Arquivo pessoal
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‘Acordo não sai em Cancún’ diz Paulo Artaxo

Para físico premiado por pesquisa sobre aerossóis, partículas que ajudam a regular o clima global, países não chegarão a acordo na COP do México

Karina Ninni, Especial para O Estado

24 Novembro 2010 | 11h50

Professor do Instituto de Física da USP, Paulo Artaxo, de 56 anos, recebeu em setembro o Fissan-Pui-TSI Award 2010, dado a cada quatro anos a cientistas por pesquisas sobre aerossóis, partículas invisíveis da atmosfera que ajudam a regular o clima global. A cooperação internacional que rendeu o prêmio, com Meinrat Andreae, diretor do Instituto Max Planck de Química, na Alemanha, existe há pelo menos 30 anos. Integrante do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) da ONU, Artaxo fala abaixo sobre suas pesquisas e do papel da Amazônia no contexto do aquecimento global. Também explica por que tem baixas expectativas para a COP do clima, que começa dia 29 em Cancún, no México.

 

A experiência com partículas em suspensão investiga sua influência para o clima do mundo ou só na Amazônia?

 

O sistema climático é completamente integrado. Não existe a Amazônia isolada de um contexto maior, assim como não há emissões de gases antropogênicos (causadas pelo homem) nos Estados Unidos e na China influenciando só o clima deles. Estamos num planeta único e integrado na sua atmosfera. Qualquer atividade na Amazônia reflete no clima global. Nossa tarefa é estudar processos críticos na regulação da concentração de gases traços e de aerossóis atmosféricos na Amazônia e seus efeitos no clima global e regional.

 

Poderia explicar o que são gases traços e aerossóis?

 

Bem, 78% da atmosfera é nitrogênio. O oxigênio aparece em grande quantidade, mas existem gases em menores quantidades, como dióxido de carbono, ozônio, monóxido de carbono e milhares de outros. São os gases traços. Mesmo em quantidade pequena, eles controlam o balanço de radiação, que é a quantidade de radiação que entra e a que sai da Terra para o espaço – e regula sua temperatura. São críticos porque a superexposição a eles têm efeito deletério sobre a saúde. A atmosfera também contém partículas invisíveis, os aerossóis. Eles absorvem e refletem radiação solar para o espaço, transportam nutrientes e patógenos (agentes que causam doenças) e controlam o balanço de radiação atmosférica do planeta. Ou seja, controlam o quanto de radiação solar está disponível para nós – ultra-violeta, radiação fotossinteticamente ativa, usada pelas plantas para a fotossíntese. Sem fotossíntese você não regula a concentração de oxigênio na atmosfera. Partículas em suspensão, gases traços e o funcionamento do planeta são intimamente ligados.

 

A ideia é conhecer esse sistema para depois saber como melhorar o controle do clima?

 

Tentamos entender como esses processos funcionam para fazer previsões sobre o futuro do clima do planeta. Também queremos entender o que acontece quando trocamos uma parcela de floresta amazônica por uma pastagem. Como as emissões de gases e partículas se alteram e quais as implicações disso nas chuvas na região e longe dela?

 

A Amazônia é mais importante para regular o clima que outras regiões do planeta?

 

Ela tem papel muito relevante. Primeiro, pela localização na região tropical, que é onde os movimentos ascendentes de massa de ar injetam na alta atmosfera grande quantidade de gases e vapor d’água – transportados depois, eficientemente, para outras regiões da Terra. Segundo ponto: maior área de floresta contígua do planeta, a Amazônia emite grande quantidade de vapor d’água, é o principal motor do ciclo hidrológico da Terra. A Amazônia joga, sim, um papel muito importante na regulação climática do planeta. Ainda não conhecemos todos os processos, os mecanismos e as implicações da ocupação da Amazônia para o clima global. É nosso principal tema de estudo.

 

 

Qual é o futuro que você traça para o clima do planeta?

 

O planeta está num processo de aquecimento muito acelerado, as concentrações de gases do efeito estufa crescem a uma taxa relativamente grande: o dióxido de carbono, proveniente da queima de combustível fóssil ou de floresta, vem aumentando em 2% ao ano nos últimos 30 anos. A emissão altera o balanço de radiação e faz com que o planeta se aqueça. Até agora, o aquecimento médio foi da ordem de 0,8 grau desde 1750. As previsões são de que aqueça alguma coisa da ordem de 2,5 a 3 graus até o fim deste século. Isso vai ter implicações biológicas e socioeconômicas extremamente importantes.

 

Por exemplo?

 

A ocorrência de fenômenos climáticos intensos, o derretimento parcial do Ártico e das geleiras, o que vai aumentar o nível do mar em algo em torno de 1 ou 1,5 metro ao longo deste século. Isso vai impactar todas as áreas costeiras do planeta.

 

O que espera da COP?

 

Copenhague serviu para que o mundo reconhecesse a importância do tema e, ao mesmo tempo, soubesse o grande desafio que é para os países desenvolvidos deixarem seu modo de vida e de consumo para terem uma vida mais sustentável. Talvez precisemos de uns cinco a dez anos para chegar a acordos. Não vai ser em Cancún nem na próxima reunião.

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