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Tiago Queiroz/ Estadão
Tiago Queiroz/ Estadão

A luta de um artista de rua para reflorestar a nascente de um rio na Cidade Tiradentes

Link Museu é artista plástico, grafiteiro e pichador e tenta preservar as margens do Riacho Doce, na zona leste de São Paulo

João Prata, O Estado de S.Paulo

25 de junho de 2021 | 15h00

O artista plástico, grafiteiro e pichador Diego de Jesus Bezerra, de 34 anos, foi expulso de três colégios públicos porque rabiscava as paredes. A Escola Estadual Esther Figueiredo Ferraz, na Cidade Tiradentes, zona leste de São Paulo, foi onde ele finalmente conseguiu a graduação do segundo grau em 2001 e, por acaso do destino, continua presente em sua vida até hoje.

Por morar na vizinhança, o imenso muro da escola acabou se tornando um dos grandes painéis onde faz sua arte. Há uns anos, ele até foi convidado para realizar uma oficina de grafite com os alunos. Em frente ao colégio tem uma praça onde tem a nascente do Riacho Doce, um curso d'água que há 30 anos servia para os moradores lavarem roupas e louças. 

 

Diego atualmente luta para manter o local despoluído. Seu sonho é fazer das margens do rio uma floresta ao estilo daquela que Seu Hélio plantou no Córrego Tiquatira e criou o primeiro parque linear da cidade, conforme contamos no primeiro capítulo dessa série sobre meio ambiente. Por enquanto, Diego conseguiu montar uma horta orgânica, plantar algumas espécies de árvores nativas e cobrar autoridades responsáveis para ajudar na despoluição do rio e das nascentes que ficam no local.

Apesar do sonho ser parecido, as realidades são bem diferentes. Seu Hélio é um empresário com recursos para comprar mudas aos milhares. Diego ganhava a vida até dois anos atrás como pintor de parede e ficou sem trabalho durante a pandemia. Teve depressão e a horta, junto com o trabalho artístico, o ajudaram a se levantar. 

A sorte foi ter conhecido bem nesse período o artista plástico Rodrigo Andrade, que se interessou pelas pichações de Link e o convidou para colocar o que ele desenhava no muro, na tela. Nas paredes, ele assina Link Museu e é assim que é conhecido por toda a comunidade. O segundo nome é referente a um grupo de pichadores dos mais antigos da zona leste. O primeiro foi ideia dele mesmo.

"Ficava riscando a escola, aquela coisa de adolescente. Pensava: 'Se colocar meu nome, vão saber que sou eu'. Comecei abreviando DGO. Mas descobriram. Depois tentei escrever Negão. E também descobriram. Então, vi que tinha que desconectar. Um dia, voltando da escola, vi um carro com adesivo escrito: link autopeças. Gostei do nome, pesquisei e vi que link era comunicação, que ligava uma coisa a outra. É isso. Mesmo assim, descobriram e fui expulso da escola. Mas aí o apelido já tinha pegado."     

Link Museu

Link Museu nasceu na zona leste, tem dread no cabelo que vai até a cintura e desde garoto se interessa pela cultura de rua, o picho, o grafite, o rap e o skate. A atenção e o carinho pela natureza vem da infância na casa da avó. "Comia amora, goiaba, jabuticaba, tudo do pé". Nos últimos anos, ele viu o extremo leste de São Paulo mudar de figura.

De uma área repleta de floresta, passou a ganhar diversos conjuntos habitacionais. Com a chegada dos prédios, começou a desaguar esgoto no córrego, além de muito lixo vindo das ruas. Ali na praça, até antes da pandemia, nos finais de semana, Link e os amigos se reuniam no que batizaram de Luau dos Loucos. "A gente acendia a fogueira, um trazia a pipoca, outro a batata, outro a bebida e ficávamos chapando."

Foi num desses encontros, há mais ou menos quatro anos, que caiu a ficha para preservação. "Já tinha um monte de lugar para perdição aqui na quebrada sem levar nada a lugar nenhum. Percebemos que as margens do rio estavam ficando degradada. Ali era nosso lugar, a gente tinha que mudar."

A fogueira continuou sendo acesa, mas eles aproveitaram os encontros para também promover ações sociais e sustentáveis. Além de arrecadar roupas e alimentos, passaram a promover encontros literários, saraus e também ações positivas para o meio ambiente. Foi quando Rodrigo Andrade conheceu a turma e se encantou pelo trabalho do Link. Outro idealizador do projeto, Jonata Garcia, que assina Thrash em suas obras, falou sobre as ações dos Loucos. 

"Preservar é fundamental. Queremos transformar o lugar que a gente vive em um espaço convidativo, para que as pessoas possam vir com a família. Imagina uma parque aqui? Todo mundo quer um lugar limpo e bonito." 

Fiscalização

O aprendizado veio na prática e com muitos vídeos no YouTube. Perceberam que sem cobrar os órgãos públicos nada sairia do lugar. Mas aí surgiu outro problema. O Riacho Doce e a localização da praça ficam bem na divisa entre Itaquera e Cidade Tiradentes. "A gente vê e pede para o pessoal arrumar, mas fica nesse impasse de quem é o responsável", reclama Thrash.

Link comentou que tem bom diálogo com a Sabesp e a CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Estado de São Paulo). "A Sabesp veio tem uns dias e melhorou bastante a situação, mas ainda tem muita coisa errada. Eles pararam um escoamento de esgoto. Mas tem outros."

Há três anos, bem onde começa a praça, passou a escorrer uma água suja. Link tentou entupir o cano, mas não teve jeito. "Vinha a água limpinha até então e se juntava com a outra parte do rio, limpa também. Mas depois que um prédio lá em cima ficou pronto, ficou assim, suja."

Por ser um vale, toda a água desce para lá. Próximo à horta que foi construída, Link colocou um cano de PVC no meio da terra e passou a sair água transparente. "Se furar tudo aqui vai sair muito mais", diz. Ele não sabe, no entanto, se de fato é potável. Nos encontros, eles usam aquela água para cozinhar, beber, tomar banho e regar a horta. 

A horta era para ser comunitária. Mas Link reclama que ninguém além dos seus amigos tem ajudado muito. Pelo contrário, nos últimos tempos vinha sendo vandalizada. Com os restos de material de construção e entulho jogados às margens do rio, cercaram o local e agora ninguém mais atrapalha.  

Por meio de nota, a Sabesp informou que foi ao local na quinta-feira, 24. "Durante a inspeção foram identificadas três chegadas de tubulações de águas pluviais, porém, em nenhuma delas foi detectada a presença de esgoto oriundo das redes coletoras operadas pela Sabesp, fato comprovado por meio de testes de corante e inspeção em nossas instalações."

Segundo a companhia, o aspecto escuro encontrado próximo às chegadas de uma dessas tubulações é "características de poluição difusa, que são poluentes acumulados nas áreas urbanas, como óleos, combustíveis, matérias orgânicas e lixo em geral, que acabam carregados para dentro dos cursos d’água e que podem contribuir para a degradação do meio ambiente".

A CDHU informou que "realizou a manutenção, cercamento, retirada de entulho e corte de mato, e atuou na vigilância do local para impedir invasões. Em 3 de fevereiro de 2021, as áreas verdes públicas citadas passaram para o domínio da Prefeitura de São Paulo."

A Prefeitura de São Paulo, por meio da Subprefeitura Itaquera, informou que faz zeladoria periódica nos córregos da região que administra. "O local citado será limpo na próxima segunda feira, 28. Já a Subprefeitura Cidade Tiradentes realiza zeladoria nas áreas ajardinadas da região citada a cada três meses. A próxima ação acontecerá na próxima semana. A limpeza de córregos acontece a cada quatro meses. A última ação aconteceu no mês de maio."

Ainda, acrescentou que  área citada pela reportagem é alvo de constantes descartes irregulares de lixo. "A contribuição da população é fundamental para manter as ações de zeladoria da cidade. O descarte irregular de material em vias públicas está sujeito a multa no valor de R$ 819,81 (abaixo de 50kg) até R$ 17.447,82 (acima de 50kg), conforme os artigos 160 e 161 da Lei 13.478/02, além de ser considerado crime ambiental."

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