Jonne Roriz|Estadão
Biodiversidade. Estima-se que o turismo no arquipélago já tenha movimentado mais de R$ 2,5 milhões; mais de mil mergulhadores fizeram a visita Jonne Roriz|Estadão

Biodiversidade. Estima-se que o turismo no arquipélago já tenha movimentado mais de R$ 2,5 milhões; mais de mil mergulhadores fizeram a visita Jonne Roriz|Estadão

Aberto ao público há um ano, Alcatrazes atrai mergulhadores

Por semana, pelo menos 50 vão ao arquipélago no litoral norte paulista que ficou por 30 anos reservado para atividades militares

Imagem Herton Escobar

Herton Escobar , especial para o Estado

Atualizado

Biodiversidade. Estima-se que o turismo no arquipélago já tenha movimentado mais de R$ 2,5 milhões; mais de mil mergulhadores fizeram a visita Jonne Roriz|Estadão

ALCATRAZES - Desde que fez seu primeiro curso de mergulho, aos 16 anos, Cesar Augusto Grillo ouvia falar de Alcatrazes. Um arquipélago de aparência pré-histórica no litoral norte de São Paulo, cheio de bichos incríveis e paisagens impressionantes, mas que não podia ser visitado porque era uma área militar, controlada pela Marinha. Só agora, aos 33, ele conseguiu realizar o sonho de mergulhar no local; e Alcatrazes não decepcionou.

"A beleza do lugar é surpreendente, tanto na superfície quanto debaixo d'água", conta o fotógrafo do interior paulista, que hoje mora em Ilhabela. "Já mergulhei em quase todos os pontos possíveis do Brasil, além de alguns pontos do Caribe, e Alcatrazes não deixa nada a desejar. É fantástico."

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A beleza do lugar é surpreendente, tanto na superfície quanto debaixo d'água
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Cesar Augusto Grillo, fotógrafo

Grillo não foi o único a realizar esse sonho. Mais de mil pessoas mergulharam em Alcatrazes neste ano, desde que o local foi aberto à visitação pública, em dezembro de 2018. A maioria pela primeira vez.

O arquipélago estava fechado à sociedade havia 30 anos, por imposição da Marinha, que utilizava as ilhas como alvo para a prática de tiros e outros exercícios de guerra. Era uma zona militar, acessível apenas a pesquisadores, mediante autorização. E mesmo eles ainda têm muito a descobrir no local, como mostra o relato de um novo coral (mais informações aqui).

Outros interessados tinham de se contentar em admirar as ilhas a distância. A liberação só foi possível a partir de um acordo feito entre a Marinha e o Ministério do Meio Ambiente, em 2016, que resultou na criação do Refúgio de Vida Silvestre do Arquipélago dos Alcatrazes - uma unidade de conservação federal, que dá prioridade à proteção ao meio ambiente, mas também permite a visitação pública, supervisionada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

"Foi sensacional, maravilhoso. Não imaginava que aqui tão perto de São Paulo poderia haver um lugar assim, tão cheio de vida", conta a mergulhadora Maria Telles, de 37 anos, que também aproveitou para conhecer o arquipélago neste ano.

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Não imaginava que aqui tão perto de São Paulo poderia haver um lugar assim, tão cheio de vida
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Maria Telles, mergulhadora

Natureza única

Distante 35 quilômetros de São Sebastião e Ilhabela, Alcatrazes é um dos maiores ícones da biodiversidade marinha brasileira, com cerca de 1,3 mil espécies de fauna e flora registradas - incluindo 93 ameaçadas de extinção e 20 endêmicas, que só existem ali. Na superfície, dois de seus inquilinos exclusivos mais famosos são a jararaca e a perereca-de-alcatrazes.

A ilha principal tem 2,5 quilômetros de extensão, com paredões imensos, florestas e um pico rochoso com mais de 300 metros de altura, sempre rodeado por milhares de fragatas e atobás.

Debaixo d'água, seus costões rochosos abrigam a maior diversidade de peixes de toda a costa brasileira, além de uma grande abundância de corais, moluscos, crustáceos e outros animais marinhos.

Impactos

Todo o processo de visitação foi - e continua sendo - pensado para causar o maior impacto possível nos visitantes e o menor impacto possível no meio ambiente. Todos os passeios são acompanhados (até debaixo d'água) por condutores treinados, que orientam os visitantes sobre a importância do local e as regras de segurança.

"Não foi constatado nenhum impacto ambiental da atividade até agora", diz a chefe do Núcleo de Gestão Integrada do Arquipélago dos Alcatrazes do ICMBio, Kelen Leite.

Seis barcos, de quatro empresas de mergulho, estão autorizados a operar no local atualmente, e a expectativa é de que o número de visitantes cresça nos próximos anos, com a adição de novas modalidades de visitação.

"Vários estudos mostram que o fator que mais contribui para o impacto ambiental nesse tipo de atividade é o comportamento, e não o número de visitantes", ressalta Kelen.

A infraestrutura instalada no arquipélago, segundo ela, tem capacidade para receber até 200 mergulhadores/dia, e a média atual é de 50 por semana. Ainda assim, estima-se que o turismo no arquipélago já tenha movimentado mais de R$ 2,5 milhões na economia local.

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Vários estudos mostram que o fator que mais contribui para o impacto ambiental nesse tipo de atividade é o comportamento, e não o número de visitantes
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Kelen Leite, chefe do Núcleo de Gestão Integrada do Arquipélago dos Alcatrazes do ICMBio

Benefícios

Não há cobrança de ingressos, e o ICMBio não recebe nada pela visitação.

"Nosso produto é a conservação, não a arrecadação", afirma Kelen.

Ainda assim, a conservação ganha muito com a atividade, garante ela. O contato com o arquipélago reforça o compromisso da sociedade com a sua proteção, e a presença constante de pessoas contribui para a fiscalização, inibindo a prática de atividades ilegais.

O número de autos de infração aplicados pelo ICMBio no Arquipélago dos Alcatrazes caiu de 98, no ano de 2017, para apenas 4 neste ano.

"A presença de ilícitos na região foi expressivamente menor", comemora Kelen. "Acredito que seja o bom uso substituindo o mau uso."

Satisfação dos visitantes

Todos os processos são acompanhados por uma equipe de pesquisadores do Departamento de Ciências do Mar da Universidade Federal de São Paulo (DCMar-Unifesp), que aplicam questionários para avaliar as expectativas e a satisfação dos visitantes com variados aspectos.

Os resultados são compartilhados com as equipes do ICMBio, operadoras e condutores, para fazer eventuais ajustes sempre que necessário - parte de uma metodologia conhecida como "manejo adaptativo".

A nota média de satisfação dos visitantes está acima de 8, em uma escala de 0 a 10, e o motivo mais citado para mergulhar no arquipélago é justamente "encontrar local onde a natureza é preservada".

"É sempre magnífico visitar Alcatrazes", exalta o pesquisador Fabio Motta, do DCMar-Unifesp, especialista em conservação marinha, que orienta o trabalho de monitoramento. "Todo mundo que chega lá é tocado de alguma forma; e quando você mergulha, a coisa fica mais bonita ainda."

Um festival está sendo realizado em Ilhabela neste fim de semana para celebrar o início da temporada de mergulhos na região.

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Todo mundo que chega lá é tocado de alguma forma; e quando você mergulha, a coisa fica mais bonita ainda
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Fabio Motta, pesquisador do DCMar-Unifesp

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Pesquisador descobre nova espécie de coral em cânion de Alcatrazes

Um artigo científico deve oficializar a descoberta e dar nome à espécie; já o ICMBio se preocupa com invasora

Herton Escobar, especial para o Estado

07 de dezembro de 2019 | 17h00

ALCATRAZES - O baú de tesouros biológicos dos Alcatrazes, no litoral norte de São Paulo, parece não ter fundo. A mais nova joia na coroa de biodiversidade do arquipélago é um coral pink, de cor vibrante e pólipos arredondados, parecidos com pedras preciosas. Ainda sem nome, a espécie foi descoberta no início deste ano, dentro de um cânion submarino, a pouco mais de 30 metros de profundidade. Esse fica bem abaixo de um dos pontos mais famosos de mergulho de Alcatrazes - chamado Matacões -, mas não costuma ser visitado por causa das condições adversas que prevalecem nessa profundidade, de águas frias e túrbidas. O pesquisador Marcelo Kitahara, mesmo já tendo mergulhado mais de 300 vezes na região, nunca tinha conseguido entrar nele. Até que um dia a oportunidade surgiu, em abril.

Era um dia de águas especialmente claras e calmas, e Kitahara aproveitou para desbravar o cânion, acompanhado do amigo e biólogo Leo Francini - outro veterano de Alcatrazes, que também nunca tinha descido até ali. Os pólipos cor-de-rosa, com cerca de 2 centímetros cada um, logo lhe saltaram aos olhos, incrustados a uma massa bege de cracas e moluscos. 

"Nunca tinha visto nada com essa cor", lembra Kitahara, professor do Departamento de Ciências do Mar da Universidade Federal de São Paulo (DCMar-Unifesp) e colaborador do Centro de Biologia Marinha da Universidade de São Paulo (Cebimar-USP).

Autorizado a fazer coletas no local, ele removeu alguns pólipos para análise em laboratório. 

"Quando subi no barco já tive o feeling de que poderia ser uma espécie nova."

De volta ao Cebimar, em São Sebastião, alguns pólipos foram dissecados e outros, colocados em aquários para observação. As análises genéticas e morfológicas indicam se tratar de uma espécie do gênero Coenocyathus, que tem oito espécies conhecidas no mundo - apenas uma no Brasil. Um artigo científico está sendo preparado para oficializar a descoberta e dar nome à espécie. 

"Ainda temos muito o que descobrir em Alcatrazes", diz o cientista.

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Quando subi no barco já tive o feeling de que poderia ser uma espécie nova
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Marcelo Kitahara, pesquisador

Invasores

Curiosamente, a descoberta aconteceu em um dia em que os pesquisadores estavam em Alcatrazes para se livrar de uma outra espécie de coral - neste caso, uma espécie exótica invasora: o coral-sol.

Originário do Indo-Pacífico, o coral-sol desembarcou no Brasil no fim da década de 1990 e chegou a Alcatrazes em 2011, causando grande preocupação entre cientistas e ambientalistas, por sua capacidade de ocupar o ambiente, em detrimento das espécies nativas. Para evitar a proliferação no arquipélago, o ICMBio realiza desde 2013 um trabalho de monitoramento.

Mutirões periódicos são organizados para fazer uma limpa nos costões das ilhas. Mais de 300 mil colônias de coral-sol, pesando mais de meia tonelada, já foram removidas do arquipélago nos últimos anos. A extirpação é feita manualmente, na base da força bruta, com talhadeira e martelo. O coral-sol tem uma capacidade impressionante de regeneração, e por isso as colônias têm de ser arrancadas por inteiro das rochas. 

"Essas campanhas têm sido essenciais para suprimir o aumento dessa população no arquipélago, dando maior chance para as nativas", diz a pesquisadora Kátia Capel, do Cebimar-USP. 

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