Agricultura orgânica é mais lucrativa para produtores, diz estudo

Pesquisadores fazem análise de abrangência global e concluem que preços pagos para produtores orgânicos são até 32% maiores

O Estado de S. Paulo

01 Junho 2015 | 20h56

A agricultura orgânica é mais lucrativa para os produtores que a agricultura convencional, de acordo com um novo estudo publicado hoje na revista científica PNAS. A pesquisa, de abrangência global, foi realizada por David Crowder e John Reganold, da Universidade Estadual de Washington, nos Estados Unidos. 

De acordo com o estudo, embora tenha rendimento menor, a agricultura orgânica tem margens de lucro consideravelmente maiores que a convencional. A conclusão dos autores, a partir desse resultado, é que há espaço para uma ampliação da produção de orgânicos, que poderia trazer benefícios ambientais ao contribuir com uma cota maior para a produção sustentável de alimentos. Atualmente, a agricultura orgânica responde por apenas 1% das atividades agrícolas no mundo.

Os preços atualmente pagos para produtores orgânicos variam entre 29% e 32% acima dos preços convencionais, segundo o estudo. Mesmo quando o rendimento do plantio orgânico chega a ser 18% menor que o plantio convencional, a agricultura orgânica chega a ser entre 5% e 7% mais lucrativa. "Isso foi uma grande surpresa para mim. Significa que a agricultura orgânica tem espaço para crescer e que há espaço para que os preços caiam com o tempo. Mas o que descobrimos é que os preços relativos têm se mantido bastante constantes nos 40 anos representados no estudo", disse Reganold.

Os autores afirmam que a agricultura orgânica, para ser sustentável, precisa ser lucrativa. Isso os motivou a analisar dezenas de estudos, a fim de comparar o desempenho financeiro das fazendas orgânicas e convencionais. "A razão pela qual quisemos nos deter sobre a economia é que, acima de qualquer outra coisa, esse é o fator que determina a expansão e a contração das plantações orgânicas: se os fazendeiros estão ou não ganhando dinheiro. É um tanto surpreendente que ninguém tenha feito essa análise com um sentido amplo", escreveram.

O preço relativo dos orgânicos dá aos produtores um incentivo para adotar práticas agrícolas mais sustentáveis. Os autores do estudo sugerem que políticas públicas poderiam estimular a adoção de práticas de produção orgânica para facilitar a transição para os produtores tradicionais.

A partir de 129 estudos iniciais, os autores escolheram 44 que se encaixavam em seus critérios para a inclusão em uma análise de custos, faturamento bruto, razões de custo-benefício e valores atuais líquidos - uma medida que leva em conta a inflação. A análise representou 55 culturas diferentes em 14 países de cinco continentes. O artigo fornece os critérios utilizados para selecionar os estudos e uma lista de todos os que foram rejeitados. "Essa é a primeira síntese de larga escala da sustentabilidade econômica da produção orgânica comparada à convencional", disse Crowder. 

Uma novidade da análise foi a inclusão de dados de rendimento da produção e de dados econômicos para culturas que faziam parte de sistemas de rotação, além de dados relacionados apenas a monoculturas. O estudo incluiu dados sobre o lucro gerado por múltiplas culturas produzidas em diversas estações, para ter um reflexo mais preciso sobre os ganhos dos agricultores.

Nenhum dos estudos utilizados na comparação levava em conta os custos ambientais e os benefícios da agricultura. Os custos ambientais tendem a ser menores e os benefícios maiores com a agricultura orgânica. Segundo os autores, os preços relativos são um forte incentivo para os produtores fazerem a transição da agricultura convencional para a orgânica. "A maior parte dos produtores com que trabalhamos fazem poucas plantações orgânicas e muitas convencionais. Se eles ganharem um pouco mais de dinheiro com a área plantada com orgânicos, eles poderão converter mais espaço nas fazendas", disse Crowder.

Mas, segundo os pesquisadores, os fazendeiros que se convertem à agricultura orgânica estão em posição vulnerável. O período de transição para a certificação orgânica expõe os produtores a riscos financeiros, quando o rendimento da produção cai e eles ainda não estão sendo pagos com os preços relativos maiores dos orgânicos.

"O desafio para os gestores é desenvolver políticas públicas que apoiem os produtores convencionais a converter suas plantações para uma produção orgânica e para outros sistemas sustentáveis, especialmente durante o período de transição, geralmente nos primeiros três anos", disse Crowder.

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