Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Administrador diz ter 'sorte' de só perder R$ 1 milhão com queimadas

Mesmo mobilizando bombeiros, trabalhadores e máquinas, não foi possível conter fogo em fazenda

André Borges, enviado especial à Amazônia

26 de agosto de 2019 | 03h00

PORTO VELHO (RO) e HUMAITÁ (AM) - A mata intocada da Amazônia, seus animais e habitantes tradicionais não são as únicas vítimas do fogo que assola a vida na maior floresta tropical do planeta. Os produtores rurais que, nas últimas décadas, passaram a avançar com suas monoculturas e rebanhos de gado sobre o arco norte do País também veem, impotentes, seus negócios virarem cinza. Ocupações legais ou clandestinas, o destino é o mesmo. O fogo não negocia. 

Adriano Santos, de 33 anos, chegou tarde para tentar conter o fogo que tomava conta a plantação de eucaliptos que administra, em uma área plantada de 60 hectares na margem da BR-319, a estrada precária que liga Porto Velho (RO) e Manaus (AM). Eram 15 horas, quando a notícia chegou a seu celular. O administrador de fazenda foi avisado de que o fogo estava do outro lado da estrada, onde engolia a mata. As chamas estavam longe da fazenda, mas corriam com a força do vento, rumo às fileiras de eucaliptos plantadas do outro lado da estrada. 

Santos mobilizou seus trabalhadores e correu para o local, chamou o Corpo de Bombeiros, fez o que pôde. Quando chegaram, as labaredas já tinham avançado sobre o asfalto e encontravam, do outro lado da via, um capinzal seco, combustível incontrolável. Em segundos, o fogo subiu pelos paliteiros. “Não tinha mais o que fazer. Quem apaga um fogo desse?”, indaga Santos. “A gente ainda colocou as máquinas escavadeiras para trabalhar, todo grupo entrou no meio, apagando, mas é muito difícil. Foi uma sorte chegarmos logo, senão tinha acontecido o pior.” 

O que Adriano Santos chama de “sorte” é estimado por ele mesmo em um prejuízo de R$ 1 milhão, por causa da produção perdida. Parte do eucaliptal ficou no chão. Sua fazenda não é exceção. Entre Porto Velho e Humaitá, um trecho de pouco mais de 200 quilômetros de estrada que já foi dominado por fazendas, o fogo varreu grande parte das plantações e pastagens. O gado ficou sem a grama. As chamas passaram e, agora, continuam para áreas mais extremas da floresta, de difícil acesso. A fumaça espessa que toma conta das cidades, no entanto, avisa que o problema ainda não tem data para acabar. 

Rotina alterada

Pelas ruas, onde se anda, o cheiro das cinzas incomoda as narinas. Nos últimos dias, as queimadas alteraram o funcionamento das escolas, a movimentação nos hospitais, o comércio nas ruas. Na balsa de Porto Velho, que cruza o Rio Madeira, ribeirinhos chegam com as cargas para vender frutas a comércios locais e habitantes. “A movimentação caiu muito”, diz “João do Barco”, enquanto desembarca a produção colhida no sítio onde vive, na margem do rio. Traz dezenas de melancias, mamão e cachos de banana da terra. “Por esses dias, dependendo do horário, você não enxerga o outro lado do rio. Só vê poucos metros para frente. A fumaça encobre tudo, fica até perigoso navegar por aqui”, diz o ribeirinho. 

Na margem da BR-319, de frente para a plantação caída, Adriano Santos pilota sua máquina escavadeira. Um caminhão recebe os troncos empilhados do eucalipto que ficou de pé depois da passagem do fogo. Adriano Santos lamenta o prejuízo financeiro que teve. Olha para as árvores mortas. É dinheiro, e isso, recupera-se. Uma nova temporada de plantação de eucaliptos vem aí. 

 

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