Salvatore Di Nolfi/EFE
Salvatore Di Nolfi/EFE

Advertência do IPCC sobre glaciares não tem base científica

Comunicado do painel afirma que não há evidências científicas suficientes para apoiar tese do derretimento

AP,

20 Janeiro 2010 | 12h36

Uma advertência da Organização das Nações Unidas (ONU) de que os glaciares do Himalaia estavam derretendo mas rápido do que em qualquer outro lugar do mundo e que poderiam desaparecer até 2035 não tem fundamento científico, informaram nesta quarta-feira, 20, especialistas em clima da ONU.

 

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Em relatório de 2007, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) disse que os glaciares himalaios deveriam desaparecer em três décadas se a taxa de aquecimento global permanecesse. Mas um comunicado do painel afirma agora que não há evidências científicas suficientes para apoiar essa afirmação.

 

A advertência no relatório "refere-se a estimativas com poucas comprovações sobre a taxa de derretimento e a data do desaparecimento dos glaciares himalaios", disse o IPCC. "Ao escrevermos o parágrafo em questão, os padrões claros e bem estabelecidos de evidências, exigidos pelos procedimentos do IPCC, não foram aplicados corretamente."

 

As afirmações sobre o glaciar himalaio, parte do volumoso relatório do grupo que venceu o prêmio Nobel, era pouco conhecido até o jornal The Sunday Times dizer que a projeção parecida ser baseada numa matéria jornalística.

 

Os líderes do painel da ONU investigam como a previsão foi parar no relatório, disse à Associated Press Chris Field, diretor do departamento de ecologia do Instituto Carnegie para Ciência.

 

O painel da ONU não deu novas estimativas sobre quando os glaciares do Himalaia podem desaparecer, mas disse que "grandes perdas de glaciares e reduções na cobertura de neve nas últimas décadas devem se acelerar no decorrer do século XXI". Isso vai reduzir a disponibilidade de água e alterar os fluxos sazonais de água em grandes cadeias montanhosas, dentre elas o Himalaia, diz o documento.

 

O ministro do Meio Ambiente da Índia, Jairam Ramesh, repetiu na terça-feira suas críticas prévias à avaliação inicial do painel sobre os glaciares himalaios. "A saúde dos glaciares é causa de grande preocupação, mas a posição alarmista do IPCC de que eles poderiam derreter completamente até 2035 não foi baseada em sequer um pouco de evidência científica", disse Ramesh ao jornal The Times of India.

 

O 4º Relatório de Avaliação do IPCC de 2007 disse que os glaciares himalaios estavam recuando mais rápido do que em qualquer outro lugar. "A probabilidade de eles desaparecerem até o ano de 2035 e talvez antes é muito alta se a Terra continuar a se aquecer na taxa atual", diz o documento. Mas, numa nota confusa, o relatório acrescenta que a área total do glaciar "vai provavelmente encolher dos atuais 500 mil quilômetros quadrados para 100 mil quilômetros quadrados até o ano de 2035".

 

O painel do clima da ONU disse que "os presidente, vice-presidente e copresidentes do IPCC lamentam a má aplicação dos procedimentos bem estabelecidos do IPCC neste caso".

 

Fontes do erros

 

Em carta enviada à revista Science e divulgada horas depois do reconhecimento do erro pelo IPCC, um grupo de quatro cientistas - dois americanos, um canadense um alemão - apresentou as prováveis fontes das informações falsas, contidas no relatório do Grupo de Trabalho 2 do painel, responsável por avaliar os impactos da mudança climática no mundo.

 

A afirmação de que "as geleiras estão regredindo no Himalaia mais depressa do que em qualquer outra parte do mundo", diz a carta, foi extraída de um comunicado da ONG ambientalista WWF, que por sua vez citava uma reportagem da revista NewScientist a respeito de um estudo "não publicado, e que não compara a taxa de perda de gelo no Himalaia com outras geleiras, e nem oferece uma estimativa de prazo para seu desaparecimento". 

 

Além disso, argumentam os autores da carta, outro trecho do mesmo parágrafo, que diz que "sua área total provavelmente encolherá dos atuais 500 mil quilômetros quadrados para 100 mil quilômetros quadrados até o ano 2035" não pode de modo algum se referir ao Himalaia, cuja área de geleiras é de 33 mil quilômetros quadrados.

 

 Escrevem os cientistas: "Uma busca na bibliografia sugere que a sentença foi copiada incorretamente" de um estudo onde "a data prevista do encolhimento das geleiras, de todo o mundo, de 500 mil quilômetros quadrados para 100 mil quilômetros quadrados, é 2350, não 2035".

 

A carta dos pesquisadores diz, no entanto, que os relatórios do IPCC de 2007 são "majoritariamente corretos", principalmente no que diz respeito à base científica do fenômeno do aquecimento. O relatório do Grupo de Trabalho 1 do IPCC, que tratou desse tema, afirma que a atividade humana é, muito provavelmente, a principal causa do aquecimento global.

 

(com Carlos Orsi)

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