A visão que vem do mar

Almirante Câmara adotou a conservação já na década de 60

Giovana Girardi, de O Estado de S. Paulo,

01 Outubro 2008 | 20h49

Em plena década de 60, quando o governo brasileiro olhava para a Amazônia como uma região a ser ocupada, explorada e desenvolvida, um almirante da Marinha percebeu que aquele movimento não poderia dar certo e resolveu se manifestar contra isso. Hoje reformado, Ibsen Gusmão Câmara, aos 84 anos, lembra que, na época, falar em conservação era como "pregar no deserto", mas foi graças à sua insistência que foram criadas no País algumas regras de proteção ao ambiente.    Ouça trecho da entrevista   Ele conta que desde criança gostava da natureza e, nos tempos de escola, ficava intrigado com uma inscrição que constava em seu atlas. Acima de Mato Grosso aparecia escrito apenas "áreas inexploradas". Ficou decidido a um dia conhecê-las. De fato, foi quando esteve naquele território desconhecido que despertou para a questão ambiental.   Coordenando as atividades de uma flotilha da Marinha na Amazônia, ele teve a chance de vasculhar toda a área navegável do Amazonas. "Aquele período me permitiu um contato íntimo com a realidade da floresta. Já naquela época havia muita destruição. O Código Florestal (de 1965, que estabelece uma área de reserva legal que não pode ser desmatada) e a lei de proteção à fauna (de 1967) estavam em vigor, mas ainda se caçava quantidades assombrosas para exportação de peles. Presenciei ali uma destruição progressiva."   Dois anos depois, em 1969, ao voltar para o Rio, decidiu se engajar na luta pela conservação e se afiliou à única ONG ambiental da época, a Fundação Brasileira para a Conservação da Natureza, a qual presidiria após a aposentadoria. Autodidata, aprendeu por conta própria sobre biologia para poder falar com propriedade sobre proteção.   Posteriormente, Câmara também faria parte do Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama). "Era um pouco frustrante porque a gente mostrava que as coisas não estavam bem, mas ninguém ouvia, só queriam saber de desenvolvimento. Achavam que tudo aquilo era só para proteger ‘bichinho’, sem ver que estávamos destruindo as bases que nos sustentam", conta.   Câmara afirma que nunca enfrentou problemas por falar de conservação enquanto pertencia às Forças Armadas, mas, por "precaução", costumava pedir à filha que assinasse alguns de seus artigos denunciando problemas ambientais.   CONQUISTAS   Entre as muitas campanhas em que se engajou, as duas maiores conquistas de Câmara foram a proibição à caça de baleias no Brasil e a definição do que é a mata atlântica. No primeiro caso, foi preciso lutar contra interesses comerciais. No segundo foi contra uma longa tramitação no Congresso.   "A caça à baleia foi uma das muitas coisas que eu vi que estavam erradas e me empenhei nisso, porque ninguém ligava, e os japoneses estavam livremente no Nordeste caçando. Eu comecei a brigar, brigar, brigar, busquei argumentos, tentei mostrar que não tinha por que matar o animal e que as baleias iam se extinguir se aquilo não parasse."   A batalha levou mais de dez anos, até que, em 1989, a caça foi proibida. "O movimento tomou corpo e mudou completamente a orientação do País. O Brasil chegou a defender, na Comissão Internacional Baleeira, a caça e hoje é radicalmente contra." Em relação à floresta tropical, ele trabalhou com a ONG SOS Mata Atlântica para criar o Plano de Ação para a Mata Atlântica. Foi com base em seus estudos que, em 1991, se definiu legalmente o que era a floresta, favorecendo a proibição do corte. Foi o ponto de partida que levaria à formulação do projeto de lei de proteção a esse bioma, aprovado no ano passado, após 14 anos de tramitação no Congresso.

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