TIAGO QUEIROZ/ESTADãO
TIAGO QUEIROZ/ESTADãO

A floresta artesanal formada por vizinhos

Mobilização em Joanópolis criou um corredor ecológico, transformando a paisagem da região. Hoje se celebra o Dia Internacional das Florestas

Juliana Diógenes, O Estado de S.Paulo

21 de março de 2019 | 03h00

SÃO PAULO - "Isto é uma árvore", aponta Marcelo Grillo para a terra. Melhor dizendo: para uma planta 20 centímetros acima do solo. "As pessoas são muito ansiosas. Dizem 'Ih, árvore demora muito a crescer'. Eu não gostaria que meu filho já nascesse com 20 anos. Qual é a graça? Gosto de ver crescendo."

De pequenas árvores em pequenas árvores plantadas por ele, passaram-se 30 anos. E foi assim que o paulistano Marcelo Grillo, músico e consultor de tecnologia da informação de 60 anos, criou uma floresta particular na beira da represa Jaguari/Jacareí do Sistema Cantareira, em um terreno de seis hectares em Joanópolis, a 122 quilômetros de São Paulo. Ali acumulam-se densas árvores de 250 espécies - a maioria nativa - em cinco hectares que ele cuida com a ajuda somente de um caseiro.

São copaíbas, congonhas, palmeiras juçara, bacuparis, pinheiros araucárias... A maioria delas plantadas por ele mais de 25 anos atrás, que hoje formam copas adensadas criando um pulmão verde na propriedade com resquícios de Mata Atlântica. O reflorestamento contaminou positivamente os donos de sítios do entorno da propriedade de Grillo. Com os terrenos de pelo menos outros quatro vizinhos, que também gostavam de meio ambiente, a mobilização dos vizinhos criou um corredor ecológico, que transformou a paisagem da região, antes tomada por gados em seus pastos. 

No Dia Internacional das Florestas, instituído em 2012, o Estado conta a história de vizinhos que, juntos, estão reflorestando quase artesanalmente a região ao norte de São Paulo e trazendo de volta o verde que o homem, em décadas anteriores, extraiu para a modernidade passar com seu trator. No início, a propriedade foi batizada de sítio Grillo. Depois que ele comprou o sítio da família, a primeira providência foi alterar o nome: "Não gosto de grilo. Grilo mata planta. Então mudei o nome para Copaíba (árvore nativa da região)", conta ele. 

O conhecimento de Grillo se consolidou no contato direto com a natureza. Após estudar o comportamento das árvores nativas por conta própria, passou a cultivar milhares de mudas no viveiro que hoje doa - ou vende, a depender da quantidade - aos moradores de sítios próximos, de quem ficou amigo.

Ele conta que detestava biologia na escola, mas na vida adulta acabou se transformando em uma espécie de biólogo amador. Isso porque, quando criança, não relacionava as ciências biológicas à paixão que sempre nutriu pelo meio ambiente. 

"Eu nasci para ter uma floresta. É a minha missão na Terra", crava, sem titubear. A experiência com a terra trouxe um conhecimento que, ele sabe, jamais seria aprendido tão bem, em tantos detalhes e com tanta familiaridade com a mata, se estivesse trancado em salas de aula da universidade. 

Desde 1985, a agricultora Daisy Takasawa, de 58 anos, mora em um sítio vizinho ao de Grillo, mas somente no ano passado começou a plantar mudas de árvores nativas no local.

"Meu pai cortou muitas árvores por aqui para a passagem das estradas. Naquela época, achávamos que a mata nunca ia acabar. E agora sabemos que pode acabar, sim. Depois do Mig (como é conhecido Grillo entre amigos), que me ensinou tanto, passei a reflorestar em vez de criar gado. Estamos fazendo várias pessoas mudarem de ideia. Se a gente não começar a se preocupar com reflorestamento, não vai sobrar nada", diz Daisy. 

Com apoio da Associação Mata Ciliar, ela cedeu o terreno para a plantação de mil mudas, após a doação de 600 pessoas física. Agora, ela, nascida e criada em Joanópolis, planeja reflorestar outra encosta da propriedade de 12,5 hectares. "Aqui eu plantava milho e criava gado. Ganhava-se pouco e perdia-se tudo porque o terreno se estraga", afirma.

Maravilhada, Daisy mostra para a reportagem o vídeo de um lobo guará que um dia apareceu na propriedade. "Gosto de acreditar que eles começaram a aparecer depois que resgatei a floresta nativa".

A amizade entre os dois começou de uma desavença. Hoje eles riem do episódio. "Viramos amigos depois da divergência sobre a estrada, lembra?", ela pergunta.

Grillo queria plantar árvores na beira da estrada de terra que passa ao lado da propriedade para evitar que o terreno cedesse e levasse as árvores do terreno. Daisy não gostou da ideia. "E se caísse árvore ali com a chuva e impedisse a passagem?". Com o tempo, eles conversaram e chegaram a um acordo. Desde então, começaram a trocar conhecimento sobre meio ambiente. 

‘ETs da região’

Outro vizinho também engajado nas questões ambientais e integrante do "corredor ecológico," o engenheiro e administrador de empresas Francisco de Cunto, 60, está na região há 11 anos. Há sete, cedeu o terreno para um ex-chefe e empresário fazer compensação ambiental por gás carbônico gasto em aviões particulares. Assim, foram plantadas 64 mil árvores, de mais de 200 espécies.

Dos 45 hectares, dez são floresta. O sítio do engenheiro já era povoado de mata nativa quando ele comprou. O que o engenheiro fez foi interligar as matas, criando um corredor. "Não só plantar árvores é importante, mas pensar de que maneira podemos interligar as existentes para criar os corredores ecológicos", diz.

Cunto estima que juntando os sítios dele, de Grillo, Ninian e Daisy, pelo menos 100 mil árvores foram plantadas nos últimos sete anos na região de Joanópolis.

"Os resultados foram surpreendentemente rápidos. Não são meus filhos que vão ver. Eu já estou vendo", conta. "Ainda somos considerados ETs na região. As pessoas ainda falam em reflorestamento com eucaliptos e pinheiros para ganhar dinheiro com corte. Vai demorar para começarem a pensar em fazer reflorestamento para reconstituir o ambiente do jeito que é."

"Tem esse conceito de que lugar com árvore vale menos. Muita gente me falou que eu estava jogando dinheiro fora, perdendo valor da minha propriedade. Acho que a longo prazo vou ganhar valor na minha propriedade. Acho que a floresta e a diversidade vão ser cada vez mais valorizadas. Ter uma vegetação rica em volta, uma fauna rica em volta, ficar sentado e ver árvores cheias de tucano em volta, isso não tem preço", diz. "Mas demora. Hoje a preocupação é que a árvore suja o chão e a piscina. As pessoas compram terreno para fazer um campo de futebol." 

Educação ambiental

Grillo conta que Ninian, o vizinho irlandês que tem um sítio do outro lado da represa, plantou 30 mil árvores com apoio de uma ONG. Ele também encomendou do músico e consultor de TI mil mudas, que Grillo prepara com carinho. "Já não tenho mais muito lugar para plantar, mas como estou começando a plantar para os vizinhos, elas estão aqui", conta Grillo.

Ninian também realiza a soltura de animais silvestres e é dono de uma copaíba hoje preservada por decreto municipal, com placa indicativa, o que evitou a demolição recente pelo maquinário que limpa o terreno para a construção de um condomínio de casas vizinho. 

Além de cultivar mudas para os vizinhos, Grillo também gosta de aconselhá-los. Quando começou a se interessar por reflorestamento, Ninian disse a ele que gostaria de plantar mogno africano. "Eu perguntei: mas por que mogno africano e não uma árvore nativa? Aos poucos, com conhecimento sobre a importância de preservar a mata nativa de uma região, temos conseguido reconstituir as florestas que foram derrubadas em décadas passadas. Gosto desse trabalho de aconselhar sobre qual é a árvore mais adequada para um lugar", diz Grillo.

O músico dá preferência para as nativas, mas ainda planta árvores exóticas para a região, como a seringueira. "Plantei seringueira recentemente aqui porque historicamente é muito importante pela relação com o ciclo da borracha." Todos os planos a curto e médio prazo de Grillo confluem no sítio Copaíba: ele pensa em se mudar definitivamente para o sítio Copaíba, E quer acumular mais um cargo à lista das profissões: educador. "Penso em promover passeios guiados aqui no sítio, algo voltado para a questão da educação ambiental, mas tem algumas questões burocráticas que ainda preciso resolver", diz. 

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