André Borges
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Acusações marcam apuração sobre causas do fogo

Investigadores têm dificuldade para encontrar o culpado ou os culpados pelo maior desastre ambiental do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, em Goiás

André Borges, O Estado de São Paulo

29 Outubro 2017 | 03h00

Um avistou uma moto parada na beira da estrada e, logo depois, as chamas se alastrando. Outro notou um carro suspeito em uma estrada de terra e, em seguida, o incêndio cresceu por todos os lados. Alguém chegou a ver o fogo “surgir do nada”, no meio da mata. Pagaram R$ 2 mil para o peão queimar geral. Foi só um acidente, ou coisa da natureza. 

As histórias que correm feito pólvora pelas ruas de Alto Paraíso, Vila de São Jorge, Cavalcante e Teresina de Goiás dão uma ideia das dificuldades que as investigações têm pela frente para encontrar o culpado ou os culpados pelo maior desastre ambiental do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, em Goiás. 

Para especialistas em meio ambiente e combate ao incêndio, porém, não há dúvidas sobre a origem das queimadas: foram atos humanos e, portanto, criminosos. “O fogo atravessou estradas e aceiros de proteção (barreiras para conter o fogo) e chegou do outro lado, em áreas distintas. Nossas perícias já mostram isso. Todas as evidências físicas apontam que (o incêndio) é criminoso”, diz Gabriel Constantino Zacharias, chefe do Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais (Prevfogo) do Ibama.

O que está evidente para Zacharias soa como teoria da conspiração para Pedro Sérgio Beskow, produtor rural em Cavalcante e presidente da Associação Cidadania, Transparência e Participação, que reúne pequenos e médios ruralistas da região. “Estão politizando o incêndio, querendo criminalizar os produtores pelo fogo, quando o responsável por isso é o tempo seco”, diz. “Não há por que cometerem esse absurdo, principalmente quando pleiteiam a redução do parque na Justiça. Nosso pessoal não é burro. Jamais faria uma coisa dessas.”

Na troca de acusações, sobra suspeita até contra brigadistas, justamente aqueles que são enviados à mata para apagar o fogo e preservar a natureza. “Os brigadistas têm contratos temporários, só de seis meses. Já chegamos a ouvir relato de gente que fica parada, sem trabalho, e então toca fogo pra voltar a trabalhar”, diz o produtor rural Jurani Francisco Maia.

Anteontem, o Ministério Público Federal em Luziânia instaurou inquérito civil para investigar o incêndio.

O acirramento dos conflitos ambientais tem sido marcado por atos de violência. Anteontem, quando o Ibama e o Instituto Chico Mendes de Biodiversidade (ICMBio) realizavam uma operação de combate ao garimpo ilegal no Rio Madeira, suas sedes em Humaitá, no sul do Estado do Amazonas, foram incendiadas. “Vivemos uma verdadeira guerra contra o meio ambiente. No caso da Chapada dos Veadeiros, se ficar comprovado que se trata de um ato criminoso, será claramente uma ação de retaliação ao recente aumento dos limites do parque”, diz Marcio Astrini, coordenador de políticas públicas do Greenpeace.

Horley Teixeira Luzardo, dono de uma reserva ambiental privada ao lado do parque, a Fazenda Renascer, prefere destacar uma hipótese mais natural. “Pode ter sido um acidente, uma combustão natural. As próprias árvores do Cerrado desenvolveram, ao longo dos séculos, uma capacidade de resistir ao fogo. Se o próprio bioma tem essas características, é sinal de que ocorre fogo natural.”

Devastação. O resultado é uma paisagem desoladora. No Jardim de Maytreia, uma das mais belas paisagens entre Alto Paraíso e São Jorge, só restaram de pé uma fileira de buritis. No parque, trechos das trilhas foram engolidos pelo fogo. Pousadas e restaurantes sentem os efeitos: telefones tocam todos os dias para cancelar visitas. A expectativa é de que, com a chegada da chuva, a vegetação do Cerrado renasça. Ou, ao menos, parte dela. Sobre os animais e aves, resta o lamento. 

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