Acabar com devastação custaria até US$ 18 bi

Cálculo de cientista propõe zerar desmatamento da floresta até 2020

Herton Escobar, de O Estado de S. Paulo

04 Dezembro 2009 | 12h08

Acabar com o desmatamento na Amazônia até 2020 custaria de US$ 6,5 bilhões a US$ 18 bilhões em investimentos, além do que já é gasto hoje pelo governo na região, segundo um estudo publicado hoje na revista Science. O cálculo foi feito por pesquisadores brasileiros e americanos, que defendem uma meta ainda mais ambiciosa do que os 80% de redução que o Brasil pretende levar para a Conferência do Clima de Copenhague. Querem desmatamento zero.

 

“É algo perfeitamente factível”, disse ao Estado o ecólogo Paulo Moutinho, do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), um dos autores do estudo. “Achamos que dá para ir além dos 80% e chegar a Copenhague com um número muito mais robusto.”

 

Para atingir 100% de redução em 2020, o Brasil deixaria de desmatar, nos próximos dez anos, 153 mil quilômetros quadrados de floresta – uma área do tamanho do Acre. Isso evitaria a emissão de 6,2 bilhões de toneladas de gases do efeito estufa (GEEs) para a atmosfera – equivalente a eliminar cerca de 3% das emissões globais desses gases, responsáveis pelo aquecimento global.

 

Pela meta do governo (80% de redução), a emissão evitada seria de 5,5 bilhões de toneladas, segundo o especialista Britaldo Soares Filho, da Universidade Federal de Minas Gerais. Os cálculos são baseados numa projeção de reduções gradativas abaixo da média de desmatamento do período 1996-2005, que foi de 19,5 mil km² (chamada linha de base histórica). Num cenário mais pessimista, em que o desmatamento tenderia a aumentar por causa da pavimentação de estradas e outros fatores de pressão, o volume de emissões evitadas com o desmatamento zero seria o dobro – 12,4 bilhões de toneladas de GEEs –, já que a área de desmatamento evitado teria de ser maior (chamada linha base projetada).

 

Moutinho ressalta que, apesar do desmatamento ter caído nos últimos anos, o cenário pessimista não pode ser descartado, já que a redução foi beneficiada por um esfriamento dos mercados de soja e carne. “Ainda não passamos pela prova de fogo, que será manter a queda do desmatamento frente a uma alta de preço das commodities”, diz ele. “Vivemos uma situação favorável, mas ainda frágil”, completa Soares.

 

A estimativa de custo para chegar ao desmatamento zero inclui gastos com fiscalização, gerenciamento de áreas protegidas, pagamento por serviços ambientais e apoio ao desenvolvimento sustentável de comunidades tradicionais – de modo que não precisem mais derrubar a floresta para sobreviver.

 

O grande intervalo de números (de US$ 6,5 a US$ 18 bilhões) deve-se a diferenças nas ações e na intensidade do esforço necessário para alcançar a meta. Por exemplo, com relação à compensação de produtores rurais que optarem por manter áreas de floresta além do exigido por lei (chamado “custo de oportunidade”). No cenário mais barato, só 10% desse custo seria compensado, versus 25% no cenário mais caro.

 

Quem pagaria a conta não seria o povo brasileiro, mas os países desenvolvidos, por meio da compra de créditos de carbono florestal. “O mais provável e justo é que esse dinheiro venha de outros países”, afirma Daniel Nepstad, do Woods Hole Research Center. Para isso, os cientistas contam com a aprovação em Copenhague do mecanismo Redd, que premiaria o desmatamento evitado como forma de combate ao aquecimento global. “É a maneira mais barata de reduzir emissões”, afirma Soares. “O Brasil não pode perder essa oportunidade.”

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