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A emergência da segurança alimentar

Iniciativas de apoio à agricultura familiar são formas de trazer resiliência para produtores e consumidores

Estadão Blue Studio, O Estado de S.Paulo

15 de junho de 2022 | 06h00

Na abertura da Cúpula dos Sistemas Alimentares, realizada em setembro de 2021 na sede da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York, António Guterres, secretário-geral da entidade, foi enfático ao defender que quaisquer ações que visem à construção de um futuro com segurança alimentar precisam abordar o problema de forma abrangente. 

Ou seja, não basta apenas buscar o direito fundamental à oferta de alimentos bons e baratos: é preciso fazer isso sem causar mais danos à natureza e promovendo o desenvolvimento e a prosperidade de todos os envolvidos na produção, transformação, transporte, armazenamento e comercialização dos alimentos – especialmente os pequenos produtores.

Esse desafio não é simples de ser vencido. Os modelos estatísticos preveem que a população global vai rondar os 10 bilhões de pessoas até 2050, que vão consumir até 30 bilhões de refeições por dia. Um estudo da agência ambiental holandesa PBL feito em 2015 alertou que, sem medidas de restauração ou mitigação, o esforço para alimentar esse contingente nas próximas décadas vai exigir que as terras de cultivo cresçam 20% em relação à utilização atual – à custa das áreas naturais – e que 6% da biodiversidade remanescente será perdida devido à produção intensiva e às mudanças climáticas geradas por ela. Hoje, pelo menos 31% das emissões totais de gases do efeito estufa já são originadas dos sistemas alimentares.

Não é preciso observar apenas as projeções para as próximas décadas. A falta de comida faz parte do dia a dia do brasileiro e só piorou com a pandemia. No início deste mês, o 2º Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia revelou que mais da metade (58,7%) dos brasileiros convive hoje com algum grau de insegurança alimentar. São 33,1 milhões de pessoas no País que não conseguem se alimentar direito, revela a pesquisa. O patamar é o mesmo verificado na década de 1990, o que mostra o retrocesso gerado pela crise sanitária e por suas consequências – como a inflação em alta e a quebra de cadeias de abastecimento.

Daí, a importância que tem sido dada aos projetos envolvendo pequenos produtores em todo o mundo para que os novos usos da terra consigam criar resiliência a ponto de contribuir decisivamente tanto para o acesso a gêneros alimentícios de primeira necessidade como para a mitigação do carbono emitido em sua produção. 

Uma das iniciativas que vêm obtendo maior sucesso são os sistemas agroflorestais (SAFs), que unem em um mesmo local áreas de agricultura com árvores nativas e plantas perenes, às vezes com integração de criação de animais. Segundo o Painel Intergovernamental para a Mudança Climática (IPCC, na sigla em inglês), esses sistemas ajudam no aumento da produtividade da terra, nos meios de subsistência, na redução da erosão do solo, na melhor qualidade da água e na obtenção de climas regionais mais hospitaleiros. Ou seja, há uma confiança no potencial de mitigação da agrossilvicultura em escala.

Esse tipo de iniciativa tem crescido no País. De acordo com os dados divulgados pelo Censo Agropecuário 2017 do IBGE (o último realizado), o Brasil possuía naquele ano cerca de 490 mil estabelecimentos agropecuários utilizando sistemas agroflorestais, que ocupavam uma área de 13,8 milhões de hectares. Isso num universo de quase quatro milhões de estabelecimentos familiares.

Exemplos dos sistemas agroflorestais no País são a combinação de plantio de cacau com bananeiras e os projetos que unem a produção de madeira (acácia, eucalipto e pinus, por exemplo) com produtos não madeireiros, como frutas, arroz, feijão e milho, além de outros do tipo arbustivo, como açaí e café.

 

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