André Lessa/AE
André Lessa/AE

A pé ou de trem, Tom Zé defende vida simples

Ele vê trens e metrôs como alternativas sustentáveis de transporte e defende um estilo de vida concentrado no bairro para evitar grandes deslocamentos

Gustavo Bonfiglioli, Especial para O Estado

23 de fevereiro de 2011 | 00h03

"De ferro e bronze, o trem das onze voltará. Em Jaçanã, bem de manhã, apitará", canta Tom Zé, em A Volta do Trem das Onze, releitura do clássico de Adoniran Barbosa. Os dois artistas se referem ao trem que deixou de operar em 1965 e ligava o centro à Cantareira, na zona norte de São Paulo.

Antes um entusiasta dos carros e caminhões, aos quais associava "a chegada do progresso", Antonio José Santana Martins, o Tom Zé, mudou de opinião ao perceber o dano que eles causam ao ambiente. Hoje, enxerga trens e metrôs como alternativas sustentáveis de transporte, e defende um estilo de vida concentrado no bairro, para evitar grandes deslocamentos.

"Antes, tudo era transportado de trem. Quando os carros, caminhões e rodovias começaram a chegar a Irará, minha cidade no interior da Bahia, eu era criança. Meus tios comunistas falavam que não era possível que um país tão grande começasse a transportar tudo em estradas. Mas para mim, e para muita gente, aquilo era o máximo", diz. "Ninguém sabia, na época, o quão perigosa era essa transição."

Tom Zé é um adepto declarado da vida simples.Dentro de casa, economiza no uso de água e energia. Fora dela pratica o consumo sustentável, além de preferir ficar restrito ao seu bairro, Perdizes, na zona oeste, para economizar a "pegada de carbono" do transporte. "Faço questão de fazer tudo que está ao meu alcance a pé. " Quando isso não é possível, ele recorre ao metrô, depois de uma caminhada até a Estação Marechal Deodoro. "Eu ficava um pouco assustado com a velocidade do metrô, mas hoje adoro. Infelizmente, é a única forma de se deslocar pela cidade em grandes distâncias sem poluir."

Tom Zé também gosta de cuidar dos jardins de seu prédio, atividade que começou em meados dos anos 80. "Eu estava nervoso, com problemas no estômago, precisava de uma coisa que me colocasse em outra relação com a natureza, minhas mãos e meu corpo. Ia para um sítio em Embu com enxada e pá para lavrar a terra de lá", conta. "Foi quando percebi que morava ao lado de um jardim."

O cultivo das flores, como rosas e buganvílias, plantadas em diversas cores, conta com o auxílio do zelador do edifício, que ajuda a regar as plantas. "O estilo de jardim do qual ele mais gosta é o inglês, com plantas diferentes convivendo em espaços assimétricos. Lembram a liberdade da natureza", explica sua mulher, Neusa.

O especialista

A bandeira pró-ferrovia de Tom Zé tem respaldo de especialistas. “O Brasil seria um caso ideal para a solução ferroviária, principalmente no transporte de cargas. Não apenas pelas dimensões continentais, mas também porque é um grande produtor de commodities”, explica Jaime Waisman, professor da Escola Politécnica da USP. Ele diz que a preferência pelo caminhão e pelo automóvel está ligada tanto ao sucateamento da malha ferroviária do Brasil depois da 2ª Guerra Mundial como pelo aparecimento da indústria automobilística. “A mesma escolha foi feita nas cidades: tinham ótimos sistemas de bonde, que foram abandonados.”

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