que fornecem os bezerros, aqueles responsáveis por engordá-los até um certo momento, e assim por diante. Para fechar o circuito, a empresa desenvolveu um sistema, a plataforma Pecuária Transparente, que utiliza blockchain para rastrear todas essas movimentações. Com isso, cada fornecedor da empresa passará a ser responsável pelos seus próprios fornecedores e a JBS terá uma visão completa do processo.

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“O Brasil tem todas as condições de continuar sendo uma das locomotivas alimentares do planeta sem desmatar mais um metro quadrado sequer”
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Rafael Zavala, Representante no País da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO)

 

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