GABRIELA BILO/ESTADÃO
GABRIELA BILO/ESTADÃO

A Noruega caça baleias como acusou Bolsonaro? Entenda

Após suspensão de R$ 133 mi do Fundo Amazônia, presidente questionou legitimidade do país europeu nas discussões ambientais

Bianca Gomes, O Estado de S.Paulo

16 de agosto de 2019 | 18h07

SÃO PAULO - Alvo de críticas por parte do presidente Jair Bolsonaro (PSL) após suspender repasses ao Fundo Amazônia, a Noruega é um dos únicos países do mundo que caça baleias para fins comerciais. A prática, classificada pelo governo como "legal, tradicional e de pequena escala", levou o país europeu ao segundo lugar no ranking de matança em 2017, com 432 baleias mortas, atrás apenas do Japão, que capturou 596 animais no mesmo ano.

Bolsonaro lembrou da matança na última quarta-feira, 14, quando rebateu a suspensão de 300 milhões de coroas norueguesas, o equivalente a R$ 133 milhões, para ações contra o desmatamento no Brasil

"Noruega? Não é aquela que mata baleia lá em cima, no Polo Norte, não? Que explora petróleo também lá? Não tem nada a oferecer para nós", disse o presidente. 

Questionada pelo Estado sobre as declarações de Bolsonaro, a embaixada da Noruega no Brasil citou um artigo de 2016, no qual o Ministério de Comércio, Indústria e Pesca do país escandinavo afirma que a caça de baleias é baseada nas melhores evidências científicas disponíveis. 

Veja o número de baleias capturadas pela Noruega nos últimos anos: 

  • 2017: 432
  • 2016: 591
  • 2015: 660
  • 2014: 736
  • 2013: 594
  • 2012: 464
  • 2011: 533
  • 2010: 468

"Algumas espécies de baleias precisam de proteção, enquanto outras são abundantes", diz o ministério, citando como exemplo as baleias-minke, cuja caça é, segundo o texto, "uma atividade legal, tradicional e de pequena escala".

O artigo afirma ainda que a carne do animal é responsável por uma contribuição saudável para a dieta da população, rica em ômega 3 e gorduras insaturadas. 

Segundo a professora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Mariana Nery, diversos países, incluindo o Brasil, deixaram de caçar baleias em 1986, quando a Comissão Baleeira Internacional (IWC, na sigla em inglês) determinou uma moratória de proibição. 

"A maioria simplesmente parou. A Noruega usa a ideia de tradição para continuar fazendo isso", afirmou a professora da Unicamp.

Mariana explica que a IWC é a responsável por determinar as cotas para a caça comercial e faz o trabalho com base em dados científicos.

"Noruega e Islândia caçam comercialmente, e esses países estabelecem suas próprias cotas, mas eles têm que dar informação para a comissão", disse a professora.

Ela acrescenta que o Japão declara capturar com "fins científicos" para evitar o título de caça comercial. "Eles caçam mais com a desculpa da 'pesquisa', mas sabemos que não é necessário matar para estudar uma espécie."

No dado mais recente da IWC, de 2017, a Noruega declarou ter capturado 432 baleias. O número tem caído desde 2014, quando foram capturadas 736 baleias. 

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